ESTRAGO DA NAÇÃO

8/31/2006

Oportunidade perdida

A polémica levantada por Eduardo Cintra Torres (ECT) na sua coluna de opinião no Público da semana passada - em que analisando o tempo de abordagem dos noticiários da RTP em relação aos incêndios, acusa depois, «escondendo-se» em fontes anónimas, que o Governo dá «recados» à Direcção de Informação Pública - acabou por ser uma oportunidade perdida para se chegar ao âmago da questão. Em vez de acusar - sem jamais conseguir provar - poderia e deveria questionar. E de forma muito comprometedora.

Se se recordam, ECT comparou os noticiários das televisões no dia 12 de Agosto para mostrar que havia uma clara secundarização dos fogos na RTP. O dia 12 foi um sábado. Por acaso, eu já tinha feito uma análise semelhante no dia 6 de Agosto, quando então escrevi o post «O frete televisivo», que podem aqui reler:

No Portugal da RTP - empresa pública de televisão -, hoje não houve fogos em Portugal. E os que houve ficaram remetidos para as calendas do alinhamento e apenas os que foram extintos. Enquanto as outras televisões (SIC e TVI) deram o destaque merecido, com directos q.b., a RTP gastou 33 minutos do seu telejornal das 20 horas a abordar a guerra no Líbano (com pelo menos três directos com outros quantos jornalistas), a tensão no Irão, os problemas em Gaza, a doença de Fidel Castro, um acidente no Parque da Pena devido à queda de uma ramada de eucalipto (que causou uma morte). Depois em dois ou três minutos, a RTP apenas abordou dois incêndios, ambos circunscritos de manhã e, nessa altura, já extintos: na Póvoa do Varzim e em Paredes (Aguiar de Sousa). De resto, nem uma única palavra sobre a situação actual, designadamente a mais de uma dezena de incêndios que então estavam ainda não circunscritos. Eis um exemplo de serviço público que, sob critérios inconfessáveis, se confunde com serviço do Governo. Eu bem que temia que a introdução de critérios para a abordagem dos incêndios pela Direcção de Informação da RTP - de que falei há dias -, ia dar nisto...

Ora, o dia 6 de Agosto foi um domingo. Também fui reparando, ao longo dessa semana, que a RTP passou a dar um destaque algo semelhante à das outras televisões. E também já tinha reparado que no dia 9 de Julho - um domingo -, quando morreram os seis bombeiros na Guarda, a RTP também quase ignorou o caso.

Em suma, ECT poderia - e deveria, porventura - ter levado o seu trabalho mais longe. Porque os indícios que tenho - e que poderiam sem confirmados com um pequeno trabalho - é que existiram grandes diferenças entre os noticiários da «RTP fim-de-semana» e da «RTP dia-da-semana». Se isso se confirmasse com uma análise um pouco mais exaustiva - como indiciam os dias 9 de Julho, 6 e 12 de Agosto -, então munido de dados concretos, ECT poderia questionar a RTP de tão estranho critérios, tanto mais que as equipas que fazem os noticiários são distintas nestes dois períodos. E se uma (a dos «dias-da-semana) teve critérios objectivos, a outra (a dos «fim-de-semana) não os teve.... algo teria de ser bem explicado.

Nota: O uso das fontes anónimas (uma «praga» no jornalismo português) deveria ser erradicado do jornalismo ou apenas usado em circunstâncias muitíssimo especiais. E em notícias de política (ou com implicações nesta área) deveria ser, desde já, banido. A fonte anónima em Portugal serve para tudo, desde lançar boatos, fazer acusações ou «disfarçar» a incompetência dos jornalistas em investigar ou assumir a responsabilidade daquilo que escrevem. Se vezes usei (muito poucas) as fontes anónimas em artigos, foi para proteger pessoas, não para me «proteger» de ataques ao que assumidamente escrevi.

8/30/2006

Simplex complicadex

A Fundação da Ciência e Tecnologia, tutelada pelo Ministério da Ciência - que deveria ser uma espécie de porta-estandarte do «choque tecnológico» - decidiu , imbuída no espítito «Simplex», passar a receber as candidaturas aos projectos de investigação pelas universidades e institutos através da Internet. Na teoria, uma excelente ideia, apenas com virtudes: poupança nos custos, no papel e na burocracias de correios e quejandos.

Porém, o «Simplex» anda cada vez a mostrar-se mais «Complidex». Hoje soube-se que uns milhares de investigadores andaram a queimar neurónios nos últimos dias e horas de sono a tentar meter as suas candidaturas no sistema criado pela FCT. O tal criado pelo sistema Simplex eimbuído pelo choque tecnológico; ou vice-versa.

Razão: as tentativas de acesso foram tantas que o sistema bloqueou ou ficou baralhado com investigadores a chegarem a entrar, com as respectivas passwords, nas candidaturas de outros investigadores. Ou seja, a maior das confusões.

A FCT andou a «pedir emprestado» (se assim se pode dizer), uns quantos servidores para reforçar o seu choque tecnológico, mas nem assim. Resultado: culpou os investigadores de deixarem tudo para o último dia (coisa que o Simplex, por tão simplificado, não soube prever, parecendo que não conhece os portugueses ou que a entrega de uma candidatura até ao prazo final não é tão válida e legítima como a entregue com um mês de antecedência) e teve de alargar a aceitação das candidaturas até ao dia 15 de Setembro.

Esta é, pelo que sei, a segunda situação de atraso (a primeira foi com o «selo do carro») em que o Simplex dá para o torto e que se têm de prorrogar prazos, donde se concluiu que o choque tecnológico em Portugal acaba por ser uma «força de bloqueio».

8/29/2006

Um Estado forte contra os fracos

Executar as demolições na Azinhaga dos Besouros é legal e eticamente um acto de justiça social, mesmo que estejam subjacentes alguns factores sociais de injustiça individual. As construções são ilegais e num Estado de Direito , a perpetuação destas situações apenas permite o seu alastramento indefinido, com «expedientes» vários feitos por quem aguarda que o Estado Providência lhe arrange uma casa gratuita, paga pelos contribuintes.

Porém, o Estado de Direito comete uma injustiça colectiva quando o exercício de poder face às populações mais pobres é feita com a maior das celeridades e sem apelo nem agravo. O Estado de Direito deveria exercer a mesma acção contra as casas ilegais que pululam por muitos lados, de gente que há anos «aguarda» que as suas casas sejam legitimamente demolidas. Estou-me a lembrar da Arrábida e do Algarve, por exemplo...

Em suma, o Estado de Direito em Portugal é forte contra os fracos e fraco contra os fortes...
Onde é que eu já vi isto?

O ministro da Agricultura foi hoje à Companhia de Lezírias apresentar uma nova estratégia da maior herdade pública de produção primária. Afinal, a única «inovação» que noto, pelas notícias, é a pretensão de «se criar uma Fundação com entidades privadas, mecenas, câmaras, banca e outras instituições da sociedade civil, com o objectivo de envolvê-las na preservação do cavalo Lusitano», de acordo com as palavras do ministro Jaime Silva, aproveitando a integração do Serviço Nacional Coudélico e da Coudelaria de Alter-do- Chão na Companhia das Lezírias.

Embora o actual Governo já tenha garantido que não pretende privatizar a Companhia das Lezírias - uma ideia obtusa do Governo de Durão Barroso -, esta ideia de se criar uma Fundação com entidades privada, mecenas, autarquias, bancas e quejando «cheira-me» a uma repetição do processo da Herdade da Vargem Fresca. Para quem não se recorda, a ideia inicial era implementar um projecto do agro-turismo de carácter pedagógico com uma empresa estrangeira e com a FLAD, constituindo-se a Prtucele. Entretanto entrou em jogo a banca, a Companhia das Lezírias vendeu os terrenos ao preço da uva mijona e tivemos depois um imbróglio de todo o tamanho com corte de sobreiros e outras tropelias conhecidas em torno de um projecto imobiliário. Não se admirem, portanto, se dentro de algum tempo esta «Fundação do Cavalo» galope rapidamente para um projecto imobiliário...

8/28/2006

Um pivete lusitano

Parece já fazer parte do fado lusitano, as redes de esgotos a rebentarem durante o Verão, as bandeiras azuis a serem arreadas por causa dos esgotos, os turistas a fugirem do pivete ora por causa do derrame dos ditos esgotos ou alegadamente por causa das lamas das ETAR. Os casos, dir-se-á, ocorrem de forma pontual. Mas juntando os pontos, algo está mal, muito mal, quando o somatório é tão elevado e percorre o país de Norte a Sul. Afinal, os fortes investimentos no litoral em saneamento básico serviu para isto?

Deixo aqui uma breve lista de notícias, não exaustivas, que foram saindo apenas neste mês de Agosto; algumas ter-me-ão escapado:

28 de Agosto (Diário de Notícias) - Um mau cheiro intenso durante várias horas, provocado pela remoção de lamas de uma Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR), obrigou dezenas de turistas a abandonar, no sábado, a praia da Falésia, em Vilamoura.

25 de Agosto (Jornal de Notícias) - Ao fim da tarde da passada terça-feira, a Capitania de Caminha hasteou a bandeira vermelha na praia de Vila Praia de Âncora, após ter sido notificada pelo Ministério do Ambiente de que a Delegação Regional de Saúde tinha interditado os banhos na designada Praia das Crianças", devido à presença de salmonelas (vestígios de contaminação fecal) nas duas últimas análises realizadas às águas da foz do rio Âncora, nos dias 25 de Julho e 8 de Agosto.

23 de Agosto (Lusa) - A praia de Vale do Lobo, no Algarve, vai deixar de ter Bandeira Azul até ao final da época balnear devido à poluição que originou uma análise má à qualidade da água.

21 Agosto (Lusa) - A Capitania do Porto da Figueira da Foz alargou hoje a uma extensão de 800 metros a interdição a banhos na praia de Buarcos, na Figueira da Foz, devido a poluição por esgotos, disse fonte daquela entidade.

18 de Agosto (Lusa) - Uma fuga de poluentes atingiu hoje a Ria Formosa, perto da Doca de Faro, uma situação justificada pela empresa municipal de águas e resíduos FAGAR com a "forte chuvada" que se abateu sobre a cidade na quinta-feira.

17 Agosto (Lusa) - A praia da Franquia, em Vila Nova de Milfontes (Odemira), já foi reaberta a uso balnear depois de interdita durante alguns dias, devido a uma descarga de esgotos domésticos no areal, garantiu hoje o município. O presidente da Câmara Municipal de Odemira, António Camilo, explicou hoje à agência Lusa que a descarga de esgotos domésticos, ocorrida na semana passada, foi causada por uma "avaria" no colector de águas pluviais.

9 de Agosto (Público) - Uma descarga de esgotos e lamas interditou hoje os banhos na praia de Esmoriz, em Ovar, pelo segundo dia consecutivo.

8/27/2006

Um novo teste se aproxima

Depois das chuvas que atingiram Portugal durante alguns dias a meio deste mês, estamos quase a atingir a segunda semana sem precipitação. As temperaturas têm estado relativamente amenas para esta época do ano, com excepção do sul do país e a parte sul da Beira Interior. De acordo com as previsões meteorológicas para os próximos dias (sempre falíveis, sobretudo com mais de 72 horas), o tempo será quente e seco, com excepção da faixa Minho-Beira Litoral. Isto para dizer que novo teste se aproxima...

Aliás, convém salientar que, se é certo que dificilmente se chegará aos anos catastróficos de 2003 e 2005 – quase impossível, fisicamente, de ocorrer já, por as extensas áreas então dizimadas estarem em «pousio», imunes aos fogos –, uma retrospectiva ao passado mostra que Setembro, e mesmo a primeira quinzena de Outubro, podem contribuir para aumentar significativamente a destruição. Com efeito, nos anos de 2000, 2001 e 2003, as chamas devastaram, durante este período, uma área na casa dos 40 mil hectares. No ano passado atingiu os 36 mil hectares. Nos anos de 2002 e 2004, o final do Verão e início de Outono foi mais benigno, devido às chuvas, tendo ardido 6,7 mil e 15 mil hectares, respectivamente.

O próximo mês será assim crucial para confirmar se o Governo conseguirá, pela primeira vez desde 1999, que o país arda menos de 100 mil hectares – um valor que, aliás, se encontra como referência no recém aprovado Plano Nacional de Defesa da Floresta contra Incêndios.

No entanto, os números da área ardida que serão, previsivelmente, apresentados em Outubro estarão ainda sujeitos a rectificações, pois por norma pecam por defeito. Por exemplo, no ano passado os primeiros valores apontavam para uma área ardida de 294 mil hectares. Com o avançar dos meses, sucessivas rectificações fizeram este número subir para os 338 mil hectares, ou seja, um acréscimo de 15%.

8/25/2006

Conceitos de bombeirês

Pela primeira vez, um take da Lusa, desta noite, esclarece as noções de bombeirês, de acordo com o SNBPC, em relação aos incêndios florestais. Passo a citar esse extracto da agência noticiosa

O facto de um incêndio estar "circunscrito" significa apenas que está impedido de se proagar.
Na terminologia dos bombeiros, segue-se depois a fase em que está "dominado", isto é, que as chamas cedem aos meios de combate.
Depois, o incêndio poderá ser "extinto", passando-se depois à fase de "rescaldo", a operação mais complexa em que se tenta impedir que nem uma simples brasa fique no terreno e dê origem a reacendimentos.
Por último, o incêndio entra em fase de "vigilância", em que, durante algumas horas, várias pessoas velam para que qualquer foco mal apagado não desperte o pesadelo das chamas.

Um pouco de humor na página do SNBPC

Como se sabe, Plutão foi despromovido, deixando de ser considerado um planeta do Sistema Solar. Provavelmente em protesto contra essa decisão, o SNBPC teve durante breves minutos (corrigiu entratanto) a seguinte descrição dos meios usados no incêndios de Proença-a-Nova:

Aerotanque pesado Canadair,Beriev,CODIS,2ºCODIS,GRIF Santarém,GRIF Portalegre,GRIF Leiria,Coluna Nacional, Veiculo de Comando e Comunicações. Posto de Comando no CMA Proença-a-Nova. 4 Plutões militares.
A ajuda do céu

Ontem, o Jornal de Notícias fazia manchete (ver aqui) sobre a alegada menor utilização dos meios aéreos no combate aos incêndios deste ano em comparação com o ano anterior. A notícia referia, logo no início, o seguinte: «Aviões menos horas no ar, menos meios de reforço, menos militares empenhados no terreno. Apesar dos recordes no número diário de ocorrências atingidos na primeira quinzena de Agosto, os dados quantitativos de actuação do dispositivo de combate a incêndios mantêm-se todos muito longe dos valores de 2005. O número de horas de voo dos meios aéreos é de pouco mais de metade do ano passado, considerando o período até 15 de Agosto, a actuação dos grupos de reforço ficou-se por um terço e também o recurso a meios militares e outros apoios logísticos diminuiu».

Este é o género de análise jornalística usando estatística de pacotilha, sem qualquer nexo, cai no habitual erro de comparar um ano com o anterior. E sobretudo com o facto de não se fazer uma análise crítica aos números verdadeiros de ocorrências. Aliás, mais à frente no texto, acaba-se por acrescentar que «estes dados [menor uso de meios] contrastam com a estatística das ocorrências, que este ano é superior à média dos cinco anteriores (respectivamente 19 195 e 17 933), embora o número de incêndios (com mais de um hectare) seja inferior. Isto explica-se porque na contabilidade final entram os fogachos (com menos de um hectare) e as ocorrências sem área, como os falsos alarmes, que representam cerca de um quarto do total, segundo dados da Direcção-Geral de Recursos Florestais».

Ou seja, em rigor, se quisermos comparar o uso de meios aéreos entre dois anos (o que, mesmo assim, é um exercício fútil) deveriamos apenas comparar os incêndios que, em cada um desses anos, usaram de facto esses meios aéreos. Caso contrário, estaremos a meter ao «barulho» uma infinidade das tais ocorrências sem áreas (é a primeira vez que, numa notícia, acaba por se assumir oficialmente que existem ocorrências sem área - e não sei o que isto é senão fogos que não existem - e os falsos alarmes nas estatísticas oficiais) que desvirtuam qualquer análise comparativa. O que interessa saber é se por cada intervenção (leia-se incêndio com uso de aeronaves), a factura, em dinheiro, está a aumentar ou não.

Embora admita que não tenha informação estatisticamente válida, ao longo deste Verão tenho constatado situações em que existe um ataque massivo de meios aéreos em determinados fogos nascentes, sobretudo em períodos de menor incidência de incêndios. Por exemplo, neste preciso momento, encontra-se, segundo o site do SNBPC, um único incêndio não circunscrito em Portugal: em Vale do Urso, no concelho de Proença-a-Nova (Castelo Branco), que alegadamente se iniciou às 12h41 (neste momento em que escrevo são 13h00). Ora, para um fogo que supostamente começou há pouco tempo, temos neste momento no teatro das operações, além de 73 bombeiros e 23 veículos, nada mais nada menos do que 3 helicópteros, 4 aerotanques e foi accionado o Canadair e o Beriev. Ou seja, para um só incêndio manda-se 9 meios aéreos, que têm obviamente custos elevadíssimos. Já tenho referido, aliás, que é um erro crasso confiar apenas na capacidade de extinção dos meios aéreos. Numa situação como de hoje (apenas com um fogo activo a esta hora) tem uma elevada probabilidade de sucesso, mas com uma factura pesada. E em dias com maior número de incêndios, acaba por falhar, porque não podem ir a todas. Em suma, a aposta massiva em meios aéreos acaba apenas por disfarçar a ineficácia do combate em terra. Até um dia...

8/24/2006

Se até o líder dos bombeiros critica os números do Governo....

Por estranho que possa parecer - e ainda mais tendo em consideração o post anterior -, tenho a melhor das impressões em relação à postura e atitudes do presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Duarte Caldeira. Em inúmeras posições, ele mostra um conhecimento profundo da realidade dos incêndios florestais e, confesso, subscrevo a esmagadora maioria das análises que faz sobre estas questões. Na verdade, a sua postura é quase de diplomata dos bombeiros, em contraste com a visão algo maniqueísta da quase generalidade das chefias dos bombeiros voluntários.

Este meu intróito serve para realçar o editorial da últiam edição do jornal «BP», da Liga dos Bombeiros Portugueses, onde Duarte Caldeira aponta, com oportunidade, as incoerências dos relatórios da Direcção-Geral dos Recursos Florestais que têm um rigor que deixa muito a desejar. E defende também a criação de uma estrutura - eventualmente um Observatório - que ponha fim à bandalheira das estatísticas oficiais - aspecto, aliás, defendo no meu livro e que tenho vindo incessantemente a chamar a atenção nos últimos tempos.

O texto de Duarte Caldeira pode ser lido aqui (ver página 2 - atenção que o pdf demora a ser descarregado), mas para facilitar, publico-o textualmente a seguir.


A saga dos relatórios da DGRF*

Não é novo. Sempre questionámos os modelos de relatório elaborados pela Direcção-Geral dos Recursos Florestais (DGRF), em especial no que se refere às análises dos dados estatísticos referentes ao número de ocorrências e às áreas ardidas de anos diferentes.
Continuamos com uma dúvida quanto à natureza provisória dos relatórios, bem como quanto ao momento em que os dados por eles disponibilizados passam a definitivos.
Temos ainda dúvidas quanto aos critérios de validação da informação de base em que eles se sustentam.
A título de exemplo, no relatório relativo ao período de um de janeiro a 31 de Julho refere-se que , no distrito de Viseu, ocorreram 50 reacendimentos, enquanto em todos os demais distritos os reacendimentos situam-se entre zero e seis.
Atrevemo-nos a afirmar: há qualquer coisa nestes dados que carece de explicação. Estarão a ser adoptados em todo o País os mesmos critérios de quantificação das variáveis ema nálise?
Esta pergunta pode colocar-se em relação a outras incoerências que um estudo cuidado e sistematizado dos relatórios produzidos pela DGRF sugere.
Como confiar nos dados que nos são disponibilizados?
Como comparar resultados de anos diferentes, se não temos a necessária confiança quanto à fiabilidade da informação que os deve sustentar?
Esta é uma matéria relevante, que exige a adopção de medidas.
Voltamos a propor a criação de uma estrutura (um Observatório?) que acerte as metodologias, integre a informação, padronize as variáveis, monitorize as medidas de acção política e, só depois, avalie e divulgue os resultados.
Ponha-se fim aos campeonatos de estatística, que apenas servem para alimentar as agendas desertas, no mês de Agosto, dos meios de comunicação social.
Levemos todos a sério, de uma vez por todas, o carácter determinante da informação, enquanto instrumento insubstituível para suportar as decisões.

* Duarte Caldeira, Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, in BP, Agosto de 2006, pg. 2



Levei uma repreensão

No último jornal mensal «BP», de Agosto, editado pela Liga dos Bombeiros Portugueses, na última página, este vosso escriba merece uma nota de destaque na secção «Louvor/Repreensão». Claro que a mim, escriba, coube a «Repreensão», «pela forma como aborda a temática dos incêndios, com mal disfarçados preconceitos para com os bombeiros, e não só» (ver aqui).

Defender a profissionalização para que os bombeiros tenham melhores condições, melhor treino físico, táctico e estratégico, considerar que é inumano colocá-los em risco de vida (permitindo que estejam em acções de combate dias a fio) é, segundo a Liga dos Bombeiros Portugueses, denotar «mal disfarçados preconceitos para com os bombeiros».

Defender que deve ser feita uma avaliação objectiva da eficácia, um controlo dos registos das ocorrências, uma mais adequada distribuição dos meios de combate é, segundo a Liga dos Bombeiros Portugueses, denotar «mal disfarçados preconceitos para com os bombeiros».

Defender que deveria haver uma clarificação do Estatuto Social dos Bombeiros, de modo a que os bombeiros voluntários não disponíveis deixem de «parasitar» os benefícios sociais dos bombeiros voluntários disponíveis é, segundo a Liga dos Bombeiros Portugueses, denotar «mal disfarçados preconceitos para com os bombeiros».

Defender que o comando das operações deve ser entregue a pessoas com habilitações e eleitas pelo mérito é, segundo a Liga dos Bombeiros Portugueses, denotar «mal disfarçados preconceitos para com os bombeiros».

Enfim, a existir um preconceito é da parte do órgão oficial da Liga dos Bombeiros Portugueses que considera que quem mexe na «vaca sagrada» - o voluntariado - só pode «ter mal disfarçados preconceitos».

Quanto ao «e não só», não entendo. Pode ser que no jornal de Setembro haja mais espaço para se explicarem.

8/23/2006

Será que mudámos alguma coisa?

Encontro num catálogo de um livreiro uma obra, publicada em dois volumes (mas só um está disponível), com um sugestivo título: Genuína exposição do tremendo marasmo político em que cahio Portugal, com desenganada indicação dos únicos remédios apropriados à sua cura radical, dedicada aos verdadeiros amigos do bem público. A obra é de 1834, mas se calhar alguém deveria publicar outra, 172 anos depois.
É triste, é muito triste

O Governo continua insensível aos apelos dos agricultores da zona afectada pelo incêndio do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Ouvi agora o presidente da Junta de Freguesia do Soajo a dizer na TSF que só queriam que fossem fornecidos a alimentação para o gado que perderam os pastos, mas que não há disponibilidade estatal para esse apoio. Estamos a falar de umas poucas dezenas de milhares de euros que o Estado tem obrigação de suportar por duas razões: o incêndio na Peneda-Gerês deveu-se sobretudo a negligência nas operações de combate e estamos perante uma área protegida em que as relações com a população humana residente é vital. Aliás, é por estas (faltas de apoio) e por outras que, por vezes, se observa tanta animosidade das populações em relação à conservação da Natureza.


8/21/2006

Chuva de fogachos esconde deficiências

Como não consegui publicar este texto em nenhum órgão de comunicação social (e não quero estar aqui a explicar as razões, que são irrelevantes para o caso), opto por o colocar aqui para não preder actualidade. Consiste numa análise ao último relatório da Direcção-Geral dos Recursos Florestais, e que contraria a propalada eficácia do combate aos incêndios.

Quase 90% de alegado sucesso na primeira intervenção nos fogos nascentes não evitaram que este ano esteja a ser um dos piores da década em termos de eficácia no combate aos incêndios florestais. Apesar do Governo – através dos ministros da Administração Interna, da Agricultura e até da Presidência – se ter congratulado esta semana com os bons resultados da «época dos fogos», os dados do último relatório da Direcção-Geral dos Recursos Florestais (DGRF) contradizem este optimismo. Na realidade, o ano de 2006 está a atingir graus de destruição quase semelhantes a 2004 e piores do que os obtidos no período entre 1996 e 2002.

De facto, descontando os mais de 16 mil fogachos registados até 15 de Agosto – ou seja, as pequenas ignições que, no seu conjunto, não queimaram mais de dois mil hectares –, cada incêndio deste ano causou uma devastação média de 20 hectares. Pior do que isto apenas se encontram os catastróficos anos de 2003 (80 hectares por incêndio) e de 2005 (40 hectares por incêndio). De resto, os valores de 2006 estão um pouco acima de 2004 (25 hectares por incêndio), mas superam largamente os do período anterior a 2003. Por exemplo, em 1999 – último ano em que se ficou abaixo dos 100 mil hectares ardidos –, o grau de destruição cifrou-se em menos de 12 hectares por incêndio.

Mas ainda existem mais sinais de preocupação relativamente ao desempenho no combate. Os incêndios deste ano estão a atingir sobretudo concelhos que, desde 1990, tinham estado quase imunes à devastação das chamas. E a actual taxa de destruição em áreas protegidas (cerca de nove mil hectares em 8% do território português) é o dobro da média nacional. Além disto, mesmo comparando com a situação espanhola – que está a atravessar a pior época da última década, já com 120 mil hectares queimados –, Portugal apresenta, mesmo assim, piores resultados relativos. De facto, como o território de Espanha é cinco vezes e meia superior a Portugal, os nossos 50 mil hectares ardidos até agora representariam, do outro lado da fronteira, 275 mil hectares. Ou seja, mesmo este ano, o nosso país ardeu a uma taxa duas vezes superior a Espanha.

Este cenário mostra, assim, que a aposta na primeira intervenção está longe de ser vencedora. E os resultados até parecem mostrar, em muitas situações, que os indicadores de eficácia podem estar muito longe da realidade. Com efeito, até agora conseguiu-se extinguir 88% de todas as ignições registadas antes de ultrapassar um hectare ardido – fronteira que separa, tecnicamente, os fogachos dos incêndios –, mas a evolução é demasiado excelente para não levantar dúvidas. De facto, na última década a taxa de sucesso da primeira intervenção rondava os 76%, sem que em nenhum ano se conseguisse chegar aos 80%. Estes valores já eram, em si mesmo, demasiado elevados para os padrões internacionais. Por exemplo, na Espanha – onde existem menos ignições e área ardida, mesmo em termos absolutos –, essa taxa ronda apenas os 65%.

Mais do que uma eficácia de excelência – que, em todo o caso, não se repete no combate estendido – estas taxas indiciam alguma «engenharia estatística», que permite manipulações. Com efeito, apenas os incêndios com mais de 10 hectares ardidos têm uma confirmação posterior da sua existência no terreno, por parte da DGRF. Significa isto que a esmagadora maioria dos registos de pequenas ignições é transmitida pelas corporações de bombeiros, sem ocorrer qualquer validação oficial. Por exemplo, no ano passado, 28% dos fogos registados tiveram áreas alegadamente queimadas inferiores a 100 metros quadrados. E existem mesmo milhares de registos com áreas de um, dois ou três metros quadrados. Ou seja, muitos podem nem sequer ter existido.

O interesse em registar muitos fogachos é duplo: funciona como argumento da dispersão de meios – justificativo aquando dos grandes incêndios – e melhora a eficácia da primeira intervenção. Isso mesmo se verifica este ano: houve apenas 2402 incêndios – um valor que está dentro da normalidade –, mas registaram-se quase 16800 fogachos, um número absurdamente elevado. Numa análise detalhada, verificam-se mesmo casos regionais intrigantes. Por exemplo, em Faro, em que apenas arderam 103 hectares até agora, houve já 506 ignições – mais do dobro do número médio em anos anteriores –, das quais 465 foram meros fogachos. Em Aveiro para 1856 ignições contabilizam-se 1765 fogachos, o que deste modo permite uma impressionante taxa de sucesso de primeira intervenção de 95%.

A suspeita de inflação na contabilização de fogachos ganha ainda mais forma quando se comparam os registos nacionais com o Nordeste espanhol, que reconhecidamente apanhou com uma vaga de chamas. Até meio de Agosto, o Ministério do Ambiente espanhol registou 7920 fogos nas comunidades da Galiza, Astúrias, Cantábria e País Vasco e nas províncias de Leão e Zamora. Porém, sem que isso fosse visível no terreno, em Portugal terão sido registados 8.059 fogos apenas nos distritos de Viana do Castelo, Braga e Porto. Neste último distrito contabilizou-se 1702 fogos na primeira quinzena de Agosto – o que dá mais de uma centena por dia –, embora somente surjam nas estatísticas oficiais 212 a ultrapassarem um hectare de área queimada.

Mas também nos reacendimentos – as novas ignições em fogos considerados extintos, por deficiência no rescaldo –, os resultados deste ano mostram uma evolução anormalmente boa. De facto, no último quinquénio, a taxa de reacendimentos em Portugal situava-se nos 4%, quase quatro vezes superior a Espanha. No entanto, este ano, oficialmente os reacendimentos quase desapareceram. Na primeira quinzena de Agosto apenas houve 13, representando 0,2% das ignições registadas. Ora, em igual período do ano passado – em que houve cerca de metade dos fogos –, tinham sido registados 272 reacendimentos, ou seja, 7% do total. Neste caso, por isso, a contabilidade oficial parece estar a excluir reacendimentos, para dar uma ideia de eficácia.

8/20/2006

Inventar a roda com ela já descoberta

O anúncio do Ministério da Administração Interna de profissionalizar os bombeiros que combatem os incêndios florestais, aproveitando-os no restante período para outras funções, embora seja um projecto ainda verde, parece-me com contornos que o direcciona para o fracasso. Pelo que se sabe pela imprensa, a ideia é criar uma estrutura profissional dentro das corporações de bombeiros voluntários - o que, em abono da verdade, já existe para os serviços ambulatórios e para a estrutura de combate aos fogos durante o Verão - com a criação de um comandante a ser nomeado pelo presidente da autarquia.

Tenho defendido a profissionalização dos bombeiros - única forma de garantir disponibilidade, de dar o treino e as tácticas mais eficazes, e portanto exigir melhores resultados -, mas criar uma estrutura profissional paga pelos dinheiros públicos no interior de uma estrutura gerida por associações privadas (como são as associações de bombeiros voluntários) não parece que vá dar bons resultados. Mais ainda quando um dos objectivos é o combate aos incêndios florestais. Voltarei ao tema, quando se conhecer em concreto o que se vai fazer, mas julgo que o modelo que se deveria seguir, no caso dos fogos florestais, era criar estruturas autónomas às dos actuais bombeiros voluntários, apenas controladas pelo Estado. Veja-se o que se fez em algumas cidades portuguesas (Lisboa, Porto, Gaia, etc.) ou no estrangeiro. Isto não retiraria trabalho aos bombeiros voluntários, tanto mais que apenas 3% das suas intervenções ao longo do ano são referentes ao combate aos incêndios florestais.

P.S. A imprensa, em geral, continua a ignorar que praticamente todos os bombeiros que estão a combater os fogos são profissionais ou profissionalizados (durante o Verão). A percentagem de bombeiros voluntários disponíveis é irrelevante, e ainda mais se se descontar aqueles que são funcionários de autarquias, cujo presidente os disponibiliza para as operações de combate (mas mesmo estes, bem vistas as coisas, recebem o dinheiro pela função na autarquia). Actualmente, no combate aos incêndios, o voluntariado praticamente não existe.

8/18/2006

Isto não é ser profeta, é conhecer os políticos

Ouvindo os ministros da Administração Interna, da Agricultura e até da Presidência tecerem loas às maravilhas que se estão a conseguir com a alegada redução da área ardida - somente não se juntou ainda o ministro do Ambiente, talvez por escrúpulos -, não resisto a colocar aqui uma pequena passagem do meu livro «Portugal: O Vermelho e o Negro» (vd. pg. 103-104):

Lamentavelmente, os piores anos de incêndios acabam, a prazo, por ser «benéficos» para os políticos, uma vez que servem na perfeição para subir o conceito de «ano catastrófico». Veja-se o caso de 2004: apesar de ter chovido bastante em Agosto, mesmo assim ardeu quase 130 mil hectares. Esse valor seria considerado catastrófico nos anos 70 e 80, mas perdeu «relevância» na presente década por causa dos trágicos números de 2003. O mesmo se aplica ao ano de 2005, que tendo sido também devastador, ficou 100 mil hectares abaixo dos valores de 2003. Os últimos anos têm mesmo modificado a percepção nacional sobre o grau de destruição. Se nas décadas de 80 e 90, um ano que rondasse 100 mil hectares queimados era tido como péssimo; agora seria um valor considerado excelente. Se num próximo ano se se regressar à casa da centena de milhares de hectares, os governantes terão a desfaçatez de vincar a «excelência» das medidas de prevenção e a eficácia do combate. Mesmo que tenha chovido a cântaros durante todo o Verão. A partir de agora para um ano ser publicamente calamitoso «necessita» que arda mais de 425 mil hectares. E, claro, se tal acontecer, a culpa será sempre do tempo quente e seco, como o senso comum dos portugueses «compreenderá» e a falta de memória auxiliará.

Os parabéns ao Ministério do Ambiente pelo bom serviço

Se nas áreas protegidas arderam 9.068 hectares (cf. informações do ICN); e se estas constituem cerca de 8% do total do território português, significa que se Portugal inteiro ardesse como as áreas protegidas deveríamos ter até agora um saldo de quase 115 mil hectares. Como ardeu «apenas» 50 mil, quer isto dizer que o Ministério do Ambiente está de parabéns: em termos proporcionais ardeu nas áreas protegidas o dobro daquilo que ardeu no país!

Mas como tudo recupera, garante o Instituto de Conservação da Natureza, não faz mal nenhum. The fire must go on.

8/17/2006

O que fazer quando tudo arde?

Conta a Lusa que o ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, considerou hoje que a redução na quantidade de área ardida este ano, que representa quase 50 mil hectares, deve-se «ao conjunto de acções no domínio da prevenção mas também no domínio do combate aos incêndios». Ou seja, «esquece-se» que ardeu 900 mil hectares nos últimos três anos e que essas zonas estão em pousio.
Eu, confesso, começo a ter dificuldades de estômago para aguentar esta demagogia «homicida» dos governantes. O país vai continuar a arder. Este ano e nos próximos. E merece!

8/16/2006

A vontade de alarmar

Anteontem, o Correio da Manhã fazia manchete com a notícia de que seis das seis mil aves sujeitas em Portugal a análises para detectar o H5N1 tinham dado resultado positivo. Um resultado positivo não significa, necessariamente, que tenha doença, mas sim que tenham estado em contacto com o vírus. Além disso, isto dá qualquer coisa como 0,1%!

A vontade da comunicação social em ressuscitar a «pandemia do pânico» em vplta desta gripe começa a chatear. Em países desenvolvidos, esta gripe das aves jamais matará mais do que a habitual gripe humana...

8/14/2006

Primeiro round - intervalo para respirar

Como a partir de amanhã vai começar a arrefecer ainda mais e choverá, segundo as previsões, até sexta-feira, a prevenção vai funcionar e os bombeiros vão ficar eficazes. Por isso, os incêndios terminarão. Mas regressarão.

Assim, interrompo - até por cansaço - esta vaga informativa em redor dos incêndios, pois há oputros temas a abordar, que têm andado esquecidos. Mas, infelizmente, regressarão...

P.S. Contudo, a meio da semana, terei muito provavelmente que voltar ao tema por uma vez mais. Desconfio muito que o relatório da DGRF sobre a área ardida não contabilize estes fogos dos últimos dias, alegando que a área ainda não está calculada. E claro que o que passa para a opinião pública são valores muito menores do que os reais.
Peço desculpa, lancei foguetes... (actualizado)

Afinal, o incêndio iniciado no Mezio, em Arcos de Valdevez, reavivou: passou de circunscrito para não circunscrito, à hora que escrevo (22h00). Este é, repito, daqueles casos que demonstra a ineficácia do combate e do caos da coordenação em Portugal. O fogo começou a quatro quilómetros do Parque Nacional da Peneda-Gerês, no dia 8, esteve dois ou três dias a lavrar sem qualquer tipo de combate (apenas duas ou três dezenas de bombeiros, de acordo com a informação que então constava no site do SNBPC), entretanto no dia 11 o Diário de Notícias revela o caso, as autoridades acordam, mas somente no dia seguinte mandam aviões e helicópteros (chegou a haver cinco), mas estão lá pouco tempo e somente hoje regressaram em força. Somente nos últimos dois dias se acordou definitivamente para este caos e agora, com a dispersão de focos e os difíceis acessos, nem a humidade relativa elevada e as temperaturas baixas conseguem ajudar. Enfim, este fogo só vai acabar com a chuva.

E responsáveis responsabilizados, haverá?

Actualização: às 21h50, o fogo está novamente circunscrito. Em Viana do Castelo estava às 21h30 uma humidade relativa de 95% e 16 graus de temperatura. Com estra humidade, não está a chover, mas é como se estivesse..

Apagaram sem a ajuda de São Pedro

Pelas 19h30 de hoje, o fogo do Parque Nacional da Peneda-Gerês - que se inciou no dia 8 em Arcos de Valdevez - foi dado, finalmente, como circunscrito. Consultando a situação meteorológica do posto mais próximo desta zona (Viana do Castelo), às 19h00 estavam 19 graus e uma humidade relativa de 78%. Os bombeiros vão cantar vitória, claro. «Controlaram» o fogo ao sétimo dia. E não estava ainda a chover!

Em todo o caso, ainda há uma frente no concelho de Ponte da Barca, que julgo ser um reacendimento deste fogo, pois de acordo com o site do SNBPC iniciou-se no mesmo dia.
Deixar arder que é o único Parque Nacional do país

Não tenham dúvidas de que se a Peneda-Gerês fosse uma área protegida como povoações in ou com casas de gente importante ou perto de Lisboa - como acontece por exemplo na Arrábida -, o fogo jamais estaria a lavrar durante uma semana. Como não tem, apenas ao quarto dia se mandou mais meios, quando o mal já estava feito. E mesmo assim, pelo que se ouve, não parece haver problemas: só está a arder floresta e mato, como ainda agora disse o comandante distrital de Viana do Castelo do SNBPC.
ABC para entender os fogos em Portugal

Publicado hoje, na edição do Diário de Notícias.

1 - Na última semana, houve dias com mais de 500 fogos. Esta é uma situação inédita?

Não. Em anos anteriores, e na segunda metade da década de 90, era normal contabilizar-se um maior número de dias com valores superiores a meio milhar de ocorrências. Aliás, de acordo com os dados oficiais, se compararmos o número de fogos entre os quinquénios 1996-2000 e 2001-2005, até se verifica uma tendência de decréscimo, da ordem dos 6%, embora a área ardida tenha aumentado 120%. No entanto, em Portugal, o sistema de registo do número de fogos nunca foi muito rigoroso. Antes de 1995, muitos fogos não eram sequer registados, sobretudo nos distritos do litoral. Por exemplo, o concelho de Paredes - que na última década registou oficialmente mais de 8100 fogos - não tem qualquer fogo registado antes desse ano. Mas o sistema de registo, mesmo agora, não tem um controlo rigoroso. Actualmente, o seu maior problema são as inflações.

2 - Significa isso que há incêndios registados que não existem?


Em muitos casos, é uma evidência, confirmada oficialmente. Sempre que um incêndio ultrapassa a fronteira de um concelho, a Direcção-Geral dos Recursos Florestais (DGRF) regista um novo incêndio. Os reacendimentos - devido a um rescaldo ineficaz, situação bastante frequente - também se contabilizam como novas ocorrências. Além disso, há fogos que são registados com área ardida minúscula. No ano passado, cerca de 28% dos fogos registados queimaram, cada um, menos de cem metros quadrados. Em 14 distritos, essas ocorrências foram superiores a 25% do total, chegando-se mesmo aos 62% em Leiria. A DGRF defendeu recentemente que estes são valores simbólicos, para quantificar pequenos incêndios. Mas, se assim é, torna-se difícil compreender que existam então milhares de registos com áreas queimadas, em metros quadrados, de um, dois, três, quatro, cinco, etc.

3 - Mas, afinal, como funciona o registo dos fogos?


Os fogos podem ser detectados pelos postos de vigia (oficiais) ou através do sistema telefónico de emergência (112 e 117). Nestes casos, é feito logo o registo pelo Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC) e os meios de combate (bombeiros ou brigadas helitransportadas) são accionados. No entanto, muitas chamadas são feitas directamente para os bombeiros. Nestes casos, o registo da ocorrência é transmitido a posteriori ao SNBPC. Como apenas os incêndios com uma área ardida superior a dez hectares (cerca de 3% do total) são depois confirmados pela DGRF, na esmagadora maioria dos casos acredita-se simplesmente na informação dos bombeiros. Este ano, o SNBPC colocou, online, a lista dos incêndios mais relevantes (todos os que têm mais de cinco autotanques ou mais de duas horas de duração), mas mesmo nos dias com mais de 500 fogos registados nunca foram identificados mais de 50 incêndios, ou seja, muito menos de 10%.

4 - Se assim é, qual o interesse nessa inflação?


Quando surgem incêndios devastadores, os bombeiros e até os Governos alegam que existe muita dispersão de meios devido ao elevado número de ocorrências. Por outro lado, ter muitas ocorrências classificadas como fogachos "beneficia" o indicador de eficácia da primeira intervenção e, no final do ano, reduz a área média queimada por fogo. Além disso, há evidentes vantagens económicas para as corporações na existência de muitas ocorrências, dado que podem reivindicar mais verbas e meios para acabar com tantos fogos. Em todo o caso, não existem dúvidas de que os portugueses causam demasiados fogos.

5 - O número de fogos é uma das causas para o aumento da destruição da floresta e matos?

Não. A devastação é causada por uma pequeníssima quantidade de incêndios. Por exemplo, no ano de 2003 - o pior de sempre, em que arderam 425 mil hectares -, houve 26 mil fogos, mas destes bastaram 175 para causar 93% da área total queimada. Por regra, 76% dos fogos nem sequer atingem mais do que um hectare.

6 - Os incêndios mais devastadores ocorrem nas regiões com mais fogos?


Não. Nos dias em que há mais de 500 fogos em Portugal, mais de 200 situam-se apenas nos distritos do Porto e Braga; a esmagadora maioria não passa de fogachos. Embora, nos últimos anos, estes distritos também estejam a ser mais devastados, é no interior que os fogos são mais destrutivos, apesar de sofrer muito menos fogos. Por exemplo, em 2003 houve apenas 13 incêndios em Nisa e foi aí que ocorreu o maior incêndio de sempre (41 mil hectares). Uma quantidade de fogos praticamente irrelevante quando comparada com outros concelhos. Por exemplo, em Paredes houve, nesse ano, 1045 fogos.

7 - Nas informações divulgadas pela comunicação social, os fogos activos são apresentados como não circunscritos e circunscritos. Qual a diferença?


Na prática, nenhuma. Um fogo circunscrito constitui apenas uma expectativa do comando dos bombeiros em conseguir extinguir um fogo quando os meios conseguiram circundar todas as frentes. No entanto, muitas vezes, o fogo comporta-se como uma locomotiva em andamento e aos bombeiros apenas lhes resta recuar. Nesta fase, o incêndio pode chegar a zonas com maior vegetação e tornar-se mais descontrolado - ou seja, não circunscrito. Em outros casos, os incêndios são considerados circunscritos quando nada mais há para arder ou se dirigem para zonas queimadas. Na verdade, nem sempre a extinção de um fogo significa que houve sucesso no combate: o incêndio "morre" sozinho.

8 - Em Portugal, alguns fogos considerados extintos ou circunscritos acabam por reactivar. Qual é o motivo?


Quando um fogo reactiva, significa que, na verdade, nunca esteve extinto ou sequer circunscrito. Mesmo quando não existem labaredas visíveis, a queima pode manter-se na manta morta. E, como num braseiro, o vento pode reavivar as chamas. Por isso, o rescaldo acaba por ser uma operação tão importante como o combate, não podendo ser feito apenas com água, mas sim criando um perímetro de segurança com trabalho de sapador. Um fogo com mau rescaldo é perigosíssimo, porque pode desencadear, sobretudo em incêndios com áreas grandes, vários focos, distantes uns dos outros. Mesmo dias depois da extinção do fogo inicial.
E ao sétimo dia, Deus descansou...

Espero que ao sétimo dia, o São Pedro não descanse e mande uma chuvita para os lados do Parque Nacional da Peneda-Gerês para tornar os bombeiros eficazes. Este incêndio - e sobretudo o modo como evoluiu - é uma vergonha, sobretudo quando ouvimos o ministro António Costa dizer que o «sistema» mostrou que é eficaz. Olhem se não o fosse.

P.S. Humberto Rosa foi, interrompendo as suas «merecidas» férias (oh, que sacrifício intolerável...), ao Parque Natural da Peneda-Gerês, com um ar de inqualificável optimismo e elogiando o trabalho dos sapadores. É bom que elogie os outros, porque ele não merece nenhum elogio...

8/13/2006

Esquizofrenia estatística

O ministro António fez hoje um balanço sobre os fogos e, claro, surgiu de novo à baila o problema do número elevado de fogos. Disse ele que «a média de ignições foi claramente superior, mas os danos claramente inferiores», mas apesar de só na próxima semana serem divulgados dados concretos sobre a área ardida nos últimos dias, o assegura que houve «clara melhoria da capacidade de resposta dos meios», uma vez que até ao dia 31 de Julho tinham ardido 13 mil hectares e, nos outros anos, a média rondava os 70 mil hectares. A insistência em estatísticas comparativas antes da procissão terminar costuma dar mais resultados. É bom recordar que há duas semanas, o mesmo ministro andava todo contente e viu-se. E convém também ler o meu post anterior para mostrar que as coisas não estão a correr nada bem. Este ano e, pior ainda, para o futuro.

Por outro lado, convém ter muita atenção aos números de ignições. No meu livro fiz uma abordagem bastante exaustiva sobre os «mecanismos» dos registos de ocorrências, onde mostro que há falta de controlo de qualidade naqueles números e fortíssimos indícios de aldrabice da grande. Colocarei aqui, em breve, um texto a publicar na edição de amanhã do Diário de Notícias onde se explica como se contabilizam os incêndios em Portugal e como facilmente são manipuláveis ao gosto do freguês.

Por fim, deu-me vontade de rir os números dos meios envolvidos durante esta semana, que apenas serve para mostrar como os políticos manipulam números. De acordo com uma notícia da Lusa, nos últimos dias mobilizaram-se, segundo o SNBPC, «65 mil homens»! Claro está que um só homem entrou quatro ou cinco vezes nesta estranha estatística.

A geografia dos incêndios deste ano

Artigo integral publicado hoje na edição do Diário de Notícias (sem link)

Os fogos deste mês estão a devastar sobretudo concelhos que, na última década e meia, quase estiveram imunes às chamas. Uma situação que acaba por demonstrar que o cenário actual é mais grave do que aparenta. E que a eficácia do combate aos incêndios até piorou, dado que as regiões de maior risco estão agora em «pousio», livre de incêndios, devido à destruição sofrida nos últimos anos.

Embora inexistam ainda dados actualizados sobre a área já afectada na última semana, torna-se notório que de entre os incêndios mais duradouros, quase todos têm atingido municípios que, em anos anteriores, quase não conheciam de forma dramática a cor do fogo e o cheiro a carvão. O exemplo mais evidente aconteceu na serra de Ossa, onde os concelhos que a envolvem se encontravam na cauda dos incendiáveis. Com efeito, no período 1990-2005, de entre os 278 concelhos de Portugal Continental, Estremoz ocupava a posição 272 com apenas 0,3% do seu território afectado pelas chamas. Borba e Redondo estavam, respectivamente, nas posições 271 e 233.

Mas mesmo nos distritos que em outros anos tiveram incêndios graves, os concelhos que agora estiveram a arder – em alguns casos mais de 24 horas –, habitualmente não apresentavam destruições maciças. Paredes, por exemplo, embora seja o município com maior número de fogos do país (na última década registou mais de 800 ignições por ano), ocupava na lista dos incendiáveis apenas a posição 73. No Norte, o mesmo se aplica a outros dois concelhos nortenho que estiveram sobre brasas nesta semana: Valongo (61º lugar, mas muito por causa dos incêndios do ano passado), Amarante (68º), Mirandela (116º), Melgaço (127º), Arcos de Valdevez (130º). E o município de Barcelos – onde ardeu quase três mil hectares em Junho – ocupa o 183º lugar no período entre 1990 e 2005.

Na região Centro, os maiores incêndios deste ano também atingiram, até agora, concelhos relativamente «amenos»: Santarém (148º lugar na lista dos incendiáveis), Sever do Vouga (138º), Alcanena (105º), Tábua (96º), Porto de Mós (93º), Vieira do Minho (64º), São Pedro do Sul (37º) e Sertã (30º). Na verdade, raríssimos têm sido os incêndios, que surgem no «site» do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil, que atingiram qualquer um dos concelhos do top 20. E em nenhum caso, esses incêndios demoraram mais de meia dúzia de horas até serem extintos. razão: rapidamente evoluem para zonas ardidas nos anos anteriores, extinguindo-se.

Este cenário acaba assim por mostrar que pouco mudou em relação ao último quinquénio. E pior, poderia estar a ser pior se, ironicamente, não tivesse havido devastações, nos últimos três anos, em muitos concelhos de maior risco. «Nos últimos três anos arderam mais de 900 mil hectares, com especial incidência nas maiores manchas contínuas, como na zona Centro e no Algarve», destaca Cardoso Pereira, professor do Instituto Superior de Agronomia, acrescentando que, nessas circunstâncias, «há agora poucas zonas onde se podem repetir, de imediato, incêndios com dezenas de milhar de hectares».

Recorde-se que nos últimos três anos ocorreram 12 incêndios com mais de 10 mil hectares, sendo que o mais destrutivo (Nisa, em 2003) atingiu 41 mil hectares. «Após os incêndios, essas zonas ficam numa espécie de pousio até que a vegetação recupere, criando-se então condições físicas para haver novos fogos», esclarece Cardoso Pereira. Este é, aliás, o típico ciclo do fogo que se verifica nos concelhos mais fustigados na última década, como Monchique, Vila de Rei, Gavião, Mação, Pampilhosa da Serra, Poiares, Loulé ou Silves. Por isso, como arderam muito nos últimos anos, mesmo que agora haja incêndios, dificilmente estes se tornam grandes, porque rapidamente «esbarram» em zonas ainda não recuperadas. O ano de 2003 deixou uma mancha carbonizada superior a 100 mil hectares contínuo, podendo-se então ir desde a margem da albufeira de Castelo de Bode até à fronteira espanhola andando sobre cinzas. A esmagadora maioria destas áreas estão, assim, ainda «imunes» a novos fogos.

Deste modo, se os concelhos mais incendiáveis não ardem este ano porque pouco possuem para arder, e os concelhos que eram pouco incendiáveis estão agora a arder, significa que não existem motivos para elogiar a eficácia do combate; pelo contrário. «Quando tivemos 2003 com 425 mil hectares, que era o que então ardia em três ou quatro anos, seria expectável que não ardesse quase nada nos anos seguintes», refere Cardoso Pereira. Mas ardeu. Em 2004, o balanço foi de cerca de 130 mil hectares – não tendo sido pior em virtude de um Agosto muito chuvoso – e em 2005 atingiu-se 325 mil hectares. Este ano, pelos sinais da última semana, a procissão acabou agora de sair do adro – estamos a meio do Verão – e não vai bem composta. Já fumega e cheira a esturro. Novamente.

8/12/2006

Isto já cheira, além de esturro, a palhaçada

O incêndio circunscrito em Porto de Mós está já de novo, às 17h00, não circunscrito. Recordo-me que anteontem à noite, na TSF, julgo que o comandante distrital dizia que era sua convicção que conseguiria, nessa noite, dominar o fogo. Rica eficácia...

P.S. Se se confirmar que o falecimento da bombeira em Porto de Mós se deveu à inalação de monóxido de carbono, então estamos perante uma morte estúpida e que apenas demonstra a irresponsabilidade na logística do SNBPC. Acham admissível num país decente que os bombeiros descansem nas cabines dos veículos, em áreas que podem ser de risco? Isto é de um amadorismo atroz e homicida...
Uma questão que começa a ser velha

Gostava de chamar a atenção para a forma como em Portugal se classifica a situação dos fogos. Na Galiza, como se viu, havia dias com mais de uma centena de fogos activos, mas em Portugal nunca aparaceram mais de 30 fogos activos na página do SNBPC. Não apenas porque não se colocam todos os incêndios que ocorrem (e, portanto, permite-se a criatividade inflacionário, daí termos tido mais de 500 fogos diários durante esta semana) por se decretar «o fim da vindima antes de se lavar os cestos» (ao contrário do que os galegos fazem).

Outros dos aspectos mais irritantes do nosso «sistema» passa-se com a classificação de circunscrito para os fogos. São, neste momento, 14h00 e os incêndios de Porto de Mós e de Figueiró dos Vinhos estão dados como circunscritos. Porém, lendo o Público Online, reparo que o primeiro está circunscrito há quase 8-oito-8 horas e o segundo há quase 7-sete-7 horas. Ou seja, circunscritos para a continuar a arder.


Ambiente de esturro

E ao quinto dia, parece que o Governo se lembrou de que estava a arder o nosso único Parque Nacional e lá mandou um reforço de bombeiros, bem como um helicóptero, dois aviões ligeiros e dois aviões pesados. Deduzo portanto que o ministro do Ambiente e/ou o secretário de Estado tiveram de regressar de férias. Que chatices, para eles. E eu, humilde cidadão desta República, me prostro aos seus pés, reverentemente agradecido a Suas Excelências que permitiram, assim, que aquelas zonas que se queimaram já não se queimarão nos próximos anos...
Venha mais um plano de emergência, se faxfavor...

Nos primeiros dias de incêndios desta semana que está a finalizar, enquanto o Governo e autarcas pensavam que a situação não ia descambar andou-se a evitar levantar o Plano Municipal de Emergência para dar a ideia que tudo estava sob controlo. Agora que as coisas acabaram por correr mal, exagera-se: por tudo e por nada, mesmo em fogos que mal começaram, já se está a accionar o dito plano, que aliás pouco acrescenta aquilo que se pode fazer sem ele. Parecem aquelas meninas puritanas depois da primeira vez...
Piu, piu

«O Ministério do Ambiente tem total confiança no comando operacional de combate aos incêndios [liderado pelo MAI] e deu todas as indicações aos serviços [incluindo o ICN] para apoiar e colaborar para que o combate aos incêndios se faça com eficácia, como não podia deixar de ser», afirmou o gabinete de imprensa do Ministério do Ambiente à Lusa.

Em relação às críticas do «ajudante» do ministro António Costa, o gabinete de imprensa disse que «essas questões tratam-se antes ou depois [da crise provocada pelos fogos florestais] e que o importante agora é combater os incêndios».

Reacção tão pífia e sem ser de viva voz por parte do ministro do Ambiente ou do secretário de Estado é uma vergonha. Tenho consideração pessoal por ambos - que conheço há vários anos -, mas por isso mesmo acho as suas actuações ainda mais lamentáveis.

O ministro que aprende e o «ajudante» que diz disparates

O ministro António Costa está a mostra que está no bom caminho: ontem veio prometer alterações ao Código Penal, no sentido de se responsabilizar actos negligentes com um grau equivalente ao de acto doloso, porque muitas negligências são criminosas, além de crtiticar o incumprimento das pessoas em limpar as áreas envolventes às suas casas (aliás, são as que mais choram...), de modo a evitar a destruição pelo fogo.

No entanto, o seu «ajudante», Ascenso Simões, veio mostrar a ignorância em todo o seu esplendor ao fazer eco de umas estapafúrdias críticas do presidente da autarquia de Porto de Mós. Segundo este secretário de Estado a culpa é das «teses fundamentalistas» do Instituto de Conservação da Natureza que não deixa fazer aceiros. O Ministério do Ambiente tem muitas culpas na gestão das áreas protegidas, mas o «ajudante» de António Costa deveria saber que se alguns fogos (mal combatidos) atravessam auto-estradas, IPs, ICs, rios e albufeiras não param em aceiros de menos de uma dezena de metros. O «ajudante» deveria ter sim colocado brigadas helitransportadas a atacar os fogos nascentes em zonas de risco como a Peneda-Gerês e Aire-Candeeiros. Talvez isso lhe tivesse evitado dizer disparates. E de certeza que isso evitaria estarmos a lamentar mais uma machadada nas (já degradadas) jóias da Coroa.

8/11/2006

Credo, quem nos salva de Portugal

«Arder mais hectare, menos hectare, não é esse o problema», disse agora à Antena Um o comandante de bombeiros de Sever do Vouga, em relação ao incêndio que está a lavrar naquele concelho do distrito de Aveiro.

Pois, estão a ver...

Este take da Lusa vem dar ainda mais razão ao meu post anterior, onde já tentava relativizar o «drama» dos incêndios da Galiza quando comparados com a situação de Portugal. Até agora arderam 40 mil hectares em toda a Espanha, 10 mil dos quais na Galiza. Em termos relativos, 40 mil hectares em Espanha significam menos de 10 mil hectares em Portugal...

Madrid, 11 Ago (Lusa) - Os incêndios em Espanha já destruíram este ano mais de 40 mil hectares, metade da média dos últimos 10 anos, com a Galiza a representar um quarto de toda a zona ardida, disse hoje o Ministério do Ambiente espanhol.

O balanço confirmou que apesar do elevado número de fogos, particularmente os que afectam a Galiza desde a semana passada, o impacto dos incêndios foi para já claramente menor que em 2005, um dos anos em que mais hectares arderam.

Os dados referem que o número total de hectares em que se registaram incêndios neste ano é significativamente menor do que nos primeiros sete meses do ano passado, quando por esta altura já tinham ardido 104 mil hectares, 15 mil dos quais na Galiza.

Mais de metade de todos os fogos de 2006 ocorreram no noroeste do país (Galiza, Astúrias, Cantábria) e nas províncias do País Basco, Leon e Zamora.

As autoridades registaram entre 01 de Janeiro e 06 de Agosto, 7.214 fogos em menos de um hectare - menos 434 que a média dos últimos 10 anos e 4.447 menos que neste período em 2005.

O número de incêndios que destruiu mais de um hectare foi de 3.268, o que representa menos 1.600 do que a média dos últimos 10 anos e metade dos que ocorreram no ano passado.

Houve ainda a registar 10 "grandes incêndios" em mais de 500 hectares, menos de metade dos 22 registados no ano passado e ligeiramente menos que a média dos últimos 10 anos fixava em 23.

Dos mais de 40 mil hectares queimados desde o início do ano, 13 mil são de superfície arborizada, 24 mil de mato e 2.500 de pastos e outras culturas.

Actualmente a zona da Galiza concentra todas as atenções, com mais de sete mil pessoas envolvidas hoje no combate a mais de 100 incêndios e em operações de vigia e rescaldo a quase 100 outros (...).

Obviamente, demitam-se

Esta notícia no Diário de Notícias sobre os incêndios que estão a massacrar o Parque Nacional da Peneda-Gerês sem que se oiça um peido dos lados da Rua do Século (edifício onde, para quem não saiba, habita uma coisa chamada Ministério do Ambiente e do Ordenamento do Território) é um must sobre laxismo de um país que não merece aquilo que a Natureza e o Homem foi criando.

Há uma semana que esta área protegida no papel, e desprotegida na pática, se encontra a arder e somente ainda lá foi um simples vice-presidente do Instituto de Conservação da Natureza, que deve ter feito figura de palhaço, pois diz que «junto do Comando Operacional não me cansei de pedir mais meios». Parece que não lhos deram.

O ministro do Ambiente, Nunes Correia, e o secretário de Estado do Ambiente, Humberto Rosa (que tutela as áreas protegidas), ou andam a dormir ou estão de férias. Se tiverem de férias, que o sol lhes faça bom proveito e não regressem. Ninguém reparará na sua falta.

Enfim, Portugal não merece que o Parque Nacional da Peneda-Gerês exista e por isso ele está a desapareçar no meio das chamas. Nem no Burkina-Faso as áreas protegidas deverão ser tão desprezadas como por este país.
Previsões de aumento de eficácia

A eficácia dos bombeiros portugueses no combate aos incêndios florestais vai melhorar substancialmente a partir da próxima segunda-feira e poderá ser de 100% a meio da semana. De facto, segundo as previsões meteorológicas, as temperaturas a partir de domingo ficam abaixo dos 30 graus e pode haver períodos de chuva, em alguma regiões, na quinta e sexta-feira seguintes...

Claro que se as previsões meteorológicas falharem, também falharão as previsões sobre a melhoria da eficácia dos bombeiros.
Uma pergunta (im)pernitente II

Se o ministro da Administração Interna, António Costa, está a ir, neste momento (00h30) para a Aldeia da Serra (Redondo), será que o ministro do Ambiente, Nunes Correia, não deveria já ter ido ao Parque Nacional da Peneda-Gerês onde os fogos ardem há mais de dois dias?

8/10/2006

Os bitates do ajudante

O ministro da Administração Interna, António Costa, disse hoje que apenas se investigou 5% dos incêndios. Poucos para se tirar qualquer conclusão, tanto mais que oficialmente nem sequer existem dados sobre esta pequeníssima percentagem. Esta noite, o inenarrável secretário de Estado da Administração Interna, Ascenso Simões, veio culpar os foguetes das festas, mais o tempo seco e não sei bem mais o quê... Com base em quê?
«Opsss, fomos apanhados»

Numa reportagem em directo da SIC, por volta das 21h00 foi revelado que o incêndio da serra de Ossa estava bem activo, mas que ne aparecia no site do SNBPC. Recorde-se que este incêndio eclodiu no dia 7 e foi dado como extinto no dia seguinte. Já teve vários alegados reacendimentos e ainda hoje, por volta da 1 hora da manhã, estava «circunscrito» há mais de seis horas. Durante o dia, «desapareceu» do site, ou seja, era como se estivesse extinto. Não estava como a SIC bem mostrou. Passado poucos minutos desta denúncia televisiva, o incêndio «reapareceu» no site do SNBPC, mas identificado como sendo um novo incêndio na Contenda, no concelho do Redondo. Mas, na verdade, estamos perante o mesmo incêndio da serra de Osssa - daquele que jamais se consegue extinguir ao fim de mais de três dias. Eis como anda a eficácia dos bombeiros - deste modo, oficialmente não há incêndios de longa duração...

P.S. Novo acidente viário com bombeiros, desta vez na serra de Ossa. Iam cinco pessoas num auto-tanque com água em terreno íngreme. Num país decente, num auto-tanque só deve ir o condutor e os restantes bombeiros devem seguir em jipe. Mas em Portugal gasta-se o dinheiro todo em auto-tanques. Com isto, acho que se anda a ver se se arranjam uns quantos heróis... mortos!

P.P.S. Diz-se agora, nas notícias, que este incêndio na Contenda - e que está a implicar a evacuação da Aldeia da Serra, no Redondo. é distinto do da serra da Ossa de há uns dias. Até pode ser, mas só vendo, se não existe ligação física entre a área queimada destes alegados dois fogos distintos... e como não posso lá ir, obviamente que, perante a manipulação evidente, não coloco as mãos no fogo...
Pelas televisões

Este ano julgo que as televisões generalistas estão a fazer uma cobertura melhor sobre os incêndios florestais, sem exageros e demasiados histerismos. Tirando o fim-de-semana em que a RTP «decidiu» que os fogos não mereciam quase referência, a cobertura parece equilibrada em termos de tempo de abordagem. No entanto, continua-se a cometer os mesmos erros: não há análise, não se ouvem especialistas independentes (faz-se o vox populi, ouvem-se os bombeiros e as entidades oficiais... a moda agora é ouvir os governadores civis), não se procura saber por que ficam tantas vezes os aglomerados urbanos em perigo (estou à espera de um jornalista a perguntar às pessoas e aos autarcas se fizeram as limpezas previstas na lei) e, enfim, não se procura questionar a eficácia dos bombeiros (ontem, na SIC estava-se a dizer que o fogo na serra de Ossa se encontrava circunscrito e viam-se por detrás chamas incontroladas)...

Por outro lado, as televisões continuam a «mandar» jornalistas sem qualquer preparação espcífica para as tarefas de cobertura. Anteontem, um jornalista da SIC perguntou em directo ao comandante nacional de operações, Gil Martins, se o aumento do número de fogos entre Julho e Agosto se devia ao cansaço dos bombeiros... Claro que, no meio disto, nenhum jornalista se apercebeu que este ano estão a arder concelhos que nos anos anteriores pouco ardiam. E que só não ardem os concelhos que ardiam muito por terem sido dizimados nos anos anteriores.

Também se continua a «heroicizar» os bombeiros em situações que são de completa irresponsabilidade. Ontem, julgo que também na SIC, foi filmada uma situação que esteve em vias de dar em catástrofe. Numa zona de encosta, perto de Oliveira de Azeméis, junto a uma IC, vários bombeiros viram-se em palpos de aranha com o fogo a subir porque foram fazer não sei bem o quê (é impossível e perigoso atacar um fogo a meia encosta, ainda por cima sem qualquer material) e tinham ainda por cima uma vedação entre a zona de matos e a estrada. Dois ou três «viram» o fogo lamber-lhes o rabo. O jornalista da SIC, em voz off, elogiou a sua coragem. Confunde-se coragem com imprudência.

Por que não consigo dizer bem

Pede-me um leitor (vd. comentário do post anterior) que comece também apontar aspectos positivos quando abordo as questões dos fogos ou que aponte caminhos, de modo a que as minhas crítica sejam construtivas.

Confesso que a primeira tarefa - apontar aspectos positivos - se torna difícil de apontar e que em relação às correcções dos problemas, estas estão subjacentes às críticas: dever-se-ia fazer o contrário daquilo que o SNBPC está a fazer. Por exemplo, eu sinceramente acho que este ano, ao nível da informação ao público, através do site do SNBPC, tem aspectos que deveriam merecer elogios. E mereceriam se houvesse rigor: como já apontei, existem evidentes erros na identificação da localização das ignições e usa-se e abusa-se de terminologias de bombeirês (de que a classificação de fogo «circunscrito» é um paradigma).

Por outro lado, não vislumbro melhorias no combate nem na eficácia. Embora seja necessário ter mais dados estatísticos fiáveis, existem demasiados fogos com mais de 24 horas (alguns particularmente violentos e arrasadores, como o da serra de Ossa) e, mais grave ainda, incêndios relevantes em concelhos que anteriormente não eram incendiáveis. E isto é um aspecto gravíssimo, porque implica que os concelhos incendiáveis apenas não estão a arder devido à razia dos últimos três anos. Choca-me, aliás, que vários membros do Governo continuem a tentar tapar o sol com a peneira.

Em todo o caso, este espaço não é propriamente o mais adequado para expor longamente algumas sugestões de alterações (para isso escrevi o livro, que tem mais de 400 páginas), mas gostava de lembrar que no dia 12 de Julho coloquei aqui neste blog um dos capítulos do livro onde me debruço sobre a prioridades estratégicas no combate aos incêndios florestais, demasiado concentradas na protecção das casas em detrimento da floresta.
Yo no credo en brujas pero que las hay, las hay

Oh, diacho. Meia hora depois de ter colocado o anterior post, uma autêntica «renovação» do site do SNBPC fez desaparecer a esmagadora maioria dos tais fogos circunscritos há mais de 3 e 5 horas. Agora, de repente, estão cinco não circunscritos e quatro circunscritos. Um destes circunscritos - na serra de Ossa - começou no dia 7 e depois de um reacendimento ontem está agora circunscrito há seis horas!

8/09/2006

A manipulação «não circunscrita»

Julgo que este é o primeiro dia desta última semana em que existem mais incêndios activos a esta hora da noite (23h57): 19 , de acordo com o site do SNBPC. Claro que quem fizer uma consulta no dito site verificará que seis estão não circunscritos e que 13 estão circunscritos. A TSF, por exemplo, embalada nesta classificação, apenas noticia os seis não circunscritos, como se os outros não fossem importantes.

Porém - e isto começa a ser recorrente, revelando uma atitude claramente manipulatória do SNBPC -, todos os 13 incêndios dados como circunscritos encontram-se nesta classificação há mais de três horas. Oito destes estão circunscritos há mais de 5 horas!!! Ou seja, se continuam a arder durante tanto tempo significa tudo menos que estão circunscritos. E se aparecem circunscritos é apenas para relativizar uma situação que é bastante grave...

Outro dado preocupante refere-se à duração dos incêndios. Pela primeira vez, há incêndios que arriscam a chegar ao terceiro dia completo sem serem defintivamente extintos: em Valongo e na serra de Ossa.

8/08/2006

Os sinónimos

Em Penalva do Castelo, um incêndio iniciado às 11h14 de hoje. foi dado como circunscrito às 14h39, mas às 18h10 ainda está por apagar. O presidente da autarquia disse agora na TSF que ainda há uma frente de fogo com um quilómetro. O incêndio na serra de Ossa esteve mais de seis horas a arder. mas sempre com a classificação de circunscrito. Varios são os exemplos de fogos circunscritos que demoram como o «caraças» para se extinguirem; e alguns passam de novo para a fase de não circunscrito. O incêndio de Valongo é um dos casos: começou às 6h18 de ontem e já esteve circunscrito. Em suma, circunscrito e não circunscrito, em «bombeirês» são sinónimos.

P.S. Claro que esta estratégia é para comunicação social ver. Como por regra os jornalistas vão olhar para os não circunscritos, a situação aparenta ser menos grave. Por exemplo, no site do SNBPC consta uma lista de 15 incêndios, dos quais cinco circunscritos. 10 parece assim menos grave do que 15...
A desgraça dos galegos seria «boa» em Portugal

O Governo português irá, concerteza, «aproveitar-se» da «onda de incêndios» na vizinha Galiza para justificar a actual destruição em Portugal. Até irá, por certo, defender que nos estamos a portar melhor, dado que as notíciasque se vão transmitindo revelam a ocorrência de uma centena de incêndios activos, dos quais 60% não circunscritos.

Convém, porém, relativizar estes números. Para a situação «normal» da Galiza, está-se perante, de facto, casos anormais. Mas essa «anormalidade» não se compara à situação nacional. E por uma simples razão: o mais extenso fogo na Galiza, ocorrido no ano 2000 em Ourense, causou uma destruição de 2.850 hectares. Em Portugal, o maior incêndio devastou, em 2003, uma área contínua de 41 mil hectares.

Pelas notícias terão ardido, em toda a Galiza e durante os últimos dias, cerca de 5.000 hectares (os valores obviamente são muito provisórios). E por isso, numa região que, apesar de ter tido sempre muitos fogos, atingirem-se aqueles valores é sempre um motivo de alarme. Além disso, a existência de tantos fogos activos na Galiza também é enganador quando comparamos com Portugal. Embora na página do nosso SNBPC raramente tenha surgido mais de 20 incêndios activos por dia, é certo que esse número é muito superior durante o dia; apenas não surge elencado por durar menos de duas horas a ser extinto e/ou ter tido menos de coinco veículos a combater. Se no domingo tivemos, oficialmente, mais de 500 fogos, significa que, em algumas horas, terão estado activos mais de uma centena. Aliás, em muitos dias, só no distrito do Porto são contabilziados mais de uma centena de ignições! E ninguém parece ter ficado muito preocupado com isso, tanto assim que aquele distrito é o que menos investiga as causas dos fogpos (0,2% nos últimos cinco anos).

Em suma, quase tenho a certeza que, no final do ano, quando olharmos para a área ardida na Galiza e a compraramos com Norte Litoral de Portugal concluíremos que até gostaríamos de ter a «desgraça» dos galegos...
O significado de circunscrito

O incêndio que começou ontem à hora do almoço na serra da Ossa será apenas circunscrito quando já nada existir para arder. Por aquilo que conheço daquela serra alentejana (sobretudo eucalipto adultos e algumas manchas marginais de montado) e estando às 24 horas uma temperatura de 22,6 graus e uma brisa de sudoeste (uma humidade relativa de 51%, baixa para uma noite...), e face á violência e velocidade de propagação, o fogo ficará «circunscrito» (expressão que os bombeiros usarão, antes de, oficialmente, lhe derem a sentença de «extinto») amanhã de manhã. Mas nessa altura já a serra da Ossa foi «comida» até ao osso... e levando o tutano. E vai ser fogo de uns milhares de hectares.

P.S. Já agora, para quem não saiba, 1.000 hectares é uma área equivalente a um rectangulo de cerca cinco por dois quiómetros. Parece pouco, mas não é...
Apreciar o fogo - nova/velha forma de turismo rural

No incêndio em Valongo, o comandante dos bombeiros apelava na TSF para que as pessoas não andassem a cirandar, para «apreciar» (como ele disse) a área onde os bombeiros andavam a combater o fogo, porque só os estavam a estorvar nas operações. Este é um daqueles casos do nosso portugalzinho serôdio, mas que constitui sobretudo mais uma evidente falta de estrutura de protecção civil em Portugal: não se criam perímetros de segurança.
As estatísticas do SNBPC de trazer por casa

Segundo o SNBPC, este domingo foi o dia com maior número de incêndios desde 2003, com 546 incêndios florestais ou em zonas de mato. E segundo a mesma entidade, duplicou-se o número de fogos em relação ao mês passado. Este balanço não surghe por acaso: o SNPBC quer transmitir que mais incêndios, dá mais trabalho; mais trabalho «justifica» que os incêndios «descarrilem» por alegado excesso de trabalho.

Esta estratégia não é nova e há anos poder-se-ia ver notícias em que se relatava a existência de mil incêndios num só dia. Mas há um aspecto que deve merecer reflexão e desconfiança. A esmagadora maioria destes incêndios são, na verdade, inexistentes ou sem quase mobilização de recursos (vd. post «Já esperava esta deculpa...», de ontem). Mas há um pormenor que me leva a dupla desconfiança: o anterior valor mais elevado desde 2003 ocorreu em 20 de Agosto do ano passado, em que se registaram 545 ocorrências (dos quais 40% apenas nos distritos de Porto e Braga). Ou seja, no domingo passado bateu-se, de forma muito conveniente, o recorde por uma-1-uma ocorrência!!!

Quanto à duplicação de fogos, esta é outra engenhosa forma de ver as estatísticas. Julho foi húmido; não pode constituir qualquer termo de comparação, porque às tantas, assim, também se pode comparar Agosto com Janeiro. E em qualquer ano, durante o Verão, existe uma amplitude enorme ao longo dos dias. Por exemplo, em Agosto do ano passado, o valor máximo foi de 545 fogos, no dia 20, enquanto o valor mínimo registou-se no dia 10, com apenas 29 fogos. Por classe, nesse mês de Agosto houve seis dias com menos de 200 fogos cada e oito dias com mais de 400 fogos cada.

Estes dados são oficiais (Direcção-Geral dos Recursos Florestais) e também apresentam a área ardida por cada dia. Seria exaustivo referir aqui valores de área ardida por dia, mas garanto-vos que não existe qualquer correlação entre número de fogos e área ardida. Aliás, como refiro no livro Portugal: O Vermelho e o Negro, pegando nos dados oficiais e comparando os quinquénios 1996-2000 e 2001-2005 constata-se uma diminuição de 6% no número de ocorrências e um aumento de 120% na área ardida. Não se venha, por tudo isto, com a desculpa do número de fogos!

8/07/2006

Avaliação - dia III e IV

Estamos no quarto dia de verdadeiro tempo quente e seco e convenhamos que os sinais que indiciam um ano catastrófico (para mim, é tudo o que seja superior a 100 mil hectares) são já preocupantes. É certo que ainda - e repito, ainda - não temos fogos de vários dias (poucos têm ultrapassado as 24 horas), mas isso não surpreende e não é motivo para se dizer que há mais eficácia na acção dos bombeiros: um fogo de vários dias «necessita» de extensão florestal e, como se sabe, isso começa a rarear em Portugal. Se nos últimos três anos ardeu 900 mil hectares - grande parte devido à devastação de zonas contínuas -, claro que isso contribui muito para que não haja incêndios de vários dias. Mesmo assim já devemos contar com vários incêndios com mais de 1.000 hectares...

Mas, mais importante e preocupante, é constatar que as zonas que estão a ser mais flageladas actualmente nem sequer eram muito incendiáveis em anos anteriores. Ontem estive a ver que dos 12 concelhos que tinham à noite fogos activos, a esmagadora maioria ardeu relativamente pouco nos últimos 15 anos. Dé entre esses 12, temos 9 concelhos que nem sequer ocupam os 100 primeiros lugares na lista dos mais incendiáveis. O que significa isto? Significa que os concelhos mais incendiáveis não ardem porque pouco têm já para arder e que nem sequer se está a registar eficácia no combate nos concelhos que nem costumavam arder.

Esta tarde, em relação aos seis concelhos que tinham fogos não circunscritos torna-se evidente que eram, teoricamente, pouco incendiáveis: relativamente à destruição pelo fogo desde 1990, Braga (ocupa o 123º lugar), Estremoz (272º), Almeida (58º), Valongo (61º), Ourém (63º), Paredes de Coura (41º) e Montalegre (101º). Ou seja, como se vê, o que anda a arder não era suposto estar a arder; e só não arde aquilo que era suposto arder porque foi dizimado em anos anteriores. Em suma, não vislumbro qualquer eficácia, pelo contrário há fortes sinais de preocupação. E isto infelizmente somente vai no início...

Nota 1 - A serra de Ossa vai ser dizimada em menos de um dia (previsão)

Nota 2 - Impressionante a quantidade de incêndios de alguma dimensão que tem estado a atingir o Parque Natural da Peneda-Gerês. Mas isso pouco importa - o que interessa, como se tem visto nos discursos oficiais e é a única preocupação da imprensa, é que não ardam casas. Mesmo se essas casas nada fizeram em termos de limpezas em redor...
A informação pública

Hoje, a RTP viu-se obrigada a abordar os incêndios. A contra-gosto, é certo, porque não abriu o telejornal com esse tema, ao contrário dos outros canais. Mas vá lá, melhorou: falou dos incêndios que ainda estavam a lavrar e não apenas, como ontem, naqueles que já tinham sido extintos...
Já esperava esta desculpa...

Ao quarto dia, surge a desculpa do número excessivo de fogos em Portugal, pelo mão do SNBPC. É prática comum, nada recente, que quando existem grandes incêndios, este é o argumento principal. Há uns anos até se «chegou» aos mil incêndios num só dia. No meu livro apurei que 28% dos incêndios no ano passado não tinham causado mais do que 100 metros quadrados, havendo milhares de incêndios com 1, 2, 3, 4... etc., metros quadrados de área ardida. Por exemplo, só no concelho de Viseu terá «existido» mais de 100 fogos com 1-um-1 metro quadrado.

A questão do número de incêndios é uma falácia - e algo que é facilmente manipulável. Basta reparar que ontem, de entre os quase 550 fogos, nem 50 surgiram na página do SNBPC (que apenas inclui os fogos com mais de duas horas de duração ou com mais de 5 veículos). Ou seja, mais de 90% dos incêndios não deram quase nenhum trabalho.

Além disso, não terá sido por excesso de fogos que algumas regiões estão a ser flageladas. Veja-se o caso do incêndio que lavrou durante dois dias em Aguiar de Sousa, pertencente ao município de Paredes. Este é o concelho com maior número de ocorrências na última década: entre 1996 e 2005 registou-se, oficialmente, 8.186 fogos. Por pura sorte, nenhum tinha causado o desastre que se verificou este fim-de-semana. Algums vez o cântaro haveria de se quebrar; e não foi por excesso de fogos - o excesso, a existir, sempre se verificou...

8/06/2006

O frete televisivo

No Portugal da RTP - empresa pública de televisão -, hoje não houve fogos em Portugal. E os que houve ficaram remetidos para as calendas do alinhamento e apenas os que foram extintos. Enquanto as outras televisões (SIC e TVI) deram o destaque merecido, com directos q.b., a RTP gastou 33 minutos do seu telejornal das 20 horas a abordar a guerra no Líbano (com pelo menos três directos com outros quantos jornalistas), a tensão no Irão, os problemas em Gaza, a doença de Fidel Castro, um acidente no Parque da Pena devido à queda de uma ramada de eucalipto (que causou uma morte). Depois em dois ou três minutos, a RTP apenas abordou dois incêndios, ambos circunscritos de manhã e, nessa altura, já extintos: na Póvoa do Varzim e em Paredes (Aguiar de Sousa). De resto, nem uma única palavra sobre a situação actual, designadamente a mais de uma dezena de incêndios que então estavam ainda não circunscritos. Eis um exemplo de serviço público que, sob critérios inconfessáveis, se confunde com serviço do Governo. Eu bem que temia que a introdução de critérios para a abordagem dos incêndios pela Direcção de Informação da RTP - de que falei há dias -, ia dar nisto...
A hora da verdade

E ao final do terceiro dia, o caos instalou-se. Só falta saber qual vai ser a desculpa do ministro António Costa para este desastre, embora tenha quase a certeza de que a culpa vai ser da «trindade meteorológica»: calor, humidade relativa e vento. E já agora gostava de saber se o primeiro-ministro José Sócrates vai telefonar «duas ou mais vezes» para saber se valerá a pena interromper as férias.
Um fogo como troféu

Quase 40 horas após o seu início, o incêndio em Aguiar de Sousa (Paredes) foi considerado extinto pelas 9h20 de hoje. Porém,às 13h30 ainda se encontra no site do SNBPC com a informação EXTINTO (assim mesmo em maísculas, enquanto os fogos não circunscritos e circunscritos aparecem em minúsculas). Curiosamente,somente os muito grandes incêndios têm direito a permanecer mais umas horas neste «painel».

Isto não é por acaso. O SNBPC apresenta a extinção deste fogo como um «troféu de caça», como se dissesse «fomos bem sucedidos, liquídamos o bastardo!». Não há pior erro: um fogo que dura 40 horas nunca é um caso de sucesso, mas sim de insucesso. Enquanto assim não considerarmos, continuamos a alimentar o heroicismo... ineficaz, é certo, mas sempre gostámos de actos heróicos, mesmo quando perdemos as batalhas.
Uma pergunta (im)pertinente

Qual será a razão por que um incêndio em Amarante que começou ontem às 14h40 tem, quase 12 horas depois, apenas 32 bombeiros e sete veículos a combatê-lo, enquanto que um em Cascais que surgiu perto da meia-noite teve «direito» a ser atacado por 75 bombeiros e 24 veículos? Não será por questões destas que o de Amarante lá vai lavrando e o de Cascais apagou-se em menos de uma hora?

P.S. Já agora, em ambos os casos, de acordo com o SNBPC, referem-se a fogos em matos. Mas até há fogos em floresta no interior que para chegar a haver 75 homens a combater demora-se três ou mais horas.
Mais um incêndio florestal que surge no meio de prédios

Olhem-me esta localização de um fogo, circunscrito em menos de uma hora, junto da barragem do Rio da Mula, no concelho de Cascais, de acordo com o site do SNBPC. Este tipo de disparates, que começam a ser recorrentes, por parte do SNBPC leva-me a crer que, no terreno, os bombeiros também laborem em função de informação desta calidade.
Avaliação - dia II

De forma nada surpreendente, o segundo dia de temperaturas elevadas e baixa humidade relativa foi pior do que o primeiro. Neste momento (00h15), ainda «sobreviveram», à passagem da meia-noite, 10 incêndios, dos quais sete não circunscritos (e os circunscritos,logo se verá se serão apagados tão depressa).

Existe aqui alguns dados preocupantes. O primeiro é a existência de três incêndios que avançam para a sua segunda noite (um em Torre de Moncorvo - que se encontra há horas como circunscrito e até já foi dadod por extinto -, outro em Arcos de Valdevez - que julgo que também já esteve considerado extinto - e o grande incêndio de Aguiar de Sousa, em Paredes, o maior de todos, que já chegou a ter mais de 500 bombeiros). Fui também verificando vários casos de reacendimentos, o que não sendo pouco habitual, apenas mostra que os rescaldos continuam a ser mal feitos - ou então contam-se vitórias antes do tempo.

Até agora as regiões mais massacradas têm sido as do Norte litoral (Porto, Braga e Viana do Castelo), embora um incêndio na Sertã tenha durado quase 24 horas com bastante estrago. Julgo que os incêndios em anos anteriores terão «ajudado». Os distritos de Coimbra e Viseu também têm registado alguns incêndios, mas até agora houve a sorte de nenhum deles ter «encontrado» áreas contínuas muito extensas.

Com as previsões para este domingo a apontar para uma situaçãometeorológica semelhante ao dos dois dias anteriores, prevejo aquilo que parece incontornável: incêndios. Afinal, apenas se está a confirmar que,em Portugal, o «sistema» é eficaz quando chove; medianamente eficaz quando as temperaturas baixas e ineficaz quando as temperaturas são elevadas. O problema é que no Verão as temperaturas costumam ser elevadas.

Nota 1 - Oiço o comandante distrital do Porto dizer na TSF que está esperançoso em circunscrever o fogo de Paredes durante a noite: «Pelo nosso trabalho, sim senhor», mas já se desculpa depois com a humidade e o vento.

Nota 2 - Toda a gente parece estar satisfeita por não arderem casas.

Nota 3 - Começa a ser uma irresponsabilidade a quantidade de acidentes rodoviários que envolvem bombeiros no combate aos incêndios.Um deles - em que um bombeiros caiu de um auto-tanque, presumindo-se que ia pendurado - é de uma irresponsabilidade intolerável. É também por este tipo de voluntarismo heróico que defendo a profissionalização dos bombeiros.

Nota 4 - Um técnico do Instituto de Meteorologia veio dizer que as temperaturas são normais para um Verão português. Que chatice para o Governo...

8/05/2006

Circunscrito por nada mais haver para arder

Esta tarde, pouco depois da hora de almoço, um incêndio em Paredes (não o que lavra desde ontem) obrigou ao fecho temporário de uma auto-estrada. Pouco tempo depois,o incêndio foi considerado circunscrito. Olhando para a localização do incêndio (ver aqui) e para as pequenas e fraccionadas manchas de vegetação compreende-se que o fogo não tinha muitas chances de continuar. O incêndio ficou circunscrito por eficácia dos bombeiros?

P.S. Aliás, na esmagadora maioria dos incêndios dos últimos dois dias - e ressalvando alguns evidentes erros de localização por parte do SNBPC e outros casos em que o pormenor das imagens do Google Earth não permitirem uma boa visualização do coberto vegetal - tem havido alguma sorte por as zonas envolventes das ignições não serem áreas florestais extensas. Em parte devido aos incêndios dos últimos anos. Uma das poucas excepções refere-se ao incêndio de Paredes, que se iniciou ontem em Aguiar de Sousa. Pelas imagens, infelizmente há muita «coisa» para arder...
Avaliação - dia I

À laia de «avaliação» deste primeiro dia em que as condições meteorológicas foram adversas, constato que todos os incêndios, com excepção óbvia dos que ainda evoluem, foram extintos em menos de 24 horas, o que pode considerar-se positivo, embora por regra, olhando os anos anteriores, a situação apenas se complica a partir do segundo ou terceiro dia consecutivo de temperaturas elevadas e humidade relativa baixa. Em todo o caso, o número de incêndios que surgiram no site do SNBPC foi superior ao dos dias anteriores, o que mostra que a capacidade da primeira intervenção terá piorado. Outro aspecto que merece relevância foi a maior rapidez de mobilização de meios (evidente no caso do incêndio de ontem em Mação). No entanto, continua a subsistir o problema crónico do combate aos incêndios em Portugal: a relação auto-tanques/bombeiros continua a ser, pro regra, de 1/3 a 1/4, o que significa que quase não existe intervenção sem uso de água.

Já agora, se este fogo, em Aguiar de Sousa (Paredes) começou mesmo aqui, pelas 17h30 de ontem, como foi possível que se tenha descontrolado, ao ponto de estar activo ainda esta madrugada e com a intervenção de mais de 160 bombeiros? Coloco a hipótese de a localização estar inexacta (como cada vez mais desconfio em relação ao «moderno» sistema do SNBPC), mas por isso mesmo seria bom que houvesse maior rigor e sobretudo uma avaliação dos métodos de combate usados pelos bombeiros, mesmo quando os fogos são rapidamente circunscritos.