8/08/2006

As estatísticas do SNBPC de trazer por casa

Segundo o SNBPC, este domingo foi o dia com maior número de incêndios desde 2003, com 546 incêndios florestais ou em zonas de mato. E segundo a mesma entidade, duplicou-se o número de fogos em relação ao mês passado. Este balanço não surghe por acaso: o SNPBC quer transmitir que mais incêndios, dá mais trabalho; mais trabalho «justifica» que os incêndios «descarrilem» por alegado excesso de trabalho.

Esta estratégia não é nova e há anos poder-se-ia ver notícias em que se relatava a existência de mil incêndios num só dia. Mas há um aspecto que deve merecer reflexão e desconfiança. A esmagadora maioria destes incêndios são, na verdade, inexistentes ou sem quase mobilização de recursos (vd. post «Já esperava esta deculpa...», de ontem). Mas há um pormenor que me leva a dupla desconfiança: o anterior valor mais elevado desde 2003 ocorreu em 20 de Agosto do ano passado, em que se registaram 545 ocorrências (dos quais 40% apenas nos distritos de Porto e Braga). Ou seja, no domingo passado bateu-se, de forma muito conveniente, o recorde por uma-1-uma ocorrência!!!

Quanto à duplicação de fogos, esta é outra engenhosa forma de ver as estatísticas. Julho foi húmido; não pode constituir qualquer termo de comparação, porque às tantas, assim, também se pode comparar Agosto com Janeiro. E em qualquer ano, durante o Verão, existe uma amplitude enorme ao longo dos dias. Por exemplo, em Agosto do ano passado, o valor máximo foi de 545 fogos, no dia 20, enquanto o valor mínimo registou-se no dia 10, com apenas 29 fogos. Por classe, nesse mês de Agosto houve seis dias com menos de 200 fogos cada e oito dias com mais de 400 fogos cada.

Estes dados são oficiais (Direcção-Geral dos Recursos Florestais) e também apresentam a área ardida por cada dia. Seria exaustivo referir aqui valores de área ardida por dia, mas garanto-vos que não existe qualquer correlação entre número de fogos e área ardida. Aliás, como refiro no livro Portugal: O Vermelho e o Negro, pegando nos dados oficiais e comparando os quinquénios 1996-2000 e 2001-2005 constata-se uma diminuição de 6% no número de ocorrências e um aumento de 120% na área ardida. Não se venha, por tudo isto, com a desculpa do número de fogos!

8/07/2006

Avaliação - dia III e IV

Estamos no quarto dia de verdadeiro tempo quente e seco e convenhamos que os sinais que indiciam um ano catastrófico (para mim, é tudo o que seja superior a 100 mil hectares) são já preocupantes. É certo que ainda - e repito, ainda - não temos fogos de vários dias (poucos têm ultrapassado as 24 horas), mas isso não surpreende e não é motivo para se dizer que há mais eficácia na acção dos bombeiros: um fogo de vários dias «necessita» de extensão florestal e, como se sabe, isso começa a rarear em Portugal. Se nos últimos três anos ardeu 900 mil hectares - grande parte devido à devastação de zonas contínuas -, claro que isso contribui muito para que não haja incêndios de vários dias. Mesmo assim já devemos contar com vários incêndios com mais de 1.000 hectares...

Mas, mais importante e preocupante, é constatar que as zonas que estão a ser mais flageladas actualmente nem sequer eram muito incendiáveis em anos anteriores. Ontem estive a ver que dos 12 concelhos que tinham à noite fogos activos, a esmagadora maioria ardeu relativamente pouco nos últimos 15 anos. Dé entre esses 12, temos 9 concelhos que nem sequer ocupam os 100 primeiros lugares na lista dos mais incendiáveis. O que significa isto? Significa que os concelhos mais incendiáveis não ardem porque pouco têm já para arder e que nem sequer se está a registar eficácia no combate nos concelhos que nem costumavam arder.

Esta tarde, em relação aos seis concelhos que tinham fogos não circunscritos torna-se evidente que eram, teoricamente, pouco incendiáveis: relativamente à destruição pelo fogo desde 1990, Braga (ocupa o 123º lugar), Estremoz (272º), Almeida (58º), Valongo (61º), Ourém (63º), Paredes de Coura (41º) e Montalegre (101º). Ou seja, como se vê, o que anda a arder não era suposto estar a arder; e só não arde aquilo que era suposto arder porque foi dizimado em anos anteriores. Em suma, não vislumbro qualquer eficácia, pelo contrário há fortes sinais de preocupação. E isto infelizmente somente vai no início...

Nota 1 - A serra de Ossa vai ser dizimada em menos de um dia (previsão)

Nota 2 - Impressionante a quantidade de incêndios de alguma dimensão que tem estado a atingir o Parque Natural da Peneda-Gerês. Mas isso pouco importa - o que interessa, como se tem visto nos discursos oficiais e é a única preocupação da imprensa, é que não ardam casas. Mesmo se essas casas nada fizeram em termos de limpezas em redor...
A informação pública

Hoje, a RTP viu-se obrigada a abordar os incêndios. A contra-gosto, é certo, porque não abriu o telejornal com esse tema, ao contrário dos outros canais. Mas vá lá, melhorou: falou dos incêndios que ainda estavam a lavrar e não apenas, como ontem, naqueles que já tinham sido extintos...
Já esperava esta desculpa...

Ao quarto dia, surge a desculpa do número excessivo de fogos em Portugal, pelo mão do SNBPC. É prática comum, nada recente, que quando existem grandes incêndios, este é o argumento principal. Há uns anos até se «chegou» aos mil incêndios num só dia. No meu livro apurei que 28% dos incêndios no ano passado não tinham causado mais do que 100 metros quadrados, havendo milhares de incêndios com 1, 2, 3, 4... etc., metros quadrados de área ardida. Por exemplo, só no concelho de Viseu terá «existido» mais de 100 fogos com 1-um-1 metro quadrado.

A questão do número de incêndios é uma falácia - e algo que é facilmente manipulável. Basta reparar que ontem, de entre os quase 550 fogos, nem 50 surgiram na página do SNBPC (que apenas inclui os fogos com mais de duas horas de duração ou com mais de 5 veículos). Ou seja, mais de 90% dos incêndios não deram quase nenhum trabalho.

Além disso, não terá sido por excesso de fogos que algumas regiões estão a ser flageladas. Veja-se o caso do incêndio que lavrou durante dois dias em Aguiar de Sousa, pertencente ao município de Paredes. Este é o concelho com maior número de ocorrências na última década: entre 1996 e 2005 registou-se, oficialmente, 8.186 fogos. Por pura sorte, nenhum tinha causado o desastre que se verificou este fim-de-semana. Algums vez o cântaro haveria de se quebrar; e não foi por excesso de fogos - o excesso, a existir, sempre se verificou...

8/06/2006

O frete televisivo

No Portugal da RTP - empresa pública de televisão -, hoje não houve fogos em Portugal. E os que houve ficaram remetidos para as calendas do alinhamento e apenas os que foram extintos. Enquanto as outras televisões (SIC e TVI) deram o destaque merecido, com directos q.b., a RTP gastou 33 minutos do seu telejornal das 20 horas a abordar a guerra no Líbano (com pelo menos três directos com outros quantos jornalistas), a tensão no Irão, os problemas em Gaza, a doença de Fidel Castro, um acidente no Parque da Pena devido à queda de uma ramada de eucalipto (que causou uma morte). Depois em dois ou três minutos, a RTP apenas abordou dois incêndios, ambos circunscritos de manhã e, nessa altura, já extintos: na Póvoa do Varzim e em Paredes (Aguiar de Sousa). De resto, nem uma única palavra sobre a situação actual, designadamente a mais de uma dezena de incêndios que então estavam ainda não circunscritos. Eis um exemplo de serviço público que, sob critérios inconfessáveis, se confunde com serviço do Governo. Eu bem que temia que a introdução de critérios para a abordagem dos incêndios pela Direcção de Informação da RTP - de que falei há dias -, ia dar nisto...
A hora da verdade

E ao final do terceiro dia, o caos instalou-se. Só falta saber qual vai ser a desculpa do ministro António Costa para este desastre, embora tenha quase a certeza de que a culpa vai ser da «trindade meteorológica»: calor, humidade relativa e vento. E já agora gostava de saber se o primeiro-ministro José Sócrates vai telefonar «duas ou mais vezes» para saber se valerá a pena interromper as férias.
Um fogo como troféu

Quase 40 horas após o seu início, o incêndio em Aguiar de Sousa (Paredes) foi considerado extinto pelas 9h20 de hoje. Porém,às 13h30 ainda se encontra no site do SNBPC com a informação EXTINTO (assim mesmo em maísculas, enquanto os fogos não circunscritos e circunscritos aparecem em minúsculas). Curiosamente,somente os muito grandes incêndios têm direito a permanecer mais umas horas neste «painel».

Isto não é por acaso. O SNBPC apresenta a extinção deste fogo como um «troféu de caça», como se dissesse «fomos bem sucedidos, liquídamos o bastardo!». Não há pior erro: um fogo que dura 40 horas nunca é um caso de sucesso, mas sim de insucesso. Enquanto assim não considerarmos, continuamos a alimentar o heroicismo... ineficaz, é certo, mas sempre gostámos de actos heróicos, mesmo quando perdemos as batalhas.
Uma pergunta (im)pertinente

Qual será a razão por que um incêndio em Amarante que começou ontem às 14h40 tem, quase 12 horas depois, apenas 32 bombeiros e sete veículos a combatê-lo, enquanto que um em Cascais que surgiu perto da meia-noite teve «direito» a ser atacado por 75 bombeiros e 24 veículos? Não será por questões destas que o de Amarante lá vai lavrando e o de Cascais apagou-se em menos de uma hora?

P.S. Já agora, em ambos os casos, de acordo com o SNBPC, referem-se a fogos em matos. Mas até há fogos em floresta no interior que para chegar a haver 75 homens a combater demora-se três ou mais horas.
Mais um incêndio florestal que surge no meio de prédios

Olhem-me esta localização de um fogo, circunscrito em menos de uma hora, junto da barragem do Rio da Mula, no concelho de Cascais, de acordo com o site do SNBPC. Este tipo de disparates, que começam a ser recorrentes, por parte do SNBPC leva-me a crer que, no terreno, os bombeiros também laborem em função de informação desta calidade.
Avaliação - dia II

De forma nada surpreendente, o segundo dia de temperaturas elevadas e baixa humidade relativa foi pior do que o primeiro. Neste momento (00h15), ainda «sobreviveram», à passagem da meia-noite, 10 incêndios, dos quais sete não circunscritos (e os circunscritos,logo se verá se serão apagados tão depressa).

Existe aqui alguns dados preocupantes. O primeiro é a existência de três incêndios que avançam para a sua segunda noite (um em Torre de Moncorvo - que se encontra há horas como circunscrito e até já foi dadod por extinto -, outro em Arcos de Valdevez - que julgo que também já esteve considerado extinto - e o grande incêndio de Aguiar de Sousa, em Paredes, o maior de todos, que já chegou a ter mais de 500 bombeiros). Fui também verificando vários casos de reacendimentos, o que não sendo pouco habitual, apenas mostra que os rescaldos continuam a ser mal feitos - ou então contam-se vitórias antes do tempo.

Até agora as regiões mais massacradas têm sido as do Norte litoral (Porto, Braga e Viana do Castelo), embora um incêndio na Sertã tenha durado quase 24 horas com bastante estrago. Julgo que os incêndios em anos anteriores terão «ajudado». Os distritos de Coimbra e Viseu também têm registado alguns incêndios, mas até agora houve a sorte de nenhum deles ter «encontrado» áreas contínuas muito extensas.

Com as previsões para este domingo a apontar para uma situaçãometeorológica semelhante ao dos dois dias anteriores, prevejo aquilo que parece incontornável: incêndios. Afinal, apenas se está a confirmar que,em Portugal, o «sistema» é eficaz quando chove; medianamente eficaz quando as temperaturas baixas e ineficaz quando as temperaturas são elevadas. O problema é que no Verão as temperaturas costumam ser elevadas.

Nota 1 - Oiço o comandante distrital do Porto dizer na TSF que está esperançoso em circunscrever o fogo de Paredes durante a noite: «Pelo nosso trabalho, sim senhor», mas já se desculpa depois com a humidade e o vento.

Nota 2 - Toda a gente parece estar satisfeita por não arderem casas.

Nota 3 - Começa a ser uma irresponsabilidade a quantidade de acidentes rodoviários que envolvem bombeiros no combate aos incêndios.Um deles - em que um bombeiros caiu de um auto-tanque, presumindo-se que ia pendurado - é de uma irresponsabilidade intolerável. É também por este tipo de voluntarismo heróico que defendo a profissionalização dos bombeiros.

Nota 4 - Um técnico do Instituto de Meteorologia veio dizer que as temperaturas são normais para um Verão português. Que chatice para o Governo...

8/05/2006

Circunscrito por nada mais haver para arder

Esta tarde, pouco depois da hora de almoço, um incêndio em Paredes (não o que lavra desde ontem) obrigou ao fecho temporário de uma auto-estrada. Pouco tempo depois,o incêndio foi considerado circunscrito. Olhando para a localização do incêndio (ver aqui) e para as pequenas e fraccionadas manchas de vegetação compreende-se que o fogo não tinha muitas chances de continuar. O incêndio ficou circunscrito por eficácia dos bombeiros?

P.S. Aliás, na esmagadora maioria dos incêndios dos últimos dois dias - e ressalvando alguns evidentes erros de localização por parte do SNBPC e outros casos em que o pormenor das imagens do Google Earth não permitirem uma boa visualização do coberto vegetal - tem havido alguma sorte por as zonas envolventes das ignições não serem áreas florestais extensas. Em parte devido aos incêndios dos últimos anos. Uma das poucas excepções refere-se ao incêndio de Paredes, que se iniciou ontem em Aguiar de Sousa. Pelas imagens, infelizmente há muita «coisa» para arder...
Avaliação - dia I

À laia de «avaliação» deste primeiro dia em que as condições meteorológicas foram adversas, constato que todos os incêndios, com excepção óbvia dos que ainda evoluem, foram extintos em menos de 24 horas, o que pode considerar-se positivo, embora por regra, olhando os anos anteriores, a situação apenas se complica a partir do segundo ou terceiro dia consecutivo de temperaturas elevadas e humidade relativa baixa. Em todo o caso, o número de incêndios que surgiram no site do SNBPC foi superior ao dos dias anteriores, o que mostra que a capacidade da primeira intervenção terá piorado. Outro aspecto que merece relevância foi a maior rapidez de mobilização de meios (evidente no caso do incêndio de ontem em Mação). No entanto, continua a subsistir o problema crónico do combate aos incêndios em Portugal: a relação auto-tanques/bombeiros continua a ser, pro regra, de 1/3 a 1/4, o que significa que quase não existe intervenção sem uso de água.

Já agora, se este fogo, em Aguiar de Sousa (Paredes) começou mesmo aqui, pelas 17h30 de ontem, como foi possível que se tenha descontrolado, ao ponto de estar activo ainda esta madrugada e com a intervenção de mais de 160 bombeiros? Coloco a hipótese de a localização estar inexacta (como cada vez mais desconfio em relação ao «moderno» sistema do SNBPC), mas por isso mesmo seria bom que houvesse maior rigor e sobretudo uma avaliação dos métodos de combate usados pelos bombeiros, mesmo quando os fogos são rapidamente circunscritos.

8/04/2006

A novela mexicana

O Ministério do Ambiente isentou de estudo de impacte ambiental o renascido processo da co-incineração de Outão, alegando que o Instituto dos Resíduos também é dessa opinião. Eu sinceramente já me custa falar desta má «novela mexicana», mas detesto que haja quem nos queira fazer de parvos. Alguém acredita que o Instituto dos Resíduos e mesmo o ministro do Ambiente tivesse coragem de contrariar a obsessão de José Sócrates, agora que ele é primeiro-ministro?


O nobre despacho

Nobre Guedes, ex-ministro do Ambiente do Governo PSD/PP, veio afirmar que voltaria a assinar o despacho para autorizar o corte de sobreiros na herdade da Portucale, em Benavente. Obviamente tenho esperança de que ele não venha a ter nova oportunidade, mas que receio que, mais ano menos anos, haja outro «Nobre Guedes» a tentar nova autorização, ai isso vai...
A falácia dos meses excepcionais

O relatório apresentado ontem pela Direcção-Geral dos Recursos Florestais continua a insistir, implicitamente, no erro de atirar foguetes antes da festa. Mesmo tendo-se «esquecido» de meter pelo menos dois incêndios importantes (Vale de Cambra e Serpa), os cerca de 12 mil hectares ardidos até ao final do mês de Julho não se pode considerar como um «ano excepcional», como titula a imprensa por via dessas informações oficiais. O único facto «excepcional», a ter existido, foi o facto de o mês de Julho ter sido favorável por ter chovido.

Continuo a insistir que é um erro crasso fazer este tipo de comparações a meio do «jogo». porque todos os anos há meses calmos e meses infernais. Por exemplo, em 2003, Julho tinha sido calmo, Agosto infernal. Já em 2004, Julho ardeu bastante, em Agosto quase nada (ardeu cerca de 5 mil hectares, porque chouveu bastante...). E os exemplos poderiam ser mais.

Este final de semana por certo nos irá, infelizmente,fazer descer à terra. E mostrar que os problemas estruturais que existem há anos - e que não foram modificadas pelas operações de cosmética deste Governo - se mantêm.O rei vai nu e é pena que se continue sem abrir os olhos.



8/03/2006

Tragam um choque tecnológico, se fáxfavor!

Ontem já tinha mostrado a minha desconfiança sobre o rigor do site do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil em relação à identificação rigorosa do local das ignições. Hoje confirmei que, enfim, não se pode confiar. De facto, está a ocorrer agora (15h30) um incêndio florestal no concelho de Mação (aliás, o segundo município do país que mais ardeu desde 1990) e clicando na localização em mapa (ver aqui) verifica-se que começou no meio de uma estrada urbana no «coração» da vila, rodeado por prédios. Será que os GPS andam avariados? E se o sistema não é rigoroso será que não valia mais deixar de fornecer informação que, dando ares de tecnológica, afinal é anedótica?

8/02/2006

Olhar o fogo por cima

Este ano, o Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção arranjou um sistema de informação (consultável aqui) que, aparentando ser inovador, parece não ser assim tão bom quanto isso. Ou então mostra que os bombeiros não dão bem conta do recado em muitos casos. De facto, online, pode-se consultar a situação dos incêndios e clicando no mapa dá para ver a localização da ignição inicial.

Ora, isto é de enorme utilidade para uma avaliação do risco de cada incêndio. Mas também para prever a periculosidade do dito. Em muitos casos, sobretudo nos incêndios no litoral, verifica-se que as ignições nunca podem ser muito destrutivas em área, porque as manchas de vegetação são pequenas. Ou seja, o fogo até pode ficar circunscrito ao fim de um par de horas, mas na verdade já o estava desde o início. E apaga-se, em muitos casos, porque ardeu o pouco que podia arder.

Por outro lado, parece-me haver, noutros casos, alguns erros de precisão na localização ou então um falhanço rotundo dos bombeiros. O incêndio que está a decorrer neste momento (22h45) no concelho de Vila Verde é paradigmático. Se clicarem aqui (convem fazer zoom, usando a escala à esquerda) verificarão que o local identificado da ignição está numa zona de casas bastante delimitado por estradas e que em redor não exsiste grande manchas de vegetação que possam ser consumidas. Quando olhei para esta localização por volta das 17h00 não imaginava que viesse a ser um fogo para tantas horas. Por isso, das duas uma: ou o fogo não começou naquela zona ou então os bombeiros foram ineficazes nas primeiras fases do combate...
Despejar água para tapar o sol com a peneira

Tenho defendido que, nas actuais circunstâncias, Portugal tem necessidade de apostar mais no combate aos incêndios florestais. Mas «mais» significa «melhor», de forma mais eficaz e numa relação que pondere sempre os custos. Nos últimos anos, a «contabilidade» é deveras preocupante: Portugal gasta mais no combate e arde mais. Este ano, o Governo está claramente a mostrar que quer gastar mais ainda, mas isso não significa necessariamente gastar melhor. E obter melhores resultados em termos de área ardida.

Tenho acompanhado quase diariamente o site do SNBPC sobre os meios utilizados no combate aos incêndios. Como na maioria dos casos se consegue observar, através do Google Earth, as localizações dos focos de ignição (uma inovação que merece elogios), constata-se que em muitas situações o recurso a meios aéreos não faz sentido e apenas constutuem um gasto muito caro. O uso excessivo de meios aéreos acaba, aliás, por ser contraproducente. E porquê digo isto? Por duas razões: em alguns casos as manchas florestais em perigo são pouco extensas e mesmo que as coisas deêm para o torto, em muitas situações os danos nunca seriam elevados; por outro, dá a sensação de que os meios aéreos tudo resolvem.

Enquanto há poucos incêndios, esta estratégia até dá bons resultados em termos de área ardida, mas do ponto de vista económico é um desastre a prazo. Por exemplo, ontem um incêndio que começou às 18 horas numa freguesia de Castelo Branco teve um imediato ataque musculado: 59 bombeiros, 14 viaturas, três helicópteros e quatro aviões! Apagou-se em menos de uma hora! Sucesso? Não! Teria havido sucesso se o fogo tivesse sido extinto sem que sete aeronaves andassem a despejar água ininterruptamente num fogo nascente! Nenhum sistema é eficaz nem economicamente sustentável se necessitar de tantos meios aéreos para debelar um fogo no seu início, porque haverá muitos dias em que essa tão grande disponibilidade deixará de ser possível. Mas mesmo que fosse possível, no fim do ano pagaremos uma pesada factura. E ninguém nos garante que a área ardida seja menor: basta, aliás, olhar para a última década.

7/31/2006

A prova de fogo vai começar

Eu sei que escrevi um romance intitulado «O Profeta do Castigo Divino» e que não me apetece estar a ser «o profeta da desgraça». Contudo, tenho a obrigação de relembrar que, no passado dia 20 de Julho, escrevia aqui sobre os perigos da confiança em relação aos incêndios florestais, que este ano ainda não atacaram em força. Referia mesmo que «se houver duas semanas seguidas sem chuva em território nacional, o país começa a arder forte e feio à segunda semana. E tanto mais quanto maior for a sensação (enganadora) de que existe uma boa eficácia da vigilância e do combate».

Pois bem, vamos iniciar a segunda semana em que praticamente não choveu em território português. As previsões meteorológicas apontam mesmo para um aumento das temperaturas máximas. A «prova de fogo» vai começar agora. Se o «sistema» conseguir portar-se bem, então começo a acreditar que algo mudou em relação ao ano anterior.

No entanto, convém referir que, na minha opinião, este ano será bom se arder menos de 50 mil hectares; razoável se arder entre 50 mil e 75 mil hectares; sofrível se arder entre 75 mil e 100 mil hectares. E péssimo se arder mais de 100 mil hectares. Claro que se o valor rondar os 100 mil hectares, o Governo aprestar-se-á a felicitar-se e a comunicação social vai certamente atrás. Mas esse é um problema crónico da falta de memória: nas décadas de 70 e 80, anos com pouco menos de 100 mil hectares eram considerados catastróficos. Contudo, a percepção do drama modificou-se depois de já ter ardido 426 mil hectares em 2003 e 325 mil em 2005.
A qualidade paga-se cara

Na quarta-feira passada fui ao Porto receber uma «menção honrosa» de um prémio de jornalismo organizado pela empresa pública Águas do Douro e Paiva, por uma reportagem que publiquei na extinta Grande Reportagem. O digno vencedor foi uma equipa de jornalistas do jornal Água & Ambiente, tendo um trabalho da Rádio Renascença recebido a outra «menção honrosa».

Tive oportunidade de referir, na sessão de entrega, um aspecto preocupante que se verifica actualmente na imprensa dita generalista: a «dificuldade» cada vez maior em se publicar temas ambientais e sobretudo com alguma profundidade. Mesmo se o trabalho que publiquei na Grande Reportagem tinha apenas seis páginas já não permitia explanar um assunto de grande importância - a existência de várias regiões do país ainda sem água canalizada e muitas outras em que a água não tem qualidade -, actualmente não conseguiria sequer ter esse espaço. Longe vão os tempos (e não são assim tão longínquos) em que havia espaço para investigar e reflectir. Hoje tudo se faz pela rama, por vezes sem rigor, alegadamente porque os leitores «não querem». É pena que a imprensa generalista - e sobretudo a de referência - não veja ainda que a quebra nas vendas é fruto da fraca aposta na qualidade...

Nota: Que não se veja este meu post como uma desculpa ou uma postura de mau perdedor: não foi, acredito, por uma questão de espaço que o dossier (muito completo) da Água & Ambiente foi a vencedora...

7/30/2006

Choque tecnológico descarrilado

Nunca consegui compreender os motivos para que uma viagem de comboio na principal linha do país (Linha do Norte) sofra constantes perdas de rede dos telemóveis. Será que o TGV vai ser útil apenas para diminuir o nosso tempo de irritação perante as faltas de sinal sempre que se pretende fazer uma chamadita?

7/24/2006

O polvo autárquico

Encontra-se na ordem do dia, uma discussão deveras interessante: as empresas municipais em Portugal e, com especial destaque, a acumulação de cargos de autarcas nas ditas. De repente, o Governo parece ter reparado que daqui a nada há mais empresas municipais do que municípios e que existem duplicações de tarefas, remunerações principescas, salários de autarcas «inflacionados», endividamento autárquico encapotado, etc., etc., etc..

Sobre esta matéria, convenhamos que devo ser - sem que seja motivo de orgulho - das primeiras pessoas deste país que antecipou a criação destes polvos autárquicos. Em 2001, como jornalista do Expresso, fiz uma exaustiva - e custosa - investigação de meio ano sobre este mundo empresarial, abordando as empresas muncipais e todas as outras sociedades empresariais ou pseudo-empresariais. O resultado deste trabalho seria publicado em sete edições do Expresso, entre 5 de Outubro e 17 de Outubro de 2001. Descobri de tudo: aproveitamento das empresas para fugir à fiscalização do Tribunal de Contas ou para permitir um maior endividamento das autarquias, acumulações de salários, autarcas «sem trabalho» porque tudo era feito pelas empresas, departamentos autárquicos que se mantinham apesar da existência de empresas municipais, empresas municipais em falência técnica, sobreendividadas ou com objecto social caricato. Enfim, uma autêntica «salada de polvo» (aliás, havia, e penso que ainda há, uma que apenas fazia uma acção por ano: um festival de marisco...).

Nessa altura - e entretanto a «coisa» ainda piorou -, os municípios com 5 ou mais entidades empresariais com participação autárquicas eram os seguintes:

Porto — 22 entidades autárquicas de cariz empresarial; Lisboa — 17; Braga — 15; Vila Nova de Gaia — 14; Aveiro — 10; Loulé — 10; Sintra — 10; Cascais — 9; Faro — 9; Coimbra — 8; Oeiras — 8; Figueira da Foz — 7; Guarda — 7; Guimarães — 7; Leiria — 7; Matosinhos — 7; Ourém — 7; Torres Vedras — 7: Vila do Conde — 7; Viseu — 7; Alcanena — 6; Barcelos — 6; Évora — 6; Mafra — 6; Marinha Grande — 6; Portimão — 6; Arcos de Valdevez — 5; Batalha — 5; Bragança — 5; Elvas — 5; Esposende — 5; Grândola — 5; Loures — 5; Olhão — 5; Ovar — 5; Penacova — 5; Póvoa de Varzim — 5; Sta. Maria da Feira — 5; Silves — 5; Viana do Castelo — 5; Vila Real — 5

No final desta investigação, o então Governo socialista prometia rever a legislação. Cinco anos depois, estamos na mesma. Ou pior, porque pelo que pressinto, há mais empresas, mais acumulação de salários e maior endividamento.

No Reportagens Ambientais coloquei o primeiro desses textos publicado no Expresso.

7/23/2006

Um pequeno exercício de estatística

O país está relativamente calmo em relação ao fogos. Nota-se um sorriso de triunfo no Governo. No último relatório da Direcção-Geral dos Recursos Florestais (DGRF) destaca o facto de «a área ardida é mesmo significativamente inferior a qualquer dos anos do período em referência» (até 15 de Julho). Festejos não são convenientes: a história dos últimos anos falam por si. Por exemplo, em 2003 até esse período de referência ardeu apenas 5% do total do ano. Ou seja, as coisas até estavam aparentemente a correr bem a meio de Julho (na verdade, na primeira quinzena de Agosto é que as coisas se complicaram, tendo ardido só nesse período mais de 300 mil hectares). Já em 1998, a «coisa» estava a correr aparentemente bem: até 13 de Julho ardera apenas menos de 4.500 hectares. Ou seja, cerca de 3% das contas finais do ano (e assumindo como válidos os 158 mil hectares que então o Governo indicou, já que o Instituto Superior de Agronomia apuraria mais tarde, através de imagens de satélite, que a área teria sido superior a 230 mil hectares). Se o presente ano tiver um comportamento estatitisticamente semelhante a 2003, arderá portanto cerca de 191 mil hectares.

Claro que a situação pode ser mais favorável e termos um ano de 2006 semelhante a 2004. OU seja, até 15 de Julho, tinha ardido 30% da área do ano. Se isso se verificasse no presente ano, então arderá 32 mil hectares. o quie seria excelente. No entanto, em 2004 choveu quase todo o mês de Agosto...

Ou seja, entre a chuva de Agosto de 2004 e a falta de chuva de Agosto de 2003: assim se decidirá o ano de 2006 em matéria de incêndios florestais.

Nota: Cada vez entendo menos as estatísticas da Direcção-Geral dos Recursos Florestais. O último relatório refere que em 2005 ardeu 338.262 hectares. No início do ano, o relatório final de 2005 referia 325.226 hectares. E este valor já era uma correcção dos números apontados anteriormente: cerca de 299 mil hectares. Afinal, em que é que ficamos?

7/22/2006

Confesso que tenho medo, muito medo

O secretário de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades, João Ferrão, referiu ontem que o Governo está empenhado na «credibilização» do sistema de ordenamento territorial, referindo que é «lento, ineficiente e burocrático». Esperemos que esse empenho não faça com que fique «rápido e desburocrático», mas se mantenha «ineficiente». Ou seja, que se constitue a descaracterização do território. É um risco elevado que se corre, sabendo-se da vontade de dar «corda livre» aos autarcas em relação à aprovação dos planos directores municipais.
Assim estamos esclarecidos...

A Direcção de Informação da RTP revelou que este ano há orientações expressas aos jornalistas para não darem imagens redundantes sobre os incêndios, não interpelarem populares que nada têm a ver com o assunto nem tão-pouco colocar questões sobre a eventual causa dos incêncios, além de «obrigar» a que seja feito um acompanhamento da situação dos fogos activos de edição em edição.

Este esclarecimento é bem-vindo e concordo a 100% - no meu livro critico a forma como a comunicação social tem vindo a acompanhar, em anos anteriores, a situação dos fogos. Porém, este é um caminho «perigoso». Se a auto-regulação é adequada, convém saber se não se transformará em censura quando surgirem incêndios de grandes proporções.

7/21/2006

Bem-vindas, noites tropicais

Ontem também verifiquei um outro claro sinal de falta de rigor jornalístico que muito me chocou: noticiou-se a existência de um recorde de onda de calor em várias regiões do país, por causa de anormais temperaturas quentes durante a noite. De forma, indirecta dava a entender que o país até se tinha safado bem com os incêndios, mesmo devido à tal onda de calor.

No entanto, na verdade, uma onda de calor ao nível das temperaturas mínimas nada tem a ver com uma onda de calor com temperaturas máximas. Do ponto de vista da saúde pública, temperaturas à noite elevadas têm um impacte fortíssimo na população idosa, mas ao nível dos fogos é irrelevante (porque será sempre inferior à temperatura durante o dia...).

Por outro lado - e mais importante ainda para a situação dos fogos -, as características desta onda de calor foram favoráveis para os bombeiros: as noites foram «tropicais», isto é, quentes, mas com elevada humidade relativa (dificultando a propagação do fogo). E melhor ainda: choveu copiosamente (alagando o solo e a molhando bastante a vegetação). Em algumas zonas do país (por exemplo, Bragança) em apenas dois dias choveu mais do dobro da média do mês de Julho. Mas as notícias na comunicação social omitiram isto (espero que por desconhecimento).

Em suma, as noites tropicais (que resultaram na onda de calor devida às temperaturas mínimas) foram uma das causas para que a primeira quinzena de Julho não tivesse sido muito incendiável. Ou seja, uma situação anormal de Verão mediterrânico que, neste caso, foi bom para que não houvesse incêndios catastróficos. Mas somente a isto se deveu; não à eficácia dos bombeiros...

7/20/2006

Dois exemplos de péssimo jornalismo

1 - Não houve uma alminha de caneta na mão ou de microfone em riste que tivesse a coragem de pedir ao ministro António Costa que esclarecesse o que significa «problemas de coordenação da acção no terreno» como uma das causas para a morte dos seis bombeiros na Guarda. E já agora perguntar-lhe se não acha que os «dois fenómenos relacionados com o comportamento do fogo», que também contribuíram para essa tragédia, são situações usuais em fogos florestais...

2 - Enquanto isso, a Lusa achou que merecia notícia «um incêndios que deflagrou às 15:59 na cidade de Lisboa, numa zona de mato junto à estrada da Torre, Lumiar», em Lisboa, e que foi extinto 14 minutos depois». Será que a agência Lusa - a mesma que não pediu esclarecimentos ao ministro António Costa sobre as responsabilidades na morte dos bombeiros da Guarda -, vai passar agora a noticiar todos os fogos de meia dúzia de metros quadrados que existem no país?
Os perigos da confiança

Embora de uma forma muito discreta, tornou-se evidente que a postura da comunicação social, sobretudo das televisões, perante os incêndios se modificou relativamente aos anos anteriores. Se nos anos anteriores, os incêndios eram catapultados para o «prime-time» dos noticiários, este ano as televisões têm sido bastante parcimoniosas. Não fiz nenhuma análise exaustiva, mas no fim-de-semana passado foi evidente uma nova postura: dois grandes incêndios (Viana do Castelo e Vale de Cambra) foram secundarizados (sem uso de imagens) e foram apresentadas reportagens sobre as brigadas helitransportadas da GNR e a vigilância dos Escuteiros. Paralelamente, a campanha de sensibilização do Governo/Forestis está em força, embora com mensagem inócuas, não fosse o lema dessa campanha inócua em sim mesma («verde ou cinzento, a escolha é sua...). No domingo em que morreram os bombeiros na Guarda foi por demais evidente a quase ostracisação a que foi votada esta tragédia por parte das televisões - na SIC e RTP foi até caso escandaloso.

É certo que, este ano, não têm ocorrido casos demasiado graves. Ainda. Nem seria de esperar, porque não é suposto termos muitos incêndios catastróficos nesta altura do ano, além de que as condições meteorológicas têm ajudado (ou seja, tem chovido de quando em vez). O grande problema é que, ao secundarizar-se em demasia alguns incêndios importantes, e dando um excessivo destaque às supostas melhorias no combate e na vigilância (que é mais aparente do que real, porque, por exemplo, o raio de acção das brigadas helitransportadas é muito limitado...), dá-se uma perigosa sensação de segurança. E é perigosa, por não ser real.

Uma coisa vos garanto, se houver duas semanas seguidas sem chuva em território nacional, o país começa a arder forte e feio à segunda semana. E tanto mais quanto maior for a sensação (enganadora) de que existe uma boa eficácia da vigilância e do combate.

Adenda: Na edição do Público de hoje, refere-se numa breve que arderam 400 hectares de uma zona de protecção prioritária do Parque Natural do Vale do Guadiana. Na comunicação social, quase não se deu por este incêndios. No ano passado, um fogo de menor dimensão na Tapada de Mafra fez aberturas de telejornal. Longe da vista, longe do coração...

7/19/2006

Parque Natural da Serra do Fogo

A pretexto da intenção do Instituto de Conservação da Natureza em reduzir em 12% a área do Parque Natural da Serra da Estrela, escrevi na edição de segunda-feira passada do Diário de Notícias, dois artigos, um dos quais não surge na Internet ( outro pode ser lido aqui). Por isso, opto por aqui o colocar, de modo a mostrar como os incêndios recorrentes naquela região acabam por empobrecer a paisagem natural daquela região.

No tempo dos romanos, chamaram-lhe Montes Herminius, em honra de Hermes – deus grego da eloquência, protector dos pastores, dos rebanhos e animais selvagens, mais tarde também do comércio. Agora dá pelo nome de Serra da Estrela. Mas dever-se-ia denominar Serra do Fogo. De facto, apesar de ser uma área protegida desde 1976, esta é uma das regiões de Portugal mais fustigada pelos incêndios. Mais de matos do que floresta, porque esta cada vez mais tem sido dizimada nas últimas duas décadas.

De acordo com dados do Instituto de Conservação da Natureza, desde 1992 as chamas já visitaram 58 mil hectares do Parque Natural da Serra da Estrela, ou seja, 58% do total. Somente nos últimos três anos foram mais de 20 mil hectares, cerca de cinco vezes o tamanho da cidade do Porto. Uma taxa de devastação impressionante, tendo em conta que, em igual período, no território português esse valor ronda os 22%, já de si um dos valores mais elevados à escala mundial. Esta situação não surpreende. Considerando os seis concelhos com território integrado nesta área protegida, o menos incendiável tem sido a Covilhã: desde 1990, as chamas afectaram uma área equivalente a 60% da sua superfície. Guarda, Celorico da Beira, Seia e Gouveia estão no lote dos 25 municípios portugueses mais queimados desde os anos 90.

Os dois últimos municípios – aqueles em que o Governo pretende retirar território à área protegida – são mesmo autênticas tochas. O município da Gouveia é o terceiro mais incendiável do país (ardeu, desde 1990, cerca de 107% da sua área), enquanto Seia ocupa a sétima posição (101%, desde 1990). O facto de a destruição ultrapassar os 100% do seu território em tão curto espaço de tempo, significa que as recorrências do fogo são bastante frequentes. Embora as causas dos incêndios sejam pouco estudadas, aparentemente a queima de matos por pastores, para renovação das pastagens, estão na origem da maioria das ignições.

O Ministério do Ambiente tem tentado relativizar o problema dos fogos nas áreas protegidas, considerando que existe capacidade de regeneração, mas esta torna-se impossível quando os incêndios se sucedem num curto espaço de tempo. Mesmo com a aprovação de um plano de minimização – e «de uma grande aposta em matéria de prevenção de incêndios», como adiantou à Lusa o director da maior área protegida do país, Fernando Matos –, ainda na semana passada arderam mais 600 hectares, no incêndio que causou a morte de seis bombeiros na Guarda.

Deste modo, não admira assim que até seja verdadeiro o argumento do director do Parque Natural da Serra da Estrela em apontar, como razão da desanexação de 12 mil hectares com estatuto de conservação, «a degradação e ausência de valores naturais assinaláveis» em algumas zonas desta área (pouco) protegida.

7/18/2006

De repente, a eficácia

Não existem fogos activos esta tarde. Hoje de manhã choveu em Portugal. Atenção que isto foi uma coincidência, dirá o Governo e o Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil: oficialmente, os fogos foram extintos, de repente, por causa da eficácia do combate...

Nota, agora a sério: Na verdade, esta situação apenas confirma a minha tese: no Verão apenas não arde quando chove...