8/11/2006

Previsões de aumento de eficácia

A eficácia dos bombeiros portugueses no combate aos incêndios florestais vai melhorar substancialmente a partir da próxima segunda-feira e poderá ser de 100% a meio da semana. De facto, segundo as previsões meteorológicas, as temperaturas a partir de domingo ficam abaixo dos 30 graus e pode haver períodos de chuva, em alguma regiões, na quinta e sexta-feira seguintes...

Claro que se as previsões meteorológicas falharem, também falharão as previsões sobre a melhoria da eficácia dos bombeiros.
Uma pergunta (im)pernitente II

Se o ministro da Administração Interna, António Costa, está a ir, neste momento (00h30) para a Aldeia da Serra (Redondo), será que o ministro do Ambiente, Nunes Correia, não deveria já ter ido ao Parque Nacional da Peneda-Gerês onde os fogos ardem há mais de dois dias?

8/10/2006

Os bitates do ajudante

O ministro da Administração Interna, António Costa, disse hoje que apenas se investigou 5% dos incêndios. Poucos para se tirar qualquer conclusão, tanto mais que oficialmente nem sequer existem dados sobre esta pequeníssima percentagem. Esta noite, o inenarrável secretário de Estado da Administração Interna, Ascenso Simões, veio culpar os foguetes das festas, mais o tempo seco e não sei bem mais o quê... Com base em quê?
«Opsss, fomos apanhados»

Numa reportagem em directo da SIC, por volta das 21h00 foi revelado que o incêndio da serra de Ossa estava bem activo, mas que ne aparecia no site do SNBPC. Recorde-se que este incêndio eclodiu no dia 7 e foi dado como extinto no dia seguinte. Já teve vários alegados reacendimentos e ainda hoje, por volta da 1 hora da manhã, estava «circunscrito» há mais de seis horas. Durante o dia, «desapareceu» do site, ou seja, era como se estivesse extinto. Não estava como a SIC bem mostrou. Passado poucos minutos desta denúncia televisiva, o incêndio «reapareceu» no site do SNBPC, mas identificado como sendo um novo incêndio na Contenda, no concelho do Redondo. Mas, na verdade, estamos perante o mesmo incêndio da serra de Osssa - daquele que jamais se consegue extinguir ao fim de mais de três dias. Eis como anda a eficácia dos bombeiros - deste modo, oficialmente não há incêndios de longa duração...

P.S. Novo acidente viário com bombeiros, desta vez na serra de Ossa. Iam cinco pessoas num auto-tanque com água em terreno íngreme. Num país decente, num auto-tanque só deve ir o condutor e os restantes bombeiros devem seguir em jipe. Mas em Portugal gasta-se o dinheiro todo em auto-tanques. Com isto, acho que se anda a ver se se arranjam uns quantos heróis... mortos!

P.P.S. Diz-se agora, nas notícias, que este incêndio na Contenda - e que está a implicar a evacuação da Aldeia da Serra, no Redondo. é distinto do da serra da Ossa de há uns dias. Até pode ser, mas só vendo, se não existe ligação física entre a área queimada destes alegados dois fogos distintos... e como não posso lá ir, obviamente que, perante a manipulação evidente, não coloco as mãos no fogo...
Pelas televisões

Este ano julgo que as televisões generalistas estão a fazer uma cobertura melhor sobre os incêndios florestais, sem exageros e demasiados histerismos. Tirando o fim-de-semana em que a RTP «decidiu» que os fogos não mereciam quase referência, a cobertura parece equilibrada em termos de tempo de abordagem. No entanto, continua-se a cometer os mesmos erros: não há análise, não se ouvem especialistas independentes (faz-se o vox populi, ouvem-se os bombeiros e as entidades oficiais... a moda agora é ouvir os governadores civis), não se procura saber por que ficam tantas vezes os aglomerados urbanos em perigo (estou à espera de um jornalista a perguntar às pessoas e aos autarcas se fizeram as limpezas previstas na lei) e, enfim, não se procura questionar a eficácia dos bombeiros (ontem, na SIC estava-se a dizer que o fogo na serra de Ossa se encontrava circunscrito e viam-se por detrás chamas incontroladas)...

Por outro lado, as televisões continuam a «mandar» jornalistas sem qualquer preparação espcífica para as tarefas de cobertura. Anteontem, um jornalista da SIC perguntou em directo ao comandante nacional de operações, Gil Martins, se o aumento do número de fogos entre Julho e Agosto se devia ao cansaço dos bombeiros... Claro que, no meio disto, nenhum jornalista se apercebeu que este ano estão a arder concelhos que nos anos anteriores pouco ardiam. E que só não ardem os concelhos que ardiam muito por terem sido dizimados nos anos anteriores.

Também se continua a «heroicizar» os bombeiros em situações que são de completa irresponsabilidade. Ontem, julgo que também na SIC, foi filmada uma situação que esteve em vias de dar em catástrofe. Numa zona de encosta, perto de Oliveira de Azeméis, junto a uma IC, vários bombeiros viram-se em palpos de aranha com o fogo a subir porque foram fazer não sei bem o quê (é impossível e perigoso atacar um fogo a meia encosta, ainda por cima sem qualquer material) e tinham ainda por cima uma vedação entre a zona de matos e a estrada. Dois ou três «viram» o fogo lamber-lhes o rabo. O jornalista da SIC, em voz off, elogiou a sua coragem. Confunde-se coragem com imprudência.

Por que não consigo dizer bem

Pede-me um leitor (vd. comentário do post anterior) que comece também apontar aspectos positivos quando abordo as questões dos fogos ou que aponte caminhos, de modo a que as minhas crítica sejam construtivas.

Confesso que a primeira tarefa - apontar aspectos positivos - se torna difícil de apontar e que em relação às correcções dos problemas, estas estão subjacentes às críticas: dever-se-ia fazer o contrário daquilo que o SNBPC está a fazer. Por exemplo, eu sinceramente acho que este ano, ao nível da informação ao público, através do site do SNBPC, tem aspectos que deveriam merecer elogios. E mereceriam se houvesse rigor: como já apontei, existem evidentes erros na identificação da localização das ignições e usa-se e abusa-se de terminologias de bombeirês (de que a classificação de fogo «circunscrito» é um paradigma).

Por outro lado, não vislumbro melhorias no combate nem na eficácia. Embora seja necessário ter mais dados estatísticos fiáveis, existem demasiados fogos com mais de 24 horas (alguns particularmente violentos e arrasadores, como o da serra de Ossa) e, mais grave ainda, incêndios relevantes em concelhos que anteriormente não eram incendiáveis. E isto é um aspecto gravíssimo, porque implica que os concelhos incendiáveis apenas não estão a arder devido à razia dos últimos três anos. Choca-me, aliás, que vários membros do Governo continuem a tentar tapar o sol com a peneira.

Em todo o caso, este espaço não é propriamente o mais adequado para expor longamente algumas sugestões de alterações (para isso escrevi o livro, que tem mais de 400 páginas), mas gostava de lembrar que no dia 12 de Julho coloquei aqui neste blog um dos capítulos do livro onde me debruço sobre a prioridades estratégicas no combate aos incêndios florestais, demasiado concentradas na protecção das casas em detrimento da floresta.
Yo no credo en brujas pero que las hay, las hay

Oh, diacho. Meia hora depois de ter colocado o anterior post, uma autêntica «renovação» do site do SNBPC fez desaparecer a esmagadora maioria dos tais fogos circunscritos há mais de 3 e 5 horas. Agora, de repente, estão cinco não circunscritos e quatro circunscritos. Um destes circunscritos - na serra de Ossa - começou no dia 7 e depois de um reacendimento ontem está agora circunscrito há seis horas!

8/09/2006

A manipulação «não circunscrita»

Julgo que este é o primeiro dia desta última semana em que existem mais incêndios activos a esta hora da noite (23h57): 19 , de acordo com o site do SNBPC. Claro que quem fizer uma consulta no dito site verificará que seis estão não circunscritos e que 13 estão circunscritos. A TSF, por exemplo, embalada nesta classificação, apenas noticia os seis não circunscritos, como se os outros não fossem importantes.

Porém - e isto começa a ser recorrente, revelando uma atitude claramente manipulatória do SNBPC -, todos os 13 incêndios dados como circunscritos encontram-se nesta classificação há mais de três horas. Oito destes estão circunscritos há mais de 5 horas!!! Ou seja, se continuam a arder durante tanto tempo significa tudo menos que estão circunscritos. E se aparecem circunscritos é apenas para relativizar uma situação que é bastante grave...

Outro dado preocupante refere-se à duração dos incêndios. Pela primeira vez, há incêndios que arriscam a chegar ao terceiro dia completo sem serem defintivamente extintos: em Valongo e na serra de Ossa.

8/08/2006

Os sinónimos

Em Penalva do Castelo, um incêndio iniciado às 11h14 de hoje. foi dado como circunscrito às 14h39, mas às 18h10 ainda está por apagar. O presidente da autarquia disse agora na TSF que ainda há uma frente de fogo com um quilómetro. O incêndio na serra de Ossa esteve mais de seis horas a arder. mas sempre com a classificação de circunscrito. Varios são os exemplos de fogos circunscritos que demoram como o «caraças» para se extinguirem; e alguns passam de novo para a fase de não circunscrito. O incêndio de Valongo é um dos casos: começou às 6h18 de ontem e já esteve circunscrito. Em suma, circunscrito e não circunscrito, em «bombeirês» são sinónimos.

P.S. Claro que esta estratégia é para comunicação social ver. Como por regra os jornalistas vão olhar para os não circunscritos, a situação aparenta ser menos grave. Por exemplo, no site do SNBPC consta uma lista de 15 incêndios, dos quais cinco circunscritos. 10 parece assim menos grave do que 15...
A desgraça dos galegos seria «boa» em Portugal

O Governo português irá, concerteza, «aproveitar-se» da «onda de incêndios» na vizinha Galiza para justificar a actual destruição em Portugal. Até irá, por certo, defender que nos estamos a portar melhor, dado que as notíciasque se vão transmitindo revelam a ocorrência de uma centena de incêndios activos, dos quais 60% não circunscritos.

Convém, porém, relativizar estes números. Para a situação «normal» da Galiza, está-se perante, de facto, casos anormais. Mas essa «anormalidade» não se compara à situação nacional. E por uma simples razão: o mais extenso fogo na Galiza, ocorrido no ano 2000 em Ourense, causou uma destruição de 2.850 hectares. Em Portugal, o maior incêndio devastou, em 2003, uma área contínua de 41 mil hectares.

Pelas notícias terão ardido, em toda a Galiza e durante os últimos dias, cerca de 5.000 hectares (os valores obviamente são muito provisórios). E por isso, numa região que, apesar de ter tido sempre muitos fogos, atingirem-se aqueles valores é sempre um motivo de alarme. Além disso, a existência de tantos fogos activos na Galiza também é enganador quando comparamos com Portugal. Embora na página do nosso SNBPC raramente tenha surgido mais de 20 incêndios activos por dia, é certo que esse número é muito superior durante o dia; apenas não surge elencado por durar menos de duas horas a ser extinto e/ou ter tido menos de coinco veículos a combater. Se no domingo tivemos, oficialmente, mais de 500 fogos, significa que, em algumas horas, terão estado activos mais de uma centena. Aliás, em muitos dias, só no distrito do Porto são contabilziados mais de uma centena de ignições! E ninguém parece ter ficado muito preocupado com isso, tanto assim que aquele distrito é o que menos investiga as causas dos fogpos (0,2% nos últimos cinco anos).

Em suma, quase tenho a certeza que, no final do ano, quando olharmos para a área ardida na Galiza e a compraramos com Norte Litoral de Portugal concluíremos que até gostaríamos de ter a «desgraça» dos galegos...
O significado de circunscrito

O incêndio que começou ontem à hora do almoço na serra da Ossa será apenas circunscrito quando já nada existir para arder. Por aquilo que conheço daquela serra alentejana (sobretudo eucalipto adultos e algumas manchas marginais de montado) e estando às 24 horas uma temperatura de 22,6 graus e uma brisa de sudoeste (uma humidade relativa de 51%, baixa para uma noite...), e face á violência e velocidade de propagação, o fogo ficará «circunscrito» (expressão que os bombeiros usarão, antes de, oficialmente, lhe derem a sentença de «extinto») amanhã de manhã. Mas nessa altura já a serra da Ossa foi «comida» até ao osso... e levando o tutano. E vai ser fogo de uns milhares de hectares.

P.S. Já agora, para quem não saiba, 1.000 hectares é uma área equivalente a um rectangulo de cerca cinco por dois quiómetros. Parece pouco, mas não é...
Apreciar o fogo - nova/velha forma de turismo rural

No incêndio em Valongo, o comandante dos bombeiros apelava na TSF para que as pessoas não andassem a cirandar, para «apreciar» (como ele disse) a área onde os bombeiros andavam a combater o fogo, porque só os estavam a estorvar nas operações. Este é um daqueles casos do nosso portugalzinho serôdio, mas que constitui sobretudo mais uma evidente falta de estrutura de protecção civil em Portugal: não se criam perímetros de segurança.
As estatísticas do SNBPC de trazer por casa

Segundo o SNBPC, este domingo foi o dia com maior número de incêndios desde 2003, com 546 incêndios florestais ou em zonas de mato. E segundo a mesma entidade, duplicou-se o número de fogos em relação ao mês passado. Este balanço não surghe por acaso: o SNPBC quer transmitir que mais incêndios, dá mais trabalho; mais trabalho «justifica» que os incêndios «descarrilem» por alegado excesso de trabalho.

Esta estratégia não é nova e há anos poder-se-ia ver notícias em que se relatava a existência de mil incêndios num só dia. Mas há um aspecto que deve merecer reflexão e desconfiança. A esmagadora maioria destes incêndios são, na verdade, inexistentes ou sem quase mobilização de recursos (vd. post «Já esperava esta deculpa...», de ontem). Mas há um pormenor que me leva a dupla desconfiança: o anterior valor mais elevado desde 2003 ocorreu em 20 de Agosto do ano passado, em que se registaram 545 ocorrências (dos quais 40% apenas nos distritos de Porto e Braga). Ou seja, no domingo passado bateu-se, de forma muito conveniente, o recorde por uma-1-uma ocorrência!!!

Quanto à duplicação de fogos, esta é outra engenhosa forma de ver as estatísticas. Julho foi húmido; não pode constituir qualquer termo de comparação, porque às tantas, assim, também se pode comparar Agosto com Janeiro. E em qualquer ano, durante o Verão, existe uma amplitude enorme ao longo dos dias. Por exemplo, em Agosto do ano passado, o valor máximo foi de 545 fogos, no dia 20, enquanto o valor mínimo registou-se no dia 10, com apenas 29 fogos. Por classe, nesse mês de Agosto houve seis dias com menos de 200 fogos cada e oito dias com mais de 400 fogos cada.

Estes dados são oficiais (Direcção-Geral dos Recursos Florestais) e também apresentam a área ardida por cada dia. Seria exaustivo referir aqui valores de área ardida por dia, mas garanto-vos que não existe qualquer correlação entre número de fogos e área ardida. Aliás, como refiro no livro Portugal: O Vermelho e o Negro, pegando nos dados oficiais e comparando os quinquénios 1996-2000 e 2001-2005 constata-se uma diminuição de 6% no número de ocorrências e um aumento de 120% na área ardida. Não se venha, por tudo isto, com a desculpa do número de fogos!

8/07/2006

Avaliação - dia III e IV

Estamos no quarto dia de verdadeiro tempo quente e seco e convenhamos que os sinais que indiciam um ano catastrófico (para mim, é tudo o que seja superior a 100 mil hectares) são já preocupantes. É certo que ainda - e repito, ainda - não temos fogos de vários dias (poucos têm ultrapassado as 24 horas), mas isso não surpreende e não é motivo para se dizer que há mais eficácia na acção dos bombeiros: um fogo de vários dias «necessita» de extensão florestal e, como se sabe, isso começa a rarear em Portugal. Se nos últimos três anos ardeu 900 mil hectares - grande parte devido à devastação de zonas contínuas -, claro que isso contribui muito para que não haja incêndios de vários dias. Mesmo assim já devemos contar com vários incêndios com mais de 1.000 hectares...

Mas, mais importante e preocupante, é constatar que as zonas que estão a ser mais flageladas actualmente nem sequer eram muito incendiáveis em anos anteriores. Ontem estive a ver que dos 12 concelhos que tinham à noite fogos activos, a esmagadora maioria ardeu relativamente pouco nos últimos 15 anos. Dé entre esses 12, temos 9 concelhos que nem sequer ocupam os 100 primeiros lugares na lista dos mais incendiáveis. O que significa isto? Significa que os concelhos mais incendiáveis não ardem porque pouco têm já para arder e que nem sequer se está a registar eficácia no combate nos concelhos que nem costumavam arder.

Esta tarde, em relação aos seis concelhos que tinham fogos não circunscritos torna-se evidente que eram, teoricamente, pouco incendiáveis: relativamente à destruição pelo fogo desde 1990, Braga (ocupa o 123º lugar), Estremoz (272º), Almeida (58º), Valongo (61º), Ourém (63º), Paredes de Coura (41º) e Montalegre (101º). Ou seja, como se vê, o que anda a arder não era suposto estar a arder; e só não arde aquilo que era suposto arder porque foi dizimado em anos anteriores. Em suma, não vislumbro qualquer eficácia, pelo contrário há fortes sinais de preocupação. E isto infelizmente somente vai no início...

Nota 1 - A serra de Ossa vai ser dizimada em menos de um dia (previsão)

Nota 2 - Impressionante a quantidade de incêndios de alguma dimensão que tem estado a atingir o Parque Natural da Peneda-Gerês. Mas isso pouco importa - o que interessa, como se tem visto nos discursos oficiais e é a única preocupação da imprensa, é que não ardam casas. Mesmo se essas casas nada fizeram em termos de limpezas em redor...
A informação pública

Hoje, a RTP viu-se obrigada a abordar os incêndios. A contra-gosto, é certo, porque não abriu o telejornal com esse tema, ao contrário dos outros canais. Mas vá lá, melhorou: falou dos incêndios que ainda estavam a lavrar e não apenas, como ontem, naqueles que já tinham sido extintos...
Já esperava esta desculpa...

Ao quarto dia, surge a desculpa do número excessivo de fogos em Portugal, pelo mão do SNBPC. É prática comum, nada recente, que quando existem grandes incêndios, este é o argumento principal. Há uns anos até se «chegou» aos mil incêndios num só dia. No meu livro apurei que 28% dos incêndios no ano passado não tinham causado mais do que 100 metros quadrados, havendo milhares de incêndios com 1, 2, 3, 4... etc., metros quadrados de área ardida. Por exemplo, só no concelho de Viseu terá «existido» mais de 100 fogos com 1-um-1 metro quadrado.

A questão do número de incêndios é uma falácia - e algo que é facilmente manipulável. Basta reparar que ontem, de entre os quase 550 fogos, nem 50 surgiram na página do SNBPC (que apenas inclui os fogos com mais de duas horas de duração ou com mais de 5 veículos). Ou seja, mais de 90% dos incêndios não deram quase nenhum trabalho.

Além disso, não terá sido por excesso de fogos que algumas regiões estão a ser flageladas. Veja-se o caso do incêndio que lavrou durante dois dias em Aguiar de Sousa, pertencente ao município de Paredes. Este é o concelho com maior número de ocorrências na última década: entre 1996 e 2005 registou-se, oficialmente, 8.186 fogos. Por pura sorte, nenhum tinha causado o desastre que se verificou este fim-de-semana. Algums vez o cântaro haveria de se quebrar; e não foi por excesso de fogos - o excesso, a existir, sempre se verificou...

8/06/2006

O frete televisivo

No Portugal da RTP - empresa pública de televisão -, hoje não houve fogos em Portugal. E os que houve ficaram remetidos para as calendas do alinhamento e apenas os que foram extintos. Enquanto as outras televisões (SIC e TVI) deram o destaque merecido, com directos q.b., a RTP gastou 33 minutos do seu telejornal das 20 horas a abordar a guerra no Líbano (com pelo menos três directos com outros quantos jornalistas), a tensão no Irão, os problemas em Gaza, a doença de Fidel Castro, um acidente no Parque da Pena devido à queda de uma ramada de eucalipto (que causou uma morte). Depois em dois ou três minutos, a RTP apenas abordou dois incêndios, ambos circunscritos de manhã e, nessa altura, já extintos: na Póvoa do Varzim e em Paredes (Aguiar de Sousa). De resto, nem uma única palavra sobre a situação actual, designadamente a mais de uma dezena de incêndios que então estavam ainda não circunscritos. Eis um exemplo de serviço público que, sob critérios inconfessáveis, se confunde com serviço do Governo. Eu bem que temia que a introdução de critérios para a abordagem dos incêndios pela Direcção de Informação da RTP - de que falei há dias -, ia dar nisto...
A hora da verdade

E ao final do terceiro dia, o caos instalou-se. Só falta saber qual vai ser a desculpa do ministro António Costa para este desastre, embora tenha quase a certeza de que a culpa vai ser da «trindade meteorológica»: calor, humidade relativa e vento. E já agora gostava de saber se o primeiro-ministro José Sócrates vai telefonar «duas ou mais vezes» para saber se valerá a pena interromper as férias.
Um fogo como troféu

Quase 40 horas após o seu início, o incêndio em Aguiar de Sousa (Paredes) foi considerado extinto pelas 9h20 de hoje. Porém,às 13h30 ainda se encontra no site do SNBPC com a informação EXTINTO (assim mesmo em maísculas, enquanto os fogos não circunscritos e circunscritos aparecem em minúsculas). Curiosamente,somente os muito grandes incêndios têm direito a permanecer mais umas horas neste «painel».

Isto não é por acaso. O SNBPC apresenta a extinção deste fogo como um «troféu de caça», como se dissesse «fomos bem sucedidos, liquídamos o bastardo!». Não há pior erro: um fogo que dura 40 horas nunca é um caso de sucesso, mas sim de insucesso. Enquanto assim não considerarmos, continuamos a alimentar o heroicismo... ineficaz, é certo, mas sempre gostámos de actos heróicos, mesmo quando perdemos as batalhas.
Uma pergunta (im)pertinente

Qual será a razão por que um incêndio em Amarante que começou ontem às 14h40 tem, quase 12 horas depois, apenas 32 bombeiros e sete veículos a combatê-lo, enquanto que um em Cascais que surgiu perto da meia-noite teve «direito» a ser atacado por 75 bombeiros e 24 veículos? Não será por questões destas que o de Amarante lá vai lavrando e o de Cascais apagou-se em menos de uma hora?

P.S. Já agora, em ambos os casos, de acordo com o SNBPC, referem-se a fogos em matos. Mas até há fogos em floresta no interior que para chegar a haver 75 homens a combater demora-se três ou mais horas.
Mais um incêndio florestal que surge no meio de prédios

Olhem-me esta localização de um fogo, circunscrito em menos de uma hora, junto da barragem do Rio da Mula, no concelho de Cascais, de acordo com o site do SNBPC. Este tipo de disparates, que começam a ser recorrentes, por parte do SNBPC leva-me a crer que, no terreno, os bombeiros também laborem em função de informação desta calidade.
Avaliação - dia II

De forma nada surpreendente, o segundo dia de temperaturas elevadas e baixa humidade relativa foi pior do que o primeiro. Neste momento (00h15), ainda «sobreviveram», à passagem da meia-noite, 10 incêndios, dos quais sete não circunscritos (e os circunscritos,logo se verá se serão apagados tão depressa).

Existe aqui alguns dados preocupantes. O primeiro é a existência de três incêndios que avançam para a sua segunda noite (um em Torre de Moncorvo - que se encontra há horas como circunscrito e até já foi dadod por extinto -, outro em Arcos de Valdevez - que julgo que também já esteve considerado extinto - e o grande incêndio de Aguiar de Sousa, em Paredes, o maior de todos, que já chegou a ter mais de 500 bombeiros). Fui também verificando vários casos de reacendimentos, o que não sendo pouco habitual, apenas mostra que os rescaldos continuam a ser mal feitos - ou então contam-se vitórias antes do tempo.

Até agora as regiões mais massacradas têm sido as do Norte litoral (Porto, Braga e Viana do Castelo), embora um incêndio na Sertã tenha durado quase 24 horas com bastante estrago. Julgo que os incêndios em anos anteriores terão «ajudado». Os distritos de Coimbra e Viseu também têm registado alguns incêndios, mas até agora houve a sorte de nenhum deles ter «encontrado» áreas contínuas muito extensas.

Com as previsões para este domingo a apontar para uma situaçãometeorológica semelhante ao dos dois dias anteriores, prevejo aquilo que parece incontornável: incêndios. Afinal, apenas se está a confirmar que,em Portugal, o «sistema» é eficaz quando chove; medianamente eficaz quando as temperaturas baixas e ineficaz quando as temperaturas são elevadas. O problema é que no Verão as temperaturas costumam ser elevadas.

Nota 1 - Oiço o comandante distrital do Porto dizer na TSF que está esperançoso em circunscrever o fogo de Paredes durante a noite: «Pelo nosso trabalho, sim senhor», mas já se desculpa depois com a humidade e o vento.

Nota 2 - Toda a gente parece estar satisfeita por não arderem casas.

Nota 3 - Começa a ser uma irresponsabilidade a quantidade de acidentes rodoviários que envolvem bombeiros no combate aos incêndios.Um deles - em que um bombeiros caiu de um auto-tanque, presumindo-se que ia pendurado - é de uma irresponsabilidade intolerável. É também por este tipo de voluntarismo heróico que defendo a profissionalização dos bombeiros.

Nota 4 - Um técnico do Instituto de Meteorologia veio dizer que as temperaturas são normais para um Verão português. Que chatice para o Governo...

8/05/2006

Circunscrito por nada mais haver para arder

Esta tarde, pouco depois da hora de almoço, um incêndio em Paredes (não o que lavra desde ontem) obrigou ao fecho temporário de uma auto-estrada. Pouco tempo depois,o incêndio foi considerado circunscrito. Olhando para a localização do incêndio (ver aqui) e para as pequenas e fraccionadas manchas de vegetação compreende-se que o fogo não tinha muitas chances de continuar. O incêndio ficou circunscrito por eficácia dos bombeiros?

P.S. Aliás, na esmagadora maioria dos incêndios dos últimos dois dias - e ressalvando alguns evidentes erros de localização por parte do SNBPC e outros casos em que o pormenor das imagens do Google Earth não permitirem uma boa visualização do coberto vegetal - tem havido alguma sorte por as zonas envolventes das ignições não serem áreas florestais extensas. Em parte devido aos incêndios dos últimos anos. Uma das poucas excepções refere-se ao incêndio de Paredes, que se iniciou ontem em Aguiar de Sousa. Pelas imagens, infelizmente há muita «coisa» para arder...
Avaliação - dia I

À laia de «avaliação» deste primeiro dia em que as condições meteorológicas foram adversas, constato que todos os incêndios, com excepção óbvia dos que ainda evoluem, foram extintos em menos de 24 horas, o que pode considerar-se positivo, embora por regra, olhando os anos anteriores, a situação apenas se complica a partir do segundo ou terceiro dia consecutivo de temperaturas elevadas e humidade relativa baixa. Em todo o caso, o número de incêndios que surgiram no site do SNBPC foi superior ao dos dias anteriores, o que mostra que a capacidade da primeira intervenção terá piorado. Outro aspecto que merece relevância foi a maior rapidez de mobilização de meios (evidente no caso do incêndio de ontem em Mação). No entanto, continua a subsistir o problema crónico do combate aos incêndios em Portugal: a relação auto-tanques/bombeiros continua a ser, pro regra, de 1/3 a 1/4, o que significa que quase não existe intervenção sem uso de água.

Já agora, se este fogo, em Aguiar de Sousa (Paredes) começou mesmo aqui, pelas 17h30 de ontem, como foi possível que se tenha descontrolado, ao ponto de estar activo ainda esta madrugada e com a intervenção de mais de 160 bombeiros? Coloco a hipótese de a localização estar inexacta (como cada vez mais desconfio em relação ao «moderno» sistema do SNBPC), mas por isso mesmo seria bom que houvesse maior rigor e sobretudo uma avaliação dos métodos de combate usados pelos bombeiros, mesmo quando os fogos são rapidamente circunscritos.

8/04/2006

A novela mexicana

O Ministério do Ambiente isentou de estudo de impacte ambiental o renascido processo da co-incineração de Outão, alegando que o Instituto dos Resíduos também é dessa opinião. Eu sinceramente já me custa falar desta má «novela mexicana», mas detesto que haja quem nos queira fazer de parvos. Alguém acredita que o Instituto dos Resíduos e mesmo o ministro do Ambiente tivesse coragem de contrariar a obsessão de José Sócrates, agora que ele é primeiro-ministro?


O nobre despacho

Nobre Guedes, ex-ministro do Ambiente do Governo PSD/PP, veio afirmar que voltaria a assinar o despacho para autorizar o corte de sobreiros na herdade da Portucale, em Benavente. Obviamente tenho esperança de que ele não venha a ter nova oportunidade, mas que receio que, mais ano menos anos, haja outro «Nobre Guedes» a tentar nova autorização, ai isso vai...
A falácia dos meses excepcionais

O relatório apresentado ontem pela Direcção-Geral dos Recursos Florestais continua a insistir, implicitamente, no erro de atirar foguetes antes da festa. Mesmo tendo-se «esquecido» de meter pelo menos dois incêndios importantes (Vale de Cambra e Serpa), os cerca de 12 mil hectares ardidos até ao final do mês de Julho não se pode considerar como um «ano excepcional», como titula a imprensa por via dessas informações oficiais. O único facto «excepcional», a ter existido, foi o facto de o mês de Julho ter sido favorável por ter chovido.

Continuo a insistir que é um erro crasso fazer este tipo de comparações a meio do «jogo». porque todos os anos há meses calmos e meses infernais. Por exemplo, em 2003, Julho tinha sido calmo, Agosto infernal. Já em 2004, Julho ardeu bastante, em Agosto quase nada (ardeu cerca de 5 mil hectares, porque chouveu bastante...). E os exemplos poderiam ser mais.

Este final de semana por certo nos irá, infelizmente,fazer descer à terra. E mostrar que os problemas estruturais que existem há anos - e que não foram modificadas pelas operações de cosmética deste Governo - se mantêm.O rei vai nu e é pena que se continue sem abrir os olhos.



8/03/2006

Tragam um choque tecnológico, se fáxfavor!

Ontem já tinha mostrado a minha desconfiança sobre o rigor do site do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil em relação à identificação rigorosa do local das ignições. Hoje confirmei que, enfim, não se pode confiar. De facto, está a ocorrer agora (15h30) um incêndio florestal no concelho de Mação (aliás, o segundo município do país que mais ardeu desde 1990) e clicando na localização em mapa (ver aqui) verifica-se que começou no meio de uma estrada urbana no «coração» da vila, rodeado por prédios. Será que os GPS andam avariados? E se o sistema não é rigoroso será que não valia mais deixar de fornecer informação que, dando ares de tecnológica, afinal é anedótica?

8/02/2006

Olhar o fogo por cima

Este ano, o Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção arranjou um sistema de informação (consultável aqui) que, aparentando ser inovador, parece não ser assim tão bom quanto isso. Ou então mostra que os bombeiros não dão bem conta do recado em muitos casos. De facto, online, pode-se consultar a situação dos incêndios e clicando no mapa dá para ver a localização da ignição inicial.

Ora, isto é de enorme utilidade para uma avaliação do risco de cada incêndio. Mas também para prever a periculosidade do dito. Em muitos casos, sobretudo nos incêndios no litoral, verifica-se que as ignições nunca podem ser muito destrutivas em área, porque as manchas de vegetação são pequenas. Ou seja, o fogo até pode ficar circunscrito ao fim de um par de horas, mas na verdade já o estava desde o início. E apaga-se, em muitos casos, porque ardeu o pouco que podia arder.

Por outro lado, parece-me haver, noutros casos, alguns erros de precisão na localização ou então um falhanço rotundo dos bombeiros. O incêndio que está a decorrer neste momento (22h45) no concelho de Vila Verde é paradigmático. Se clicarem aqui (convem fazer zoom, usando a escala à esquerda) verificarão que o local identificado da ignição está numa zona de casas bastante delimitado por estradas e que em redor não exsiste grande manchas de vegetação que possam ser consumidas. Quando olhei para esta localização por volta das 17h00 não imaginava que viesse a ser um fogo para tantas horas. Por isso, das duas uma: ou o fogo não começou naquela zona ou então os bombeiros foram ineficazes nas primeiras fases do combate...
Despejar água para tapar o sol com a peneira

Tenho defendido que, nas actuais circunstâncias, Portugal tem necessidade de apostar mais no combate aos incêndios florestais. Mas «mais» significa «melhor», de forma mais eficaz e numa relação que pondere sempre os custos. Nos últimos anos, a «contabilidade» é deveras preocupante: Portugal gasta mais no combate e arde mais. Este ano, o Governo está claramente a mostrar que quer gastar mais ainda, mas isso não significa necessariamente gastar melhor. E obter melhores resultados em termos de área ardida.

Tenho acompanhado quase diariamente o site do SNBPC sobre os meios utilizados no combate aos incêndios. Como na maioria dos casos se consegue observar, através do Google Earth, as localizações dos focos de ignição (uma inovação que merece elogios), constata-se que em muitas situações o recurso a meios aéreos não faz sentido e apenas constutuem um gasto muito caro. O uso excessivo de meios aéreos acaba, aliás, por ser contraproducente. E porquê digo isto? Por duas razões: em alguns casos as manchas florestais em perigo são pouco extensas e mesmo que as coisas deêm para o torto, em muitas situações os danos nunca seriam elevados; por outro, dá a sensação de que os meios aéreos tudo resolvem.

Enquanto há poucos incêndios, esta estratégia até dá bons resultados em termos de área ardida, mas do ponto de vista económico é um desastre a prazo. Por exemplo, ontem um incêndio que começou às 18 horas numa freguesia de Castelo Branco teve um imediato ataque musculado: 59 bombeiros, 14 viaturas, três helicópteros e quatro aviões! Apagou-se em menos de uma hora! Sucesso? Não! Teria havido sucesso se o fogo tivesse sido extinto sem que sete aeronaves andassem a despejar água ininterruptamente num fogo nascente! Nenhum sistema é eficaz nem economicamente sustentável se necessitar de tantos meios aéreos para debelar um fogo no seu início, porque haverá muitos dias em que essa tão grande disponibilidade deixará de ser possível. Mas mesmo que fosse possível, no fim do ano pagaremos uma pesada factura. E ninguém nos garante que a área ardida seja menor: basta, aliás, olhar para a última década.