10/01/2008

Onde estava no dia em que recebeu a sua casinha?

À luz do escândalo Lisboagate - nu e lodoso retrato do burgo -, esta entrevista de Baptista-Bastos ao Jornal de Notícias no Verão do ano passado torna-se deliciosa, ironica e pungentemente deliciosa.

Primeiro, porque foi feita ao telefone a partir da sua casa de Constância - sim, aquela que ele comprou logo a seguir a «receber» a casinha da autarquia de Lisboa por razões económicas.

Segundo, porque mostra um Baptista-Bastos esquecido (ele que tentava obrigar sempre os seus entrevistados a relembrarem onde estavam antes do 25 de Abril) ou então ingrato. A páginas tantas, diz ele o seguinte: «Eu tenho três filhos formados e vi-me à nora para os licenciar. Tive que abdicar de muitas coisas. Ninguém nos ajudou». A não ser a câmara de Lisboa com uma casinha - coisa pouca, irrelevante, portanto...

Terceiro, porque mostra uma estranha forma de aplicar os ensinamentos dos mestres que se orgulha de ter conhecido. Disse ele, naquela entrevista a seguinte pérola: «Ainda ontem estive a terminar um texto sobre Aquilino Ribeiro. Eu conheci-o. Ele gostava muito de mim. Foi essa gente que formou o homem que eu sou. Gente que tinha o conceito da ética, da moral, da deontologia, e que a aplicava a todos os sistemas de vida».

Pela boca morre o peixe, portanto. E a aura de alguém que se colocava sempre num lugar de superioridade moral perante os outros. O que não era criticável, não fosse ter ele telhados de vidro sob a forma de casinha recebida por meios que, além de serem de duvidosa legalidade, são de certa imoralidade.

9/26/2008

Segurança, imigrantes e nascimentos

Leonel de Carvalho, secretário-geral do Gabinete Coordenador de Segurança, disse ontem que «se em cada cem imigrantes que entram em Portugal um for mau, é mais uma pessoa que pode desenvolver actividades criminosas no País».

Ora, seguindo este extraordinário raciocínio, eu direi então que «se em cada cem recém nascidos que 'entram' em Portugal um for mau, é mais uma pessoa que pode desenvolver actividades criminosas no País».

Donde se conclui que o melhor será, portanto, acabar com a emigração e com os nascimentos por razões de segurança.

9/24/2008

O acessório e o essencial

Ontem foi mais um dia de foguetório energético. O Governo aproveitou a «inauguração» de uns pequenos equipamentos de produção de energia maremotriz (que nem é o primeiro a nível mundial) para anunciar que Portugal quer um «cluster» para a energia das ondas. A coisa daria para rir não fosse o caso de a generalidade da comunicação social «embarcar» (o que nem é despropositado, estando o mar em cenário) nesta pura jogada de marketing político e de alguns negócios à mistura. De facto, se outras coisas mais não houvesse, estamos a falr de um «parque de ondas» com uma potência de 2,25 mega-watts (MW).

O «mega» enche o ouvido, mas em electricidade 2,25 MW são coisas ridículas. Significa, com base na potência total existente em Portugal, um aumento «extraordinário» de cerca de 0,015%!!! Ou seja, não aquece nem arrefece. Mas para quem lê e vê o foguetório do Governo em matérias que se relacionam com energias renováveis, desconhecendo isto, pensa que estão a vender lebre, quando na verdade nem gato é.

Significa isto que defendo a irrelevância deste projecto? Claro que não, mas assusta-me este embandeirar em arco e a pressa em anunciar a criação de «uma sociedade semelhante à Parque Expo que permita agilizar todos os processos de licenciamento, através de um regime de excepção», de modo a «garantir os pontos de ligação das futuras centrais à rede eléctrica nacional», cujos custos «serão posteriormente repassados para o consumidor final».

Ora, é aqui que há negócio na cotsa - moscambilha, em linguagem informal. Tal como há dois anos sucedeu com o famigerado parque fotovoltaico no Alentejo - e acontece, em larga medida, com a energia eólica - estas coisas do «cluster» acabam por trazer mais vantagens para os grupos económicos do que para os consumidores. Ou seja, o Governo abre os braços aos investidores para que desenvolvam os seus negócios mesmo que do ponto de vista económico não sejam compensadores, porque há sempre o consumidor a pagar a factura sob a forma de tarifas mais elevadas ou do pagamento das infra-estruturas de ligação à rede eléctrica.

Em suma, o crescimento da energia renovável em Portugal tem estado a ser sustentado pelo consumidor final, mas não deveria assim ser. Algo está desvirtuado quando os recursos endógenos (sobretudo vento e sol, e agora mar) se tornam mais caros para o consumidor do que os recursos exógenos (carvão, gás natural e fuel). E se assim sucede é porque este Governo quis ter um crescimento artificial e rápido (insustentável economica e socialmente), porque oferece (à custa do consumidor) demasiadas benesses aos investidores. É um pouco como aconteceu com a Campanha do Trigo do Estado Novo: cultivou-se onde se devia e onde não se devia, porque havia garantia de compra a preços apetecíveis. O resultado sabe-se: deu a curto prazo, foi desastroso a médio e longo prazo.


O actual panorama nas energias renováveis leva a que, actualmente, os investidores não precisam de ter dinheiro: basta-lhes ter crédito bancário e os ganhos pelas receitas inflacionadas (à custa dos consumidores, repita-se) permitem-lhes pagar os juros e amortizações e ficar ainda com um bom lucro. Quando um Governo, por pressão dos consumidores, terminar com a «mama», veremos muitos cemitérios de parques eólicos, pois só sobreviverão aqueles que, na verdade, têm sustentabilidade económica e ambiental. Mas quem sair, deixando esses cemitérios, fez um excelente negócio...

Mas poder-se-ia dar até o caso de isto ser um «custo» a pagar pela necessidade de aumentarmos a produção eléctrica por energias renováveis. Porém, os números acabam por mostrar que estamos ainda muito longe de sermos um paraíso nas energias renováveis, por muito que o Governo diga o contrário, Olhando para as estatísticas da REN até Agosto de 2008 temos a seguinte situação neste ano em termos de origens da electricidade consumida:

  • Renovável (hídrica, eólica e fotovoltaica) - 8.344 GWh - 24,9%
  • Térmica (centrais a gás, carvão, co-geração, etc.) - 18.790 GWh - 56,2%
  • Importação (proveniente sobretudo de centrais térmicas e nuclear) - 6.322 GWh - 18,9%

Em termos da proveniência (origem territorial) dos recursos temos então:

  • Recursos endógenos - 8.344 GWh – 24,9%
  • Recursos exógenos (importação de electricidade ou de combustíveis para a produção de electricidade) – 25.112 GWh – 75,1%

Donde resulta que apenas um quarto da electricidade que consumimos este ano é proveniente de recursos renováveis e endógenos – o que, convenhamos, está longe do paraíso «construído» por este Governo.*

Poderia escalpelizar ainda mais outros aspectos. Mas fico apenas por mais este: se compararmos os primeiros oitos meses de 2008 com período homólogo de 2007, verificaremos que em termos absolutos as centrais térmicas nacionais registam um acréscimo de 4% na produção, o que indicia que talvez pouco se alterou em termos de emissões de dióxido de carbono devida à produção de electricidade**.


* - Este valor será, obviamente, corrigido pelo Governo no âmbito daquilo que está estabelecido nos diplomas comunitários, porque haverá depois uma correcção feita com base no coeficiente de hidraulicidade, que mede se um ano é seco ou húmido. Como este ano civil está a ser mais seco do que o normal, haverá uma correcção para cima (sempre artificial, portanto). Por isso, não se admirem se o Governo vier, no final do ano, anunciar que produzimos mais de 50% da electricidade por via renovável não acreditem. A realidade é, por uma directiva comunitária, susceptível de ser deturpada.

** - É provável até que tenha ocorrido uma ligeira diminuição das emissões, mesmo se aumentou a produção eléctrica por via térmica, pois noto, na página da REN, que as centrais térmicas do Carregado e da Tapada do Outeiro (a gás natural) produziram em 2008 muito mais do que as centrais de Sines e do Pego (a carvão), ao contrário do sucedido em 2007. As centrais a gás natural emitem, por GWh, um pouco menos que as de carvão, por isso, admito que terá até ocorrido uma ligeira diminuição, embora não retire aquilo que é um paradoxo nacional: grande aposta nas renováveis mas sem impacte nas produção por via de energias não renováveis.

9/15/2008

Sem lei nem roque

Sobre a novela da co-incineração (já vão 12 anos que foi anunciada como solução), eu já perdi a conta às providências cautelares que entram nos tribunais, que são aceites, depois surgem decisões contrárias, recursos e eu sei lá que mais. Esta é mais uma.

Enfim, isto já nada tem de ambiental: é apenas uma evidência de que o sistema judicial, sendo feito por homens, temperado por humores diversos, não consegue decidir quem tem razão e entretem-se num jogo de bola. Alguém tem prognósticos sobre o resultado final?

A Mão Esquerda de Deus

Está feito e entregue. Sai dentro de momentos (uns poucos meses...).

Trata-se de mais um romance histórico, sobre os primórdios do Santo Ofício em Portugal no século XVI, mas pegando numa suposta fábula (considerada verídica durante séculos) sobre o primeiro inquisidor, um falsário andaluz...

Darei, em breve, mais novidades.

Atapetem o país

Coisas como esta fazem com que cada vez menos me apeteça escrever sobre o país.

9/09/2008

Dupond & Dupont

Eu juraria que, ideologicamente falando e na prática verificando, que eles eram todos iguais. Mas afinal, na apresentação da Fundação Res Pública, fiquei a saber que o Partido Socialista é constituído pela «esquerda democrática, o trabalhismo e a democracia liberal» de Augusto Santos Silva, pela «esquerda moderna, o socialismo e a social-democracia» e «pelo centro-esquerda» de José Sócrates.

Eu nem sei o que significa cada uma destas vertentes do socialismo, mas que o conjunto e a mistura disto tudo não está a ser coisa boa, lá isso não está.

9/06/2008

À espera de um milagre

Sexta-feira, noite e primeiras chuvas - eis os ingredientes para mais uma descarga de suiniculturas na ribeira dos Milagres, afluente do Lis. Coisa tão óbvia que até me surpreende que seja ainda notícia na comunicação social. A não ser que o critério para ser notícia seja a falta de vergonha do Ministério do Ambiente. Bom fim-de-semana, portanto, senhor ministro do Ambiente, que os seus sonhos lhe mostrem um país impoluto, já que a realidade continua a ser bem diferente...

8/25/2008

Lá caiu mais um argumento

Coleccionando gaffes e tiradas desastrosas sempre que fala de aeroportos, o ministro das Obras Públicas veio, na semana passada, a pretexto do acidente no aeroporto de Barajas em Madrid, argumentar que tinha sido também para evitar maiores estragos em Lisboa, no caso de acidente aéreo, que o novo aeroporto ia para Alcochete.

Ora, ficando Barajas a 12 quilómetros de Madrid, e Alcochete a 30 quilómetros de Lisboa, parece que a razão estaria do lado de Mário Lino. Porém, azar dos azares, quando cai um avião nem sempre sucede logo nas imediações do aeroporto. Este de hoje, por exemplo, caiu exactamente a 30 quilómetros do aeroporto. Ou seja, se um acidente similiar suceder com um avião que descole do futuro aeroporto de Alcochete, então cairá... em Lisboa.

8/19/2008

Saudades dos anos 90

Surge a notícia que a EDP suspendeu os estudos arqueológicos da barragem do Sabor, alegadamente para não atrasar o projecto e, portanto, apresentar as coisas como facto consumado. Que uma empresa privada faça isto, compreende-se - ninguém, a não ser o mercado a obriga a ter uma postura ética nem há padrões para isso.

Grave sim, é a postura do Governo, ainda mais, neste caso, de um Governo socialista. Quem tem memória, sabe que a barragem do Sabor é a alternativa à barragem de Foz Côa, suspensa logo a seguir à vitória do primeiro Governo de António Guterres, cujo secretário de Estado-adjunto do Ambiente era José Sócrates. Ora, Foz Côa foi suspenso por razões arqueológicas. E sabia-se já, nessa altura, que na zona do Sabor era provável possuir também riqueza arqueológica, além de uma maior riqueza ambiental.

Pois bem, já este Governo socialista, liderado por um antigo ministro do Ambiente, fez tábua rasa das questões ambientais e prepara-se para assobiar para o ar em relação à preservação arqueológica. Estamos na fase do vale-tudo, portanto.

8/07/2008

Até agora, tudo bem

A entrar na segunda semana de Agosto, o país não anda a arder. A prova de fogo, de que falava há umas semanas, está a ser ultrapassada com sucesso. No entanto, convém destacar dois aspectos essenciais para este sucesso e nem se refere à questão meteorológica.

Por um lado, as ignições estão anormalmente baixas. Raros têm sido os dias com mais de 100 ignições, mesmo em dias de algum calor, o que pode induzir a que se conclua estarem os portugueses, felizmente, a portarem-se bem, não cometendo actividades de risco. De facto, em anos anteriores, era quase incontornável que, em dias como os da última semana, tivessemos mais de 200 ou até mais de 300 ignições - embora, algumas fictícias.

Por outro, perante o reduzido número de ignições, o excessivo número de meios aéreos conseguem atenuar as deficiências do combate - que não muda de um ano para o outro - e a má gestão dos espaços florestais. Com efeito, ainda hoje, num incêndio em Oleiro - extinto em poucas horas - estiveram em acção 12-doze-12 meios aéreos (sete helicópteros e cinco aviões). Uma coisa inusitada, bastante onerosa e que poderá, aliás, ter um perigo subjacente. Tanto aptetrecho não é possível de usar se houver mais ignições e constitui um «convite» aquela pequena franja de pirómanos que gostam de ver as aeronaves a laborar. E, de facto, olhar 12-doze-12 aviões e helicópteros a deitar água num fogo deve ser um espectáculo lindo de se ver... mas não é a solução para proteger a floresta.

As saudades do Santo Ofício


Enojado que ando do jornalismo, eis aqui mais uma pérola em volta do incontornável caso Maddie. Titula o Jornal de Notícias de ontem (dia 6): «McCann perderam oportunidade de provar a inocência», com subtítulo «Ministério Público acusa casal de ter inviabilizado reconstituição da noite do desaparecimento de Maddie».

Nos tempos da Inquisição, também era assim: tinha de se provar a inocência e qualquer negação à vontade dos juizes do Santo Ofício era vista como forma de esconder a verdade, ou seja, em assumir a culpa. O problema está sobretudo que, por um lado, nem me parece que o Ministério Público tenha acusado o casal de coisa alguma - quanto muito poderá ter lamentado que não tenham colaborado, sendo este um direito que lhe assistia e nem deveria merecer censura, em si mesmo. E, por outro, mais grave, os jornalistas continuam candida e irreponsavelmente a especular.

Se é certo que a história do desaparecimento da menina está mal contada, isto não deveria significar que os jornalistas tivessem o direito de apostar numa história que, por agora, não poderão saber se está a ser bem contada.

7/15/2008

Vem aí a prova de fogo

A verdadeira prova de fogo vai começar. Pela primeira vez, desde 2005, tivemos um período de duas semanas sem praticamente chover a que se sucede previsões de pelo menos uma semana inteira bem seca com temperaturas acima dos 30 graus em grande parte do território. Não se queixem com o tempo se as coisas correrem mal. Afinal, este é o típico Verão mediterrânico. Os Verões de 2006 e 2007 não o foram.

7/01/2008

Proibido dizer asneiras

Uma pessoa ouve o primeiro-ministro em loas à aposta portuguesa nas energias renováveis - leia-se construir barragens e parques eólicos - e depois sabe da multa da Junta de Freguesia da Ericeira por fabricar biodiesel para uso próprio ou então lê que em Aveiro um autocarro eléctrico de turismo não pode andar na via pública por falta da transposição de uma directiva comunitária (vd. aqui) e apetece-lhe, enfim, usar linguagem vernácula.

A derradeira machadada

Durante quase uma década Portugal teve oportunidade de controlar a praga do nemátodo que atingiu, inicialmente, apenas a penísnula de Setúbal. A gravidade da situação de uma doença de rápida propagação e grau de letalidade aconselhava medidas de fundo, que passava não apenas por restringir ao máximo a saída de madeira de pinho da zona afectada como uma intervenção radical (corte completo das árvores) para evitar a todo o custo que se propagasse para o «coração» do pinhal português na zona centro.
Porém, andou-se a brincar com o fogo. As medidas foram sendo tomadas a conta-gotas, corta aqui, corta ali, aumenta área de perímetro de segurança para ali, agora para ali, até se chegar ao estado actual de se encontrarem já vários focos de infecção na zona centro a cerca de duas centenas de quilómetros da zona inicial. Falhou-se e falhou-se rotundamente. Não haverá, obviamente, responsáveis.
Mas preparem-se todos para o fim económico do pinhal português. Será lento mas será pior do que os incêndios. E quem julgar que estou a exagerar visite então a zona litoral na envolvento de Pinheiro da Cruz para constatar em que estado ficam os pinhais.

6/30/2008

O que é um ambientalista?

Um elemento do Grupo EDP disse hoje, na presença do primeiro-ministro e da comunicação social (vd. aqui), que a construção da barragem do Sabor «até tem ambientalistas a trabalhar no projecto». Eu, por acaso, tinha uma certa curiosidade de saber quem são esses ditos ambientalistas. Não para os criticar, mas para ficar a conhecer que critérios se têm de cumprir para se ser considerado ambientalista....

Nota: Digo isto porque se ambientalista alguma vez fui, deixei de o ser imediatamente a seguir a abandonar cargos de direcção de associações ambientalistas. Ou seja, há 10 anos.

6/29/2008

Primeiros sinais

A procissão ainda nem sequer saiu do adro, mas apeteceu-lhe olhar já para os números da Fase Alfa e Bravo não para comparar áreas ardidas - nem faz qualquer sentido antes da época verdadeiramente estival - mas sim para confrontar índices de eficácia. Este sim, é um indicador importante tanto mais que havendo poucas ignições por aqui se pode ver como se pode comportar o sistema de combate na época em que existem maiores necessidade. E mais ainda sabendo que o Governo apostou, supostamente, no sistema de primeira intervenção.

Um dos indicadores com que se pode aferir esta eficácia é aquilo que denomino «índice de eficácia da primeira intervenção», que mede a percentagem de ignições que são extintas antes de ulktrapassarem um hectare (ou seja, de se tornarem incêndios). Este índice é fundamental, porque se um foco não é logo controlado tem grande chances de atingir maiores proporções. Portanto, quanto mais elevado em percentagem for o valor, melhor é a eficácia.

Ora, usando os valores disponíveis, os primeiros sinais deste ano não me parecem muito bons. Até Maio tivemos cerca de três mil ignições (valores semelhantes aos anos de 2003, 2004 e 2006, ligeiramente mais altos que 2007 e muito mais baixos que 2005). E por ano, para períodos homólogos, temos os seguintes índices de eficácia de primeira intervenção:

2008 - 73%
2007 - 85%
2006 - 82%
2005 - 75%
2004 - 77%
2003 - 79%

Ou seja, o presente ano está a apresentar os piores valores deste ano. Claro que é prematuro tirar ilações sobre a eficácia da fase Charlie, mas parece-me que existe aqui um motivo de preocupação, porque este indicador pode ser crucial em situações de grande seca estival e com um aumento do número diário de ignições.

Não se julgue que isto são pormenores. Se um ano tiver 20 mil ignições - um valor «habitual» -, teremos então 5.400 incêndios, se o índice for de 73%, o que é imenso. Se o índice fosse de 85%, como no ano passado, então seria expectável termos 3.000 incêndios para o mesmo número de ignições. Portanto, temos uma diferença de 200 incêndios por cada ponto percentual. Dá assim para ver, com estes exemplos, a importância da primeira intervenção no saldo final de um ano de fogos florestais.

Nota: Sobre estes números, o relatório da DGRF nada diz. Continua apostada sobretudo em analisar área ardidas e condições meteorológicas...

6/26/2008

Não há almoços de borla

A compra deste quadro aqui ao lado, cujos pormenores são relatados no DN, soa-me a coisa muito esquisita. Ora, se entendo, o Estado português combina com uma pessoa não identificada a compra do quadro num leilão em França, mas com uma estranha condição: o Estado pode exercer um direito potestativo ao fim de um ano, comprando-o ao particular ao mesmo preço e, enquanto isso, o dito quadro fica exposto no Museu de Arte Antiga.


Ou seja, o Estado não tem, por agora, dinheiro - 230 mil euros, caramba! - e pede a um empresário que lhe empreste dinheiro, fica-lhe já com o quadro e «promete-lhe» que lhe paga este valor, sem juros, ao fim de um ano, e mesmo que esse proprietário se arrependa fica obrigado a vendê-lo. São condições leoninas, mas que temo tragam água no bico.

E isto porque me parece que o empresário não identificado não quis mesmo ficar com o quadro e fez apenas um favor ao Governo, como um amigo empresta dinheiro a outro amigo. Mas o primeiro amigo espera sempre que o segundo o apoie numa necessidade. E o Governo deveria evitar que se fique a pensar que pode compensar, noutras coisas, o dito empresário, sobretudo se este se mantiver no anonimato. E, além de tudo isto, fica sempre mal o Estado andar a mendigar uns trocos para a Cultura - e já nem é a primeira vez, nos últimos tempos.

6/25/2008

Neoliberalismo socialista e barragens

Vital Moreira, no Causa Nossa, no post Antologia do dislate político, passa um atestado de irresponsável e de demagogo a um comentador da SIC (que identica de direita... esta mania de se ser maníqueista) por criticar o plano das barragens hidroeléctricas.

Para isso, advoga este constitucionalista (e grande ideólogo da nova visão socialista do Governo) que, para além do seu «mérito intrínseco» e de baixarem a dependência energética do país, as barragens «são um excelente negócio para as finanças públicas, pois não só não custam um cêntimo aos contribuintes como ainda por cima rendem ao Estado muitos milhões de euros à cabeça, por cada concessão».

Passando por cima dos mérito intrínseco - Vital Moreira remete para a página do Governo -, convém dizer duas coisas:

a) a dependência energética somente marginalmente diminui com a produção hidroeléctrica, porque a electricidade apenas representa 20% da energia consumida no país e os consumos de electricidade têm estado a aumentar, pelo que não se tem verificado uma diminuição das importações de combustíveis fósseis. A dependência diminui-se consumindo menos - ou consumindo melhor, o que pode ser feito produzindo mais.

b)as barragens custam dinheiro aos contribuintes, ao contrário do que diz Vital Moreira - basta ver o que os sucessivos Governos têm gasto, e irão gastar, com os fenómenos de erosão costeira. E nem vale a pena referir outras questões ambientais, que também custam dinheiro aos contribuintes. Mas, além disso, as barragens custam aos consumidores de electricidade. Ou será que a electricidade produzida por essas barragens será de borla? Não pagarão os consumidores, através da tarifa, os investimentos as empresas promotoras das barragens?

c)sobre o rendimento do Estado das concessões, é uma visão, no mínimo, neoliberal. Ou seja, tudo é bom para o Estado se com isso ganhar dinheiro. Na mesma linha, os famigerados PIN também são bons porque são bons para o Estado.

6/24/2008

Hoje estou corrosivo

O Governo anunciou anteontem que está a elaborar uma Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas. Leia-se: vamos fazer que fazemos, aplicaremos mais uns impostos e continuaremos a construir estradas que a crise do petróleo há-de um dia acabar.

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Se não chover até meio da próxima semana, a partir daí começam os incêndios florestais a valer...

5/23/2008

E agora, amigo, a quem eu vou roubar livros?

Nos últimos anos, nas minhas visitas esporádicas à redacção da Grande Reportagem e, mais recentemente, da NS, eu tinha um hábito: acercava-me da sua secretária e perguntava-lhe: «Torcato, que livros posso levar?». E ele, com o seu olhar profundo, aquela barba e cabelo comprido imaculadamente brancos, parecendo-me sempre um daqueles deuses do Olimpo, no seu vozeirão respondia-me, apontando para uma das pilhas: «Estes, não!». E eu, das outras pilhas, lhe pilhava tudo o que me interessava e cabia na minha mochila.

Assim o fiz, até há um mês, quando por lá passei. Mas se me recordo disto, mais ainda me recordo das conversas, discussões, com um homem cultíssimo, bon vivant (demasiado, talvez, mas que importa isso agora), befiquista (o que importa muito), bom conversador, que adorava a polémica pelo gosto de polemicar sem rancor (o que importa muitíssimo), das conversas no Bar Inglês ou num qualquer café.

Agora, Torcato, que partiste assim tão de repente, responde-me: «A quem vou agora perguntar: que livros posso levar?». Caramba, é que tinha vontade de levar mais uns quantos, para te continuar a ouvir dizer: «Estes, não!».

5/16/2008

Imagens de marca

A Estradas de Portugal meteu dois dirigentes da Quercus em tribunal porque, numa manifestação contra o traçado de uma estrada, ter-se-á usado cartazes com a frase “Estragos de Portugal – Entidade Prevaricadora do Estado”. A Estradas de Portugal considerou que tal situação lhes causou danos altamente lesivos no nome e imagem.

Acho muito bem. A Estradas de Portugal, a empresa que tem muitas das nossas estradas esburacadas, a empresa que, sob outra designação, tem um historial de cambalachos, a empresa que gastava milionariamente em carros e «gasosa» (cf. denúncia do actual presidente) e que deixou cair a ponte de Entre-os-Rios em 2001, tem obviamente direito a não ver lesado o seu nome e imagem.

5/15/2008

Campanha parola

A ideia do Grupo BES de criar um cartão de sócio da Selecção Nacional passa das marcas. Eu por comodismo, até aguentei manter-me como seu cliente (minorca, é certo) mesmo com as atrocidades ambientais que têm cometido. Mas esta de gastar, nesta ideia parva, 1,25 milhões de euros dos lucros que os seus clientes lhes dão, passa das marcas.

4/28/2008

A multa mais estúpida do Mundo

Eu não sigo o coro de críticas que, por tudo e por nada, surgem à ASAE. Mas, convenhamos, atinge-se o cume da estupidez e da cegueira multar em sete mil euros a Junta de Freguesia da Ericeira por usar óleos reciclados nos camiões de recolha de lixo apenas porque é impossível legalizar a produção de biodiesel por estar (o que é também estúpido) esgotada a quota definida pelo Governo (vd. aqui notícia do Público)

4/17/2008

Ideias obtusas

O presidente da autarquia de Lisboa, António Costa, lançou a ideia de desafectar a Gare de Santa Apolónia por causa da remodelação da Gare do Oriente por via do projecto do TGV. Só mais adiante, na notícia do Público, qual a verdadeira vantagem que António Costa vê numa coisa destas: «a libertação do canal ferroviário de Santa Apolónia é grande oportunidade para sanear finanças das empresas ferroviárias [Refer] e dar um uso eficiente ao edifício da actual estação».

Ora aí está: o Estado gasta montanhas de dinheiro para finalmente ter os sistmas de transporte ao centro de Lisboa ligadas por metropolitano (Cais do Sodré, Rossio, Terreiro do Paço e Santa Apolónia), tem todo o interesse que a os comboios da Linha do Norte e os regionais cheguem a Santa Apolónia (que é muito mais central, sobretudo agora com o metropolitano) e depois vai de se desactivar o canal ferroviário de Santa Apolónia só porque assim se libertam terrenos - para mais construção claro - e sanear as finanças da Refer. Saneam-se as finanças, urbaniza-se mais e borrifa-se na qualidade e na eficiência dos transportes públicos. Genial, meu caro Costa!

4/15/2008

A nossa dor ou a dos anunciantes do Diário Económico?

Hoje, no Diário Económico, o director André Macedo, no seu editorial intitulado A Nossa Dor, zurze na ministra da Saúde por ela ter afirmado que a saúde não pode ser um negócio. Primeiro, o editorial começa mansamente a dizer que se recuou no encerramento das urgências do hospital de Anadia, substituindo-o previsivelmente por um serviço de atendimento permanente. Ora, é exactamente por a saúde não ser um negócio que isto acontece. Sou por acaso natural daquele concelho e basta olhar para um mapa para mostrar como é estratégico - para uma população ainda marcadamente rural com franjas industriais - ter um serviço de urgências exactamente a meio da distância entre Aveiro e Coimbra.

Mas do que André Macedo quis escrever - nomeando expressamente - foi sobre a decisão da ministra da Saúde de acabar com a mama das empresas de saúde que geriam os hospitais públicos (como o Amadora-Sintra) que, podendo dar lucro, não deve ser à custa dos contribuintes. Lucros, sim, mas sem os excessos que foram noticiados.

Como se desvirtuam notícias

Tenho andado com pouca disponibilidade para escrever no blog, pelo que as visitas têm vindo, naturalmente,a diminuir. Porém, ontem reparo que o número de visitantes disparou e, por curiosidade, fui ver de onde vinham. Pois bem, do novo site do Portugal Diário que, numa iniciativa de louvar começaram a destacar numa secção própria uma série de blogs seleccionados (pediram autorização por e-mail, o que também se deve destacar...).

Porém, e aqui é que a porca torce o rabo: a razão de tanta visita adveio de um simples post que escrevi há dias em que referia um estudo neo-zelandês que destacava a possibilidade da cerveja vir a aumentar por via do aquecimento global, uma vez que o a cevada terá as suas produções reduzidas. Eu tinha mesmo colocado o link da notícia saída na Folha Online.

Contudo, o Portugal Diário decidiu chamar a atenção dos seus visitantes ao meu blog colocando o título «Cerveja no Estrago da Nação», o que até tem a sua piada. Mas depois vem um diaparate na pequena frase que eles acrescentaram: «Estudo defende aumento da cerveja para salvar o clima».

Ou seja, agradeço-lhes a publicidade, mas pedia que tivessem mais cuidado no uso da informação.

4/10/2008

Cerveja e aquecimento global

Isto, sim! o aumento do preço da cerveja por causa do aquecimento global (é um estudo neo-zelandês), pode ser um bom contributo para as mudanças comportamentais...

4/01/2008

Uma idiotice bem pensante

Um tal de Henrique Raposo, que aparece agora como colunista do Expresso e é director da Atlântico - uma revista muito conceituada para uma certa elite de direita (qualquer que seja o significado disso) e de pessoas bem pensantes -, é senhor de prosa escorreita.

Neste artigo de opinião escreve ele, a pretexto do Minuto Verde da RTP, protagonizado pela Quercus, que aquilo é «uma espécie de Alcorão ambientalista» (não sei por que não há-de ser uma espécie de Bíblia, Tora, Talmud ou Guru Granth Sahib ambientalista, mas, pronto, o que está a dar é referir os muçulmanos para assim se dar uma piscadela de olho ao leitor, indicando-lhe o mal...).

Depois disto, Henrique Raposo decreta sentenças doutrinárias. Assim: «A Quercus ama o ambiente enquanto odeia a sociedade onde vive; ama a bicharada árctica enquanto despreza todos os meus hábitos. Querem o quê? Que deixe de tomar banho em nome da fraternidade que une homens e ursos? Lamento: entre o sacrossanto gelo do Árctico e a heresia ecologicamente incorrecta, escolho a segunda. Nunca um urso polar me pagou um copo pela Páscoa».

Tenho que confessar que o homem, este «opinion maker» (denominação para quem foi convidado para escrever artigos de opinião supostamente para formar a opinião pública a pensar melhor), sabe escrever e tem ideias muito concretas. Elogiá-lo é um dever, portanto. Por isso mesmo, como escreve bem, a sua composição é uma idiotice. Se estivesse mal escrito, era apenas uma parvoíce.