ESTRAGO DA NAÇÃO

7/31/2007

Os PIN algarvios

Confesso que tenho andado com pouca disposição para escritas e mesmo para acompanhar a vida. Mas não poderia deixar de comentar a visita do primeiro-ministro José Sócrates ao Algarve para apresentar 10 projectos turísticos. Disse ele que muitos se arrastavam há anos e que com o regime dos Projectos de Interesse Nacional (PIN) se conseguiu desbloquear a burocracia.

Ora, por um lado, aquilo que o Governo lá foi apresentar com parangonas - e todos aqueles milhões de euros de investimento - não são apenas os tais hotéis de 5 e 6 estrelas, mas sim, sobretudo, a componente imobiliária para segunda habitação. Os hotéis são apenas meros adereços. Por outro lado, muitos daqueles projectos não estavam a arrastar-se na burocracia. Na verdade, grande parte tinha sido chumbado. E estariam enterrados, caso entretanto José Sócrates não tivesse desenterrado essa coisa inqualificável do ponto de vista social e ambiental que são os PIN.

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Alentejo ardente

Enquanto escrevo, decorre há oito horas um incêndio em Mourão. Num Verão que tem sido muito muito ameno (com excepção dos últimos dias as temperaturas são relativamente moderadas e choveu, pelo menos, em três períodos distintos do mês de Julho), destaca-se porém os fogos de alguma dimensão no Alentejo. Esta situação, aliás, tem vindo a agravar-se ano após ano.

No ano passado, fiz um artigo para o Diário de Notícias sobre esta situação que, julgo, ser pertinente aqui recordar.

«O Alentejo arrisca tornar-se um inferno de chamas nos próximos anos, caso se mantenha a tendência de agravamento dos últimos cinco anos. O recente incêndio da serra de Ossa - que terá queimado mais de seis mil hectares - apenas veio confirmar que esta região, praticamente imune aos fogos até finais da década de 90, começa a figurar cada vez mais no mapa dos incêndios devastadores de Portugal.

Para já, os três distritos alentejanos (Portalegre, Évora e Beja) ainda estão longe de estar no topo dos mais incendiáveis do País, mas a evolução dos últimos anos é terrível. Com efeito, olhando para as estatísticas oficiais, o distrito de Portalegre sofreu um agravamento da taxa média anual de 2891% quando se compara o período 2000-2005 com a década de 90. Os distritos de Évora e Beja atingiram agravamentos de 617% e 866%, quando em termos nacionais o incremento foi de 264%, já em si um valor elevadíssimo.

Apesar de esta tenebrosa evolução estar ainda longe de colocar o Alentejo no topo das regiões mais incendiáveis do País, certo é que, de entre os 20 maiores incêndios do último quinquénio, seis iniciaram-se no Alentejo (v. quadro). O maior incêndio de sempre - em Nisa, que queimou 41 mil hectares - é algo assombroso a nível nacional e sobretudo regional, sabendo-se que antes de 2003 o pior ano neste distrito tinha sido 2001, com apenas 2461 hectares queimados.

Os outros dois distritos ainda não tiveram anos tão avassaladores, mas Beja já registou dois anos acima dos 10 mil hectares ardidos (em 2003 e 2005), quando o máximo nos anos 90 tinha rondado os dois mil hectares (em 1994). Em Évora, onde raramente ardiam mais de mil hectares nos anos 90, já arderam quase 10 mil hectares em 2003, valor que deverá ser ultrapassado este ano. Nos últimos anos, destacam-se na zona os incêndios em Almodôvar, Portel e Odemira, que devastaram milhares de hectares.

Do ponto de vista meteorológico, o Alentejo é potencialmente a zona mais susceptível aos incêndios em Portugal: temperaturas elevadas e humidade relativa baixa e praticamente sem chuva durante o Verão. No entanto, tem a seu favor a baixa incidência de fogos - somente 0,8% do total nacional -, para além de o coberto vegetal ser dominado por montados de sobro e azinho, que se tiverem uma boa gestão são quase imunes aos fogos, a que acresce uma menor densidade do arvoredo que dificulta a propagação do fogo.

Contudo, a repentina alteração na incidência de fogos destrutivos deve-se, exactamente, ao progressivo abandono rural e florestal, que permitiu criar matagais por entre o arvoredo, o que constitui autênticos "barris de pólvora". Essa situação, embora afectando mais os pinhais e eucaliptais desta região, começa também a evidenciar-se nas manchas de montado de sobro. Aliás, o sobreiro começa a ser uma espécie florestal ameaçada, dado que no último quinquénio cerca de 80 mil hectares já foram afectados pelas chamas, embora uma parte significativa tenha ocorrido nos distritos de Faro e Santarém.

No entanto, existem ainda outros motivos para que os incêndios no Alentejo sejam bastante destrutivos: esta região é das menos vigiadas por postos fixos e com a pior cobertura de corporações de bombeiros e brigadas de primeira intervenção. Por isso, não surpreende que no ano passado, dos 196 fogos nesta região, 15 chegaram a ultrapassar os 10 hectares. Uma taxa de quase 8%, cerca de quatro vezes superior à média nacional. Ora, quando um destes incêndios "sobrevive" e atinge uma área vegetal contínua e com tempo seco, acontecem as desgraças. E milhares de hectares de floresta ardem, como palha».
in Diário de Notícias, 14 de Agosto de 2006

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7/26/2007

Depois queixem-se

A viagem de Grândola para Lisboa deveria ser feita a partir das 21:22 horas. Não foi: o comboio intercidades chegou mais de 40 minutos atrasado. A viagem custou 10,50 euros, um valor que me parece excessivo para menos de 150 quilómetros, mas pronto até se concede. O que já é inconcebível é que chegado a Lisboa, o comboio passa por Sete Rios e pára em Entrecampos. E aí fico a saber que já não há metropolitano disponível para ir para o centro da cidade, por via das obras que, durante seis meses (previsão) se desenrolam à noite naquela estação. Ou seja, se parasse em Sete Rios, os passageiros da CP teriam acesso a metropolitano. Mas os senhores da CP, Refer e Metropolitano não devem saber os respectivos números de telefone para combinar estas coisas.

Pior ainda é que, querendo reclamar - com uma sugestão - não consegui fazê-lo. Na estação de Entrecampos somente estavam dois funcionários de uma empresa de segurança. Funcionários da Refer e da CP nem vê-los, estava tudo fechado e, portanto, sem acesso ao livro de reclamações. Somente estava aberto o guichet da Fertagus (empresa privada), mas esses não eram chamados ao assunto. Resultado de tudo isto: arrelias e uma viagem que demoraria de carro cerca de uma hora e meia acabou por consumir cerca de três horas, já que tive de ir a pé até à estação de metro do Areeiro.

Os funcionários da empresa de segurança sugeriram-me que voltasse no dia seguinte para fazer a reclamação. Eu vou é ver se evito andar mais de comboio nestas circunstâncias, por muito que a minha consciência ambiental me critique.

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7/24/2007

Os riscos das privatizações

Nos últimos anos, as privatizações em Portugal têm sobretudo funcionado para tapar buracos financeiros do Estado. Ora, não sendo contra as privatizações, julgo porém que devem ser feitas com um cuidadoso critério. E não estão a ser. Se existem alguns sectores da economia que podem e devem ser dinamizados pelos privados, sendo que o Estado deve apenas exercer o seu papel de regulador, mas exigente, noutros casos existe interesses estratégicos que deveriam ser salvaguardados para a esfera pública. O caso da água para consumo humano é um deles.

Com a anunciada privatização da holding Águas de Portugal - que integra a componente do saneamento (desde água até esgotos passando pelos resíduos) e muitos outras empresas de sectores ambientais -, o Governo dá de barato o uso e usufruto de um bem que deveria estar sempre na esfera pública, por razões que parecem óbvias. Mais ainda quando ainda existem atrasos significativos em algumas regiões relativamente ao abastecimento público de água e á drenagem e tratamento de esgotos urbanos, cujo financiamento poderia e deveria vir dos chorudos lucros da parte mais litoral dos investimentos daquela holding. Aliás, não se pode esperar que os privados que entrem no capital da Águas de Portugal estejam muito interessados em «esturrar» dinheiro em regiões cujos investimentos somente seriam aceitáveis se os preços dos serviços subissem a valores incomportáveis. Ou seja, o que vai acontecer em vastas regiões do país é a completa ausência de investimentos no futuro naqueles dois sectores.

Já em relação aos resíduos sólidos urbanos, começo a ser, cada vez mais, favorável às privatizações, pois se conseguiriam sinergias (por vezes, em alguns concelhos existem quatro entidades distintas a mexer nos lixos) e melhoraria a qualidade do serviço.Aliás, basta comparar Lisboa (um horror em termos de limpeza urbana e recolha de resíduos), cujos lixos são recolhidos pela autarquia, e alguns outros concelhos onde estão empresas privadas. Nestes casos, salvaguardar este sector para a esfera pública não faz sentido e, embora lamente, começo a ser apologista de que, aqui, o privado é melhor do que o público.

Nota: Gostaria de explanar melhor todas estas questões, mas por manifesta falta de tempo fica, por agora, este apontamento.

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7/18/2007

Ambiente em imagens

Interessante, a iniciativa da Quercus de criar a Quercus TV, onde se encontram alguns vídeos da associação (sobretudo d'O Minuto Verde, transmitido na RTP) e de outras origens.

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7/17/2007

Cruzes canhoto

O meu amigo Fernando Moital foi, na passada semana, visitar o Parque Natural da Ria Formosa. Ficou chocado, porque formosura havia pouca. Das várias fotos que registam a sua passagem por aquele antro natural, salvo seja, que aqui podem ser visualizadas, uma se destaca - e que em cima apresento -, tirada a uma parede do centro de interpretação ambiental.

Quando a olhei para a foto, recordei-me da descrição de um incêndio em 1750 no Hospital de Todos-os-Santos, em Lisboa. Então, muitos padres, em vez de tentarem arranjar água ou qualquer outro meio de extinção, usaram cruzes para afugentar as chamas. Logo pensei, portanto que aquele objecto que ali surge pendurado por debaixo da tabuleta «Uso Exclusivo Combate a Fogo» era um crucifixo que não deveria ser usado nunca em funções religiosas, mas sim no ataque aos incêndios. Depois, ele explicou-me: aquilo servia para prender um extintor, que não estava lá...

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7/16/2007

O dedinho

O dedinho que me dizia que António Costa não ultrapassaria os 30% - contrariando todas as previsões das sondagens -, esteve certo. E como as coisas ficaram em termos de mandatos, parece-me quase impossível coligações. A única possível será Costa-Carmona, mas não me parece que o próprio PS queira aceitar essa hipótese, pois numa situação em que os escândalos urbanísticos aumentem - e esturriquem o agora vereador Carmona Rodrigues -, António Costa e o PS ficariam muito chamuscados.

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7/14/2007

O pessoal quer é música

«'Live Earth' fez disparar queixas para o provedor» da RTP, de acordo com o Diário de Notícias, por causa da «conversa a mais e música a menos». Eu sou suspeito - porque participei na «conversa a mais». Talvez tenha existido (sobretudo no caso dos VIPs... e, felizmente, da zona onde estava no estúdio não os ouvia, além de estar entretido a falar com os meus entrevistados. Mas é pena que num dia em que também deveria ser de reflexão sobre o ambiente,as pessoas só se queixem de que houve música a menos.

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7/13/2007

Lisboa a votos

As eleições de domingo em Lisboa podem trazer algumas surpresas. Embora pareça incontornável uma vitória de António Costa, tenho um dedinho que me diz que não deverá ultrapassar os 30% dos votos. E que, em relação aos outros candidatos, embora nenhum venha a ultrapassar os 20%, é muito difícil apostar na sequência. Isto, obviamente, é um palpite, mas tanto é como as próprias sondagens feitas pelas empresas - que, recorde-se, falharam redondamente em 1999 quando davam como certa uma vitória esmagadora de João Soares.

Independentemente disto, certo é que a autarquia manter-se-á ingovernável durante os próximos dois anos até às novas eleições. Um cenário de coligação parece-me muitíssimo pouco provável: Costa não pode coligar-se com Carmona, porque se queimaria; Roseta não aceitará juntar-se, porque tornaria irrelevante a sua candidatura, o que daria a entender ter sido uma birra contra o PS; de Negrão, nem valeria a pena falar, porque nunca o PSD aceitaria um Bloco Central em Lisboa; PCP não desejará apoiar um ex-ministro de um Governo que combate; e Sá Fernandes, com o Bloco de Esquerda, mesmo que quisesse (o que me surpreenderia), provavelmente não elegerá vereadores suficientes. Claro que esta situação de ingovernabilidade não desagradará muito a António Costa: poder-lhe-á ser mesmo útil, pois não se cansará, ao longo dos próximos anos, de se queixar de estar a oposição a fazer-lhe a vida negra, e que só com uma maioria absoluta conseguirá endireitar a Câmara. E assim, em 2009, conseguir algo que o PS nunca obteve sozinho: maioria na autarquia de Lisboa.

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7/11/2007

Investigação com esmola

Uma das pessoas que entrevistei na RTP, no programa dedicado ao Live Earth, foi o director de departamento de energias renováveis do INETI. Enquanto não entrávamos no ar, fui falando com ele e perguntei-lhe que verba possuía o INETI para investigação neste sector (e ele falou-me em vários projectos muito interessantes...). Disse-me que 2,5 milhões de euros (cerca de 500 mil contos em moeda antiga), que teriam também de servir para os salários de aproximadamente 50 pessoas. Ou seja, não dá para nada. E depois fala o Governo em criar um cluster e coisas do género.

P.S. Infelizmente, muitas questões não puderam ser desenvolvidas nessas micro-entrevistas (da minha parte foram cerca de vinte, a que se juntaram outras tantas feitas pela jornalista Rita Saldanha). Fiz o melhor que podia... e sabia.

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Um país de porcos

A inspecção feita pelos serviços do Ministério do Ambiente às suiniculturas é apenas fogo de vista. Fazem esta acção, bastante mediatizada, encerram uma ou outra exploração e vão hibernar durante mais uns anos. Como, aliás, tem acontecido ao longo dos anos. Se assim não fosse não se teria detectado 31 infracções ambientais em apenas oito suiniculturas inspeccionadas.

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7/10/2007

Endoidaram, por certo

Nos últimos tempos, o Diário de Notícias tem sido um manancial de diversão. Hoje, não aguentei destacar e comentar a totalidade desta notícia que me chamou a atenção pelo título: «Foi nadar no rio depois de almoço e morreu». A coisa parecia-me mais uma daquelas notícias do cão que morde o homem, típicas da silly season, quando não se encontra nada mais importante. Porém, esta notícia é especial, tanto assim que para cada parágrafo segue o meu comentário,em itálico e bold. Espero que se divirtam tanto como eu.

«Um indivíduo com cerca de 30 anos perdeu ontem a vida, numa altura em que nadava no rio Douro próximo da praia do Areinho, em Vila Nova de Gaia. Segundo alguns populares, o alerta terá sido dado por crianças que brincavam junto a uma pequena marina, depois de perderem o indivíduo de vista.»

Comentário - Ficamos a saber que um indivíduo (estranha palavra num jornal) perdeu a vida e que crianças perderam o dito de vista. Tantas perdas. Comecei logo a achar que esta notícia me ia divertir.

«O alerta para os bombeiros foi dado por volta das 14.30. Um homem com cerca de 30 anos tinha desaparecido no rio Douro. Para o local foram de imediato os mergulhadores dos Sapadores do Porto e dos bombeiros da Aguda. A estes juntaram-se vários elementos dos Sapadores de Vila Nova de Gaia e de Avintes.»

Comentário - Para o caso de não se ter reparado na primeira frase, o jornalista volta a dar a idade da vítima (cerca de 30 anos). A diferença é ter o indivíduo passado a ser homem.

«Segundo os Sapadores de Gaia e o piquete da Polícia Marítima, as informações recolhidas no local indicam que o indivíduo terá decidido nadar no rio após o almoço. "Tudo leva a acreditar que se terá sentido indisposto, talvez uma congestão ou assim, já que o corpo não apresentava qualquer ferimento", disse ao DN um elemento da Polícia Marítima.»

Comentário - Bolas, o homem passou outra vez a indivíduo. Mas há mais: há bitates para encher sobre a causa do afogamento. E é assim mesmo, de forma coloquial: «talvez uma congestão ou assim». Lindo...

«O alerta foi dado por algumas crianças que brincavam próximo do local e que haviam visto o indivíduo a saltar para a águas. Algum tempo depois, tendo deixado de o ver à tona da água, alertaram alguns adultos para o desaparecimento do homem.»

Comentário - Deixem ver se entendo: as crianças alertaram os adultos, os adultos alertaram supostamente os bombeiros. Isto parece-me coisa para encher. Ah!, e o indivíduo já passou outra vez a ser homem.

«Nas roupas da vítima, que estavam penduradas numa pequena embarcação de pescadores ancorada no local, não foi encontrado qualquer documento que permitisse a identificação. "Houve quem dissesse que o conhecia de vista e que sabia, mais ou menos, onde morava, mas sem grandes certezas", adiantou a mesma fonte. O homem seria solteiro, não tinha filhos e morava próximo do Areínho, com um tio. O corpo foi levado para o Instituto de Medicina Legal do Porto para autópsia que irá determinar as causas da morte e a posterior identificação da vítima mortal.»

Comentário - Essencial, o pormenor de as roupas da vítima estarem penduradas num barco de pescadores. Mas fiquei curioso de saber como eram, e as suas cores e tecidos. Também gostei do «houve quem dissesse». E com tantas dúvidas sobre a identidade do indivíduo ou homem - mas há uns bitates - , aprendi, pela frase do jornalista, que a autópsia também determinará a identificação da vítima. Ah, e ainda bem que a vítima é uma vítima mortal, caso contrário a autópsia provavelmente ia doer um bocadinho...

«Segundo o comandante Martins dos Santos, da Capitania do Douro, "as únicas mortes registadas este ano no rio, nada têm a ver com afogamentos deste género". Os seis casos verificados até ontem reportam-se a "acidentes ou incidentes" diferentes deste caso.»

Comentário - Mais outra informação fundamental: ficamos a saber que houve seis mortes naquele rio, mas que foram apenas «acidentes ou incidentes», sem especificar. E nós que até tínhamos ficado a saber que o indivíduo, ou homem, tinha pendurado a roupa numa embarcação de pescadores.

Conclusão final: Mas que raio de notícia é esta????!

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7/09/2007

Que se há-de fazer?

36 milhões de sacos de plástico, spots televisivos e pacotes de açúcar: são estes os «meios» usados pelo Ministério da Administração Interna para nos sensibilizarem para os fogos florestais. Tudo vai custar, aos cofres públicos, dois milhões de euros. Estes senhores não sabem o que fazer ao nosso dinheiro, por certo.

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Refazer a história

No debate sobre alterações climáticas da RTP, apresentado por Maria Elisa, oiço estupefacto um médico de saúde pública, de nome Paulo Nogueira, a cantar loas ao sistema de vigilância que terá evitado, supostamente, muitas mortes pela onda de calor de 2003. E, com a concordância de Maria Elisa, garantiu que, devido ao tal sistema, se evitou tragédia semelhante à França. Arrepiam-me estas coisas...

Quem se recordar, aquando dessas elevadas temperaturas, o Governo nada sabia e até chegou a apontar valores ridículos de mortalidade (para aí meia dúzia de pessoas). Nada se sabia, nada se fez de prevenção nem de minimização. Só mais tarde, um ano depois, se apuraram os resultados da mortalidade (por sinal, muito próximos de umas estimativas que eu fiz, com base em dados de mortalidade do INE, e que foi publicado meses antes).

Na verdade, conforme se pode ver aqui, morreram em Portugal 2.696 pessoas. É certo que na França se atingiram 19.490 pessoas. Porém, não se pode ver os valores em termos absolutos, mas sim ao nível da população residente. E assim, temos a seguinte taxa de mortalidade causada pela onda de calor de 2003:

Itália - 341 mortes por milhão de habitantes
França - 306 mortes por milhão de habitantes
Espanha - 338 mortes por milhão de habitantes
Alemanha - 114 mortes por milhão de habitantes
Portugal - 254 mortes por milhão de habitantes

Ou seja, não me parece que a situação portuguesa seja assim tão boa. Aliás - e tenho pena de já não encontrar a notícia -, é bom recordar que a onda de calor de 2003 atingiu sobretudo o interior do país, mais despovoado. E, portanto, nessas regiões a taxa de mortalidade foi seguramente muitíssimo superior á verificada em outros países.

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7/07/2007

Live Earth

A RTP faz hoje uma emissão non stop, a partir das 8 da matina, em volta dos concertos do Live Earth, tendo também, em estúdio, diversos convidados, entre os quais mais de quatro dezenas de personalidades ligadas às questões ambientais. Eu, com a jornalista Rita Saldanha, faremos essas pequenas entrevistas mais temáticas. Estarei no ar - salvo seja - a partir das 17 horas até às 4 da manhã de domingo. Algo de peso face à minha (in)experiência em ser entrevistador em televisão. Façam figas, pf

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7/06/2007

Energias

Um blog com notícias actuais sobre energias renováveis: Energias. Para quem quiser estar informado sobre o que se vai passando por esse mundo.

Alentejo a ferro e fogo

Os incêndios desta semana começam a atacar em força no Alentejo. Coisa impensável há umas décadas, mas que revelam que a região sul do país, que possuía uma estrutura agrária e florestal quase imune aos grandes incêndios, está agora a transformar-se num extenso matagal. E isso paga-se agora caro, com tendência a piorar. Já tinha destacado isso no livro Portugal: O Vermelho e o Negro, e no ano passado num artigo que escrevi no Diário de Notícias.

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7/05/2007

Mata que não é protegido

O Diário de Notícias considerou hoje ser relevante publicar um artigo sobre uma raposa pilha-galinhas que anda a atacar nas imediações de um bairro de Viseu, escondendo-se num matagal, e que, como relata uma moradora, «só não matou mais criação porque alguns moradores mudaram as galinhas de sítio enquanto outros reforçaram a vedação».

O caso poderia ter aqui uma solução simples - ou seja, exactamente, reforçar as vedações dos galinheiros ou mudar as ditas aves para sítio mais seguro. Mas a população quer sangue de raposa. E para ajudar a festa surge um suposto ambientalista, supostamente «ligado à associação Quercus» (assim aparece identificado). De seu nome Gastão Antunes diz que como «a raposa (...) não está em perigo de extinção, em meio humano deve ser abatida porque pode transmitir doenças ao homem», devendo assim «ser organizadas batidas».

Uma pequena sugestão: e que tal arranjar-se uma armadilha para apanhar o bicho vivo e levá-lo para outro sítio? Seria simples e inodoro. E já agora, uma pequena pergunta ao ambientalista: será que a raposa transmitirá potencialmente mais doenças do que, por exemplo, as ditas galinhas ou mesmo a rataria que, por certo, existirá no dito matagal nas imediações do bairro?

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7/04/2007

As podas em F

No A Sombra Verde encontro uma série de fotografias - de que reproduzo, aqui ao lado, uma delas - que mostra o terrorismo municipal muito em voga contra as árvores dos arruamentos. Estas foram mutiladas num concelho que só sabe fazer a variante F das podas. É o concelho de Anadia, por sinal de onde sou natural.

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Mais um disparate

O jornalismo desportivo é, sabe-se, um caso à parte do jornalismo. Não apenas pelos perigosos pactos que se criam com as fontes e pelas represálias a que estão sujeitos os jornalistas, além de se usar uma linguagem muito própria. Mas nada disto justifica que quem escreva sobre desporto tenha a liberdade de escrever mal e, pior ainda, sem sentido. Hoje, no Correio da Manhã, numa caixa desta notícia, consta uma pérola do disparate (e já faço o desconto às vírgulas...):

«Leandro Lima, médio ofensivo de 19 anos que foi contratado ao São Caetano, é, a par do seu compatriota Helton, do argentino Lucho Gonzalez e do uruguaio Jorge Fucille o grande ausente neste arranque para a nova época» (sic).

Ou seja, na mesma linha, eu sou o único português vivo, a par de de mais uns 10 milhões de pessoas.

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Mais um daqueles investimentos...

Em Maio, como talvez se recordam, o Governou anunciou a compra de kits contra incêndios para as juntas de freguesias. Já aqui tinha alertado para os perigos desta iniciativa populista e, também chamado, a atenção de estarmos perante mais um desperdício de verbas, tanto mais que o valor de oito milhões de euros me pareceu exagerado. Ontem, no Correio da Manhã, o presidente da autarquia de Mação, veio mostrar que sim: disse ele que o custo unitário de equipamentos similares para as suas juntas de freguesia custaram 1.25o euros, enquanto que os do Governo atingiram os 8.000 euros. Ou seja, acima de seis vezes mais...

P.S. Entretanto, se se confirmarem as previsões meteorológicas, os incêndios devem começar a aparecer em força na próxima semana, sobretudo no interior do país. A zona litoral, por ter beneficiado de chuvas recentes, talvez se aguente por mais algum tempo. Se este ano ocorrer um período de três ou quatro semanas sucessivas sem chuva, veremos enfim se afinal o propalado sistema melhorou ou não. Façam figas.

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7/02/2007

Mensagem linda, mas...

Finalmente uma campanha de prevenção que dá destaque devido à negligência como causadora dos incêndios florestais. Este vídeo relembra o fogo de Famalicão da Serra, no ano passado, que causou a morte de 6 bombeiros. E salienta, em voz off que «tudo começou com um acto negligente», apelando com um «não seja culpado de um crime como este».

Porém, já agora, convém também relembrar que o verdadeiro «crime como este», o de Famalicão da Serra, acabou por ser arquivado pelo Ministério Público. E a culpa morreu, neste caso, com os seis bombeiros.


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As polémicas dos gostos

Vai um grande chinfrim no blog do Provedor do Leitor do Público por causa da iniciativa daquele jornal em colocar à votação os 7 Horrores de Portugal. Tudo por se ter incluído o estádio do Sporting e mais uns quantos edifícios religiosos na lista de candidatos.

Esta iniciativa do Público, de carácter meramente lúdico, tem a virtude de discutir aspectos da nossa arquitectura que tem, de facto, alguns abortos. Mas esta celeuma fez-me lembrar sobretudo um episódio histórico assaz engraçado. Hoje, ninguém colocará em causa a beleza e imponência da arcaria do vale de Alcântara do Aqueduto das Águas Livres, um monumento nacional e ex-libris da cidade de Lisboa, e que foi projectado por Custódio Vieira e concluído por Carlos Mardel. Porém, na altura da sua construção, no segundo quartel do século XVIII era considerado por alguns como uma autêntica aberração arquitectónica, sobretudo por usar linhas góticas. Na linha do frente dos detractores esteve João Frederico Ludovice, o arquitecto do Convento de Mafra. Numa carta que escreveu já depois da morte de Custódio Vieira, a quem chama «Herodes do aqueduto», Ludovice diz o seguinte (textualmente):

«Com tudo á força de immensas despesas se conseguiu atravessar hum valle de mais de trezentos palmos de fundo, buscando de propósito para mostrar esta barbara valentia, sem compostura de alguma artificiosa, bella, e agradavel forma; mas até neste objecto barbaro, tosco e espantoso, com grande descredito da Nação, e do tempo presente, em que pretende terem-se apurado mais as obras; e isto executado com pedra de cantaria tão vergonhosamente, podendo-lhe com as mesmas fiadas das pedras algum tanto mais fóra, ou mais dentro, quasi com o mesmo custo, dar-lhe muyta graça, e alma, sem cuidar em nada mais, como seria prevenir, que a água, em quanto se occupavão na monstruosidade referida (...). E morto [está agora] quem teve tanta astúcia, e atrevimento para reduzir huma Corte tão principal da Europa a obra tão escusada, damnosa, da forma, á vista de toda a qualidade de pessoas, que como encantadas, não podiam fallar, por mais vontade que tivessem (...)».

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Escrita com os pés

Começa a ser desesperante reparar na fraquíssima qualidade de algumas notícias que surgem nos jornais de âmbito nacional. Ontem deu-me para reparar nesta notícia do DN que aborda o início da «época oficial» dos fogos florestais.

Vejamos algumas incorrecções sobre as matérias abordadas pelo jornalista:

a) «No ano passado ficou longe das cifras negras de 2003 e 2004, com mais de 300 mil hectares ardidos», escreve o jornalista, quando, na verdade, foram os anos de 2003 e 2005.

b) «A área ardida tem vindo a registar um decréscimo significativo face à média dos últimos cinco anos, segundo a Direcção-Geral dos Recursos Florestais», escreve o jornalista, quando não faz sentido algum comparar um ano com a média dos 5 anos anteriores e dizer depois que se está a registar um decréscimo (ou seja, uma tendência).

c) «O objectivo do Governo é que até 2012 a área de floresta ardida em Portugal diminua cem mil hectares», quando, na verdade, o objectivo é que a partir de 2012 se consiga que, por ano, menos de 100 mil hectares de área ardida por ano.

Mais chocante, porém, são os sucessivos erros de construção das frases e uma escrita quase macarrónica, sem vírgulas onde deveriam estar e com incoerências várias. Eu próprio cometo erros e lapsos quando escrevo, mas nesta notícia abundam excessivamente. São mais do que lapsos. Vejamos alguns exemplos:

a) «No ano passado ficou longe das cifras negras de 2003 e 2004, com mais de 300 mil hectares ardidos». Deveria ser «O ano passado (...).

b) «O melhor exemplo é o do corrente ano, em que a área ardida diminuiu até agora 60% face ao mesmo período de 2006, segundo dados divulgados pela Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC)». A expressão «é o do» é horrível.

c) «A promessa consta do plano nacional de defesa da floresta aprovada em Conselho de Ministros». Fica-se a ser que a promessa foi aprovada em Conselho de Ministros; pensava que tinha sido o plano...

d) «Para já a grande ajuda para o combate aos fogos florestais vem da meteorologia, e, apesar do início do Verão, as previsões insistem no céu nublado e elevadas humidades relativas». As previsões insistem? Por amor de Deus, pelo menos que se escrevesse qualquer coisa do género «as previsões apontam para a manutenção de céu nublado».

Podem-me dizer que são pormenores, mas continuo a insistir que são estes pormenores de falta de qualidade que contribuem para afugentar os leitores. Pelo menos os mais exigentes.

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