9/29/2007

Um Estado dentro do Estado?

Há cerca de uma década, a Administração do Porto de Lisboa (APL) tentou impôr um megalómano projecto de urbanização na faixa ribeirinha do Tejo, apenas não tendo avançado devido à contestação popular (isto é, de alguns grupos de cidadãos mais dinâmicos). Entretanto, apesar do chumbo deste projecto, a APL manteve a sua postura de tentar tudo fazer ao arrepio das populações e mesmo contra as posição da autarquia lisboeta, como fica patente no caso do terminal de cruzeiros em Santa Apolónia (que é mais do que isso, pois tem componente comercial e turística, ou seja, uma frente de betão de 30 metros).
Mas, independentemente desta subversão democrática, aquilo que mais me choca é que, com esta ou outra APL, nenhum Governo consegue impôr, como tutela, uma outra atitude, como se a APL fosse um Estado dentro do Estado. Ora, como isso não acontece (ou não é admissível que aconteça), tem de se concluir que é a tutela (Ministério das Obras Públicas) que cauciona e aprova este tipo de atitudes das gentes da APL. Donde, deveria ser o ministro a ser chamado à pedra, caso se mantenha o autismo. E sobretudo tem este Governo a obrigação de redefinir as competências da APL.

9/25/2007

E viva o betão

Se, como foi anunciado pela comunicação social, a autarquia de Lisboa se apresta para duplicar o Imposto Municipal sobre Imovéis (IMI) então pode concluir-se, sem margem para dúvidas, que é o betão que orienta as preocupações de António Costa. E, portanto, é de prever que ele também deseje ter muitas transacções com vendas de terrenos, com muita especulação, com casas de preço astronómico. Quanto mais ele desejar ter isso, menos pessoas passarão a viver em Lisboa. Mas isso é história que parece não interessar por agora. Como nunca interessou...

Propaganda & ignorância

Muito se tem falado na máquina propagandística do Governo. Mas daquilo que pouco se tem criticado é o contributo da comunicação social. E tem sido muita. Por vezes por se ver envolvida numa teia de promiscuidades, noutros casos por ignorância.

Ora, a ignorância é, na minha opinião, tão ou mais perigosa do que a promiscuidade. Porque se a promiscuidade pode a todo o tempo terminar, a ignorância é mais perene.

Isto a propósito da forma como a generalidade da comunicação social tem divulgado, irresponsavelmente por ignorância, as supostas maravilhas energéticas do Governo. E também sobre as (não) medidas de combate ao aquecimento global.

Ontem, como se sabe, José Sócrates foi discursar na Conferência de Alto Nível das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas. Ora, até se lhe desculpa que, por ser como presidente em exercício das União Europeia, dissertasse sobre maravilhosas que estão longe de ser nacionais.

Porém, mais grave é ter, mais tarde (e acredito numa daquelas conversas em tom informal, como ele bem sabe fazer), começa a debitar loas às medidas do Governo no que diz respeito às emissões de gases de efeito de estufa. Nesta notícia da Lusa, aqui transcrita pelo Público Online, Sócrates terá dito que Portugal assumiu já «metas mais ambiciosas do que as definidas dentro da União Europeia». Isto daria vontade para rir, se não fosse grave, porquanto é bem sabido que estamos muito longe de cumprir as metas previstas no protocolo de Quioto, que nos tinha concedido um regime de excepção dentro da União Europeia (ou seja, a UE deveria reduzir 8% as emissões no período 2008-12 em relação a 1990, enquanto Portugal poderia subir 27%).

Mas há mais. Sócrates disse também - e amorfamente o jornalista da Lusa divulgou, que «em matérias como as energias renováveis, Portugal está na linha da frente da Europa, tendo já 39 por cento da sua energia eléctrica com base renovável». Isso está longe de ser verdade - nem neste ano chuvoso tal acontecerá - e é bom salientar que a electricidade representa apenas 20% dos consumos energéticos, além de que gases de efeito de estufa têm ainda outras origens.

Em conclusão, os jornalistas (e os seus editores) deveriam ter a obrigação de ter um olhar mais crítico - e já agora saber qualquer coisinha antes de escreverem - sempre que o Governo fala sobre energia, ambiente e alterações climáticas. Caso contrário, ainda se pensa que Sócrates diz a verdade. O que, convenhamos, não foi o caso.

9/24/2007

Enfim...

Estou à espera que o Engenheiro José Sócrates crie a loja do cidadão de quinquagésima sétima geração com o balcão «Perdi a paciência»...

Suiniculturas, ASAE & Ambiente

Coloquei no Reportagens Ambientais a entrevista completa da minha autoria feita ao presidente da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), António Nunes, que saiu publicada na edição do passado sábado da Notícias Sábado (NS). Não é obviamente sobre ambiente, mas tem alguma squestões que abordam a intervenção da ASAE às suiniculturas que, como se sabe, nunca foram alvo de uma intervenção mais musculada (leia-se, legal) por parte da inspecção do Ministério do Ambiente.

Em baixo, está o trecho desa parte, onde se nota que o presidente da ASAE chutando para o canto denota uma diferença abisssal relativamente à inspecção ambiental...

Apesar actuação positiva da ASAE, independentemente das críticas que se possam fazer...

... poucas, poucas...

... fica-se com a sensação de ser caso único no país. Estou a recordar-se das suiniculturas. Durante anos, poluíram impunemente, sem que nada fosse feito pelo Ministério do Ambiente. E agora, a ASAE mandou encerrar algumas e deteve mesmo os proprietários, por razões de bem-estar animal e segurança alimentar. Por que razão a ASAE actua assim e as outras não?

Não faço ideia. Vai ter de fazer o favor de perguntar isso às 16 inspecções que existem no país (risos).

Mas se fosse inspector-geral do Ambiente já teria actuado para acabar com a poluição das suiniculturas?

Não conheço a legislação dos outros organismos, por isso tenho dificuldade em lhe responder. Alguma legislação de controlo ambiental tem prazos, se calhar demasiado alargados, para que as suiniculturas corrijam processos.

Pois, prazos que duram há décadas...

Terá de fazer uma entrevista, sobre essa matéria ao inspector-geral do Ambiente. No nosso caso, verificámos que as águas e as rações não estavam em condições e que o número de efectivos era excedido largamente. E como os proprietários não retiraram os animais a mais, detivemo-los cinco dias depois por crime de desobediência.

Isso parece-me aquele filme dos mafiosos que não se prendem por homicídios, mas sim por evasão fiscal...

Não sei o que é isso. A função da ASAE é fazer inspecções e cumprir a lei. Qualquer que seja o equipamento ou operador.

9/20/2007

A sorte de ser porco

Muitos talvez estejam ainda recordados das detenções de proprietários de suiniculturas há uma semanas devido a uma operação conjunta da Autoridade de Segurança Almentar e Económica (ASAE) e da Inspecção-Geral do Ambiente e do Ordenamento do Território (IGAOT). 

Esta semana, numa entrevista que fiz para a revista NS ao presidente da ASAE, tive oportunidade de esclarecer algumas coisas, entre as quais o papel da IGAOT. Pois bem, se a inspecção tivesse sido feita apenas pela IGAOT, nada teria acontecido aos suinicultores, donde se conclui que poluir vale menos do que o bem-estar animal que foi a razão primeira das detenções (ou seja, existia efectivo a mais, os proprietários foram detidos porque desobedeceram ao prazo de 5 dias dado pela ASAE para retirar os porcos em excesso...).

Mas um outro aspecto interessante (e que, infelizmente, por razões de espaço não será incluída na edição de sábado da NS) sobre a actividade da ASAE é que tem jurisdição sobre a qualidade da água usada em sistemas industriais e, também, nas suiniculturas e outras explorações pecuárias. Isto é, se houver problemas, a ASAE multa forte e feio (na entrevista o presidente da ASAE é peremptório ao dizer que não faz inspecções pedagógicas). Porém, por acordo feito a nível administrativo considerou-se que a fiscalização do abastecimento

doméstico de água continuaria no Instituto Regulador de Água 
e Resíduos (IRAR), que como se sabe nada faz para acabar com a pouca vergonha das contaminações em inúmeros sistemas de abastecimento, tendo uma atitude complacente com as autarquias.

Ora, este acordo para não ter a ASAE a fiscalizar a água potável (não há produto económico e questão de saúde pública mais comum na casa dos portugueses) traz água no bico. Eu, aliás, imagino as noites mal dormidas de muitos autarcas 
se em vez do cenourento IRAR  vissem a caceteira ASAE a fiscalizar a água que dão aos seus munícipes. Mas tem necessariamente que concluir que, em matéria de qualidade da água, os porcos devem estar mais descansados porque sabem que haverá bordoada se lhes for fornecida água de má qualidade.

9/09/2007

Jornalismo assassino

Cada vez me choca mais a forma como a quase generalidade dos órgãos de comunicação social abordam o triste caso da criança desaparecida no Algarve em Maio. Usa e abusa-se das fontes anónimas, das especulações mais torpes. Podem até as especulações se confirmarem como verídicas - mas são tantas que algumas serão, por certo, falsas. E, no final, muitos podem sentir-se lesados, sem culpa, dos atropelos às normas deontológicas dos jornalistas. Uma coisa sei eu: o papel do jornalismo não é este. Um caso que procurarei, no âmbito das minhas funções no Conselho Deontológico, que seja abordado.

Oxigénio para o moribundo interior

A medida do Governo de, através de incentivos fiscais, beneficiar as empresas do interior e aquelas que para aí se criem ou deslocalizem é, convenhamos, uma medida bastante positiva, embora com décadas de atraso e, sobretudo, acompanhada por um conjunto de medidas inversas. O interior está despovoado, de pessoas e de know-how, e com os atrasos e carências estruturais aí existentes, não se pode ter grande esperanças. Parece mais um balão de oxigénio a um moribundo, cujo seu estado débil de saúde se deveu muito às políticas deste e dos anteriores Governos.

A força do betão em Tróia

Coloquei no Reportagens Ambientais, a reportagem que foi publicada na revista Notícias Sábado do passado dia 1 de Setembro sobre os projectos imobiliários na Península de Tróia.

9/06/2007

Notas florestais

Os últimos dois Verões foram uma benesse dos Céus que, fazendo chover, nos deram um tempo-extra para passar a gerir melhor a floresta e a remodelar a forma de combate aos fogos florestais. No entanto, como arde pouco, vive-se na ilusão de que houve melhoria, como se a causa principal não fosse simplesmente a chuva. Na verdade, continua-se, no substancial, com os mesmíssimos problemas dos anos anteriores.

Se durante a próxima semana não chover, asseguro que vai arder um pedaço, sobretudo - ou apenas por isso - por não chover há mais de uma semana, o que tem sido coisa rara neste Verão.

Nota final em relação às declarações de um responsável da Autoridade Nacional de Protecção Civil, queixando-se de muitos incêndios nocturnos. Eu não tenho muitos elementos, mas parece-me claro ser normal que, num ano de muito poucos incêndios (por causa da meteorologia), a percentagem de incêndios nocturnos possa ser substancialmente mais elevada, por a sua origem ser, quase na totalidade, criminosa - e o criminoso «incentiva» sempre mais uma ignição do que alguém que provoca um fogo por negligência.

Porém, a ANPC não devia andar-se a queixar nem destacar esse aspecto. Dever-se-ia sim reforçar-se a vigilância nocturna. Falar por falar, apenas dá um sorriso de satisfação aos incendiários com insónias.

P.S. Nem de propósito, neste momento que escrevo está quatro fogos activos, todos com início após a meia noite, e todos a lavrar em mato. Não é preciso ser polícia para saber que estamos perante as «habituais» queimadas para pastoreio...

Lisboa com melhor cara,parece...

Duas boas medidas da autarquia de Lisboa durante a última semana. A primeira, de um alcance extraordinário para a implementação da democracia efectiva, refere-se à possibilidade da participação das populações ao nível de bairro na definição das prioridades de investimento na zona. A zona é a suspensão da actividade do campo de tiro de Monsanto até serem tomadas medidas de protecção do solo e do ruído. Neste último caso, finalmente o lobby dos atiradores alfacinhas - muito poderoso - teve de se vergar, depois de anos a fio.

9/02/2007

Monchique - um balanço depois do fogo

Coloquei no Reportagens Ambientais, uma reportagem da minha autoria publicada na revista NS do passado dia 25 de Agosto sobre Monchique quatro anos depois dos grandes incêndios. Dentro de dias, publicarei a reportagem sobre Tróia, que saiu na mesma revista no passado sábado.


A União Europeia já não é o que era...

Durante anos, a União Europeia esteve na vanguarda na conservação da natureza impondo um conjunto de legislação e de medidas activas. A obrigatoriedade de delimitar áreas de interesse ecológico com valor europeu - ZPEs e Rede Natura - foram assim o corolário dessa estratégia. Porém, depois de vários comissários de ambiente - e sobretudo de Margot Wallstrom - com um cunho mais nórdico, a actual Comissão Barroso tem dado mostras de fraca sensibilidade nestas questões.

Por isso, no caso português, começam a suceder-se os casos de empreendimentos em plena Rede Natura sem que coloquem, por parte da Comissão Europeia, quaisquer entraves, «exigindo» apenas medidas de minimização ambiental que, no caso português, são de duvidosa aplicabilidade e sucesso. Por agora, já contam duas barragens em Rede Natura (que implicam destruição pura e simples das áreas inundadas e afectação relevante em outras), sabendo-se que não eram projectos essenciais. No caso da barragem de Odelouca, no Algarve, a sua construção apenas permite caminhar-se ainda mais para o caos (até em termos de ordenamento) e no caso da barragem do Sabor pouca importância terá em termos de redução das emissões de dióxido de carbono, tanto mais que, tal como noutros projectos energéticos ditos ambientais, este também não vai implicar qualquer substituição de centrais térmicas.

8/28/2007

Breves apontamentos

Em quase duas semanas sem escrita, muita coisa se tem passado. Apenas uns breves apontamentos:

1 - A acção do Verde Eufémia acabou por ter efeitos contraproducentes para os opositores dos transgénicos. Não pelos métodos - que acarretam riscos, mas não comungo que seja ecoterrorismo, porque a Greenpeace, por exemplo, tem acções muito mais «violentas» e com efeitos relevantes - pela forma encenada como se realizou, mais ainda porque quis apoiar-se em demasia na comunicação social, saindo-lhes o tiro pela culatra. Além disso, como era um grupo maioritariamente de jovens, perdeu algum élan. Por outro lado, o modo cordato como foram tratados pela GNR - muito diferente da célebre acção de arranque de eucaliptos em Valpaços em 1989, em que houve uma carga policial violentíssima - também não os ajudou.

2 - Este Verão não poderia ser mais favorável para não existirem incêndios florestais. Conseguiu-se um período mais ameno do que o de 2006, pois praticamente não passa mais de uma semana sem haver chuva. Mesmo assim alguns incêndios no Alentejo mostram que esta região continua numa tendência bastante grave.

3 - Como em outros anos, um pequeno incêndio na Grande Lisboa vale mais do que um incêndio devastador no interior do país. Na semana passada, em Sintra, que queimou cerca de 200 hectares, teve honras de ter a presença de um governante. Folclore...

4 - Os recentes e calamitosos incêndios na Grécia são um sério aviso para Portugal, se é que precisávamos. Desde 2001, a área ardida naquele país não ultrapassava os 15 mil hectares por ano, em certa medida fruto de algumas medidas de reformulação no combate. Mas em circunstâncias particularmente gravosas do ponto de vista meteorológico, tudo arde se a gestão não for cuidada. Mas garanto que se tivéssemos incêndios em Portugal com ventos de 70 quilómetros por hora, o cenário seria idêntico - ou até pior.

5 - Fui fazer uma reportagem a Tróia para a NS, que sairá no próximo sábado. Um novo Algarve vai nascer no litoral de Grândola,não apenas por via dos projectos da Sonae, mas sobretudo por tudo o que está a ser projectado e a ser iniciado. Mais baixo, é certo, mas não muito diferente em termos de densidade de betão.

8/16/2007

Uma praia de selvagens

Publiquei aqui no Reportagens Ambientais uma pequena reportagem sobre a Praia do Amado, em pleno Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina: que poderia ser uma bela praia selvagem, mas que se transformou numa bela praia de selvagens. Por causa, enfim, do desleixo e da incúria do Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade.

Nota: Quem leu o artigo da NS do passado sábado, talvez se tenha apercebido de um irritante erro. Em algumas passagens, em vez de escrever Aljezur (concelho da praia) saiu Aljustrel (que fica no distrito de Beja e nem sequer tem praia). Acontece...

Porcos há muitos

No meio da sórdida porcalhice das suiniculturas de Leiria, finalmente uma boa notícia: dois «empresários» foram detidos por dseobediência às exigência da inspecção ambiental. É certo que deveriam antes ser detidos por andarem a emporcalhar este país, mas haver já uma medida que doe na pele de quem polui é um grande avanço. Insuficiente, mas positivo.

Bombeiros de betão

O novo Regime Jurídico das Associações Humanitárias de Bombeiros permitem que as organizações de bombeiros possam desenvolver outras actividades, nomeadamente de cariz económico, desde que apliquem as receitas no seu objectivo primordial: o seu corpo de bombeiros.

Como eu só vejo uma forma fácil de desenvolver actividades de cariz económico que seja fácil e que, dentro do contexto local em que os bombeiros são sempre muito acarinhados pelas autarquia, já imagino a quantidade de projectos imobiliários que vão começar a surgir um pouco por todo o lado, patrocinadas pelas associações de bombeiros. Vão ver se me engano...

8/09/2007

Festejemos ou esperemos?

Cinco mil hectares de área ardida até finais de Julho. Motivos para confraternizar? É, de facto, um valor muito, muito baixo, mas talvez ainda seja um pouco cedo: afinal, mais uma vez o São Pedro tem sido bondoso num Verão, com temperaturas amenas e chuva que vai caindo sem deixar que, até agora, decorressem duas semanas contínuas sem precipitação.

A CP no seu pior

Decididamente, a CP não tem jeito nenhum para gerir os caminhos de ferro em Portugal. No passado sábado, desejava ir de comboio para o Algarve. Seria, da minha parte, uma escolha ecológica, uma vez que para o serviço que me estava destinado tinha deslocação no Algarve e, de regresso para Lisboa, viria de boleia.

Porém, quando cheguei à estação de Entrecampos, às 10 da manhã, fui surpreendido com o facto de todos os lugares do Intercidades das 10:30 horas estarem esgotados desde as 7 horas da manhã. Na altura em que estava na fila, muitos foram os potenciais viajantes que bateram com o «nariz na porta».

A «coisa» não me transtornou em demasia - apenas perdi tempo -, pois optei por ir no meu carro particular, sendo que os gastos me serão ressarcidos.

Mas, porém, umas questões me assolam: será que a CP não consegue reforçar a oferta para um fim-de-semana de Agosto numa linha que quase não tem movimentação. Ou será que interessa aos senhores da CP não terem trabalho algum e inconfessadamente anseiam que todos os seus clientes fujam dos seus serviços?

Por mim, vos digo: começo a ficar farto da CP...

7/31/2007

Os PIN algarvios

Confesso que tenho andado com pouca disposição para escritas e mesmo para acompanhar a vida. Mas não poderia deixar de comentar a visita do primeiro-ministro José Sócrates ao Algarve para apresentar 10 projectos turísticos. Disse ele que muitos se arrastavam há anos e que com o regime dos Projectos de Interesse Nacional (PIN) se conseguiu desbloquear a burocracia.

Ora, por um lado, aquilo que o Governo lá foi apresentar com parangonas - e todos aqueles milhões de euros de investimento - não são apenas os tais hotéis de 5 e 6 estrelas, mas sim, sobretudo, a componente imobiliária para segunda habitação. Os hotéis são apenas meros adereços. Por outro lado, muitos daqueles projectos não estavam a arrastar-se na burocracia. Na verdade, grande parte tinha sido chumbado. E estariam enterrados, caso entretanto José Sócrates não tivesse desenterrado essa coisa inqualificável do ponto de vista social e ambiental que são os PIN.

Alentejo ardente

Enquanto escrevo, decorre há oito horas um incêndio em Mourão. Num Verão que tem sido muito muito ameno (com excepção dos últimos dias as temperaturas são relativamente moderadas e choveu, pelo menos, em três períodos distintos do mês de Julho), destaca-se porém os fogos de alguma dimensão no Alentejo. Esta situação, aliás, tem vindo a agravar-se ano após ano.

No ano passado, fiz um artigo para o Diário de Notícias sobre esta situação que, julgo, ser pertinente aqui recordar.

«O Alentejo arrisca tornar-se um inferno de chamas nos próximos anos, caso se mantenha a tendência de agravamento dos últimos cinco anos. O recente incêndio da serra de Ossa - que terá queimado mais de seis mil hectares - apenas veio confirmar que esta região, praticamente imune aos fogos até finais da década de 90, começa a figurar cada vez mais no mapa dos incêndios devastadores de Portugal.

Para já, os três distritos alentejanos (Portalegre, Évora e Beja) ainda estão longe de estar no topo dos mais incendiáveis do País, mas a evolução dos últimos anos é terrível. Com efeito, olhando para as estatísticas oficiais, o distrito de Portalegre sofreu um agravamento da taxa média anual de 2891% quando se compara o período 2000-2005 com a década de 90. Os distritos de Évora e Beja atingiram agravamentos de 617% e 866%, quando em termos nacionais o incremento foi de 264%, já em si um valor elevadíssimo.

Apesar de esta tenebrosa evolução estar ainda longe de colocar o Alentejo no topo das regiões mais incendiáveis do País, certo é que, de entre os 20 maiores incêndios do último quinquénio, seis iniciaram-se no Alentejo (v. quadro). O maior incêndio de sempre - em Nisa, que queimou 41 mil hectares - é algo assombroso a nível nacional e sobretudo regional, sabendo-se que antes de 2003 o pior ano neste distrito tinha sido 2001, com apenas 2461 hectares queimados.

Os outros dois distritos ainda não tiveram anos tão avassaladores, mas Beja já registou dois anos acima dos 10 mil hectares ardidos (em 2003 e 2005), quando o máximo nos anos 90 tinha rondado os dois mil hectares (em 1994). Em Évora, onde raramente ardiam mais de mil hectares nos anos 90, já arderam quase 10 mil hectares em 2003, valor que deverá ser ultrapassado este ano. Nos últimos anos, destacam-se na zona os incêndios em Almodôvar, Portel e Odemira, que devastaram milhares de hectares.

Do ponto de vista meteorológico, o Alentejo é potencialmente a zona mais susceptível aos incêndios em Portugal: temperaturas elevadas e humidade relativa baixa e praticamente sem chuva durante o Verão. No entanto, tem a seu favor a baixa incidência de fogos - somente 0,8% do total nacional -, para além de o coberto vegetal ser dominado por montados de sobro e azinho, que se tiverem uma boa gestão são quase imunes aos fogos, a que acresce uma menor densidade do arvoredo que dificulta a propagação do fogo.

Contudo, a repentina alteração na incidência de fogos destrutivos deve-se, exactamente, ao progressivo abandono rural e florestal, que permitiu criar matagais por entre o arvoredo, o que constitui autênticos "barris de pólvora". Essa situação, embora afectando mais os pinhais e eucaliptais desta região, começa também a evidenciar-se nas manchas de montado de sobro. Aliás, o sobreiro começa a ser uma espécie florestal ameaçada, dado que no último quinquénio cerca de 80 mil hectares já foram afectados pelas chamas, embora uma parte significativa tenha ocorrido nos distritos de Faro e Santarém.

No entanto, existem ainda outros motivos para que os incêndios no Alentejo sejam bastante destrutivos: esta região é das menos vigiadas por postos fixos e com a pior cobertura de corporações de bombeiros e brigadas de primeira intervenção. Por isso, não surpreende que no ano passado, dos 196 fogos nesta região, 15 chegaram a ultrapassar os 10 hectares. Uma taxa de quase 8%, cerca de quatro vezes superior à média nacional. Ora, quando um destes incêndios "sobrevive" e atinge uma área vegetal contínua e com tempo seco, acontecem as desgraças. E milhares de hectares de floresta ardem, como palha».
in Diário de Notícias, 14 de Agosto de 2006

7/26/2007

Depois queixem-se

A viagem de Grândola para Lisboa deveria ser feita a partir das 21:22 horas. Não foi: o comboio intercidades chegou mais de 40 minutos atrasado. A viagem custou 10,50 euros, um valor que me parece excessivo para menos de 150 quilómetros, mas pronto até se concede. O que já é inconcebível é que chegado a Lisboa, o comboio passa por Sete Rios e pára em Entrecampos. E aí fico a saber que já não há metropolitano disponível para ir para o centro da cidade, por via das obras que, durante seis meses (previsão) se desenrolam à noite naquela estação. Ou seja, se parasse em Sete Rios, os passageiros da CP teriam acesso a metropolitano. Mas os senhores da CP, Refer e Metropolitano não devem saber os respectivos números de telefone para combinar estas coisas.

Pior ainda é que, querendo reclamar - com uma sugestão - não consegui fazê-lo. Na estação de Entrecampos somente estavam dois funcionários de uma empresa de segurança. Funcionários da Refer e da CP nem vê-los, estava tudo fechado e, portanto, sem acesso ao livro de reclamações. Somente estava aberto o guichet da Fertagus (empresa privada), mas esses não eram chamados ao assunto. Resultado de tudo isto: arrelias e uma viagem que demoraria de carro cerca de uma hora e meia acabou por consumir cerca de três horas, já que tive de ir a pé até à estação de metro do Areeiro.

Os funcionários da empresa de segurança sugeriram-me que voltasse no dia seguinte para fazer a reclamação. Eu vou é ver se evito andar mais de comboio nestas circunstâncias, por muito que a minha consciência ambiental me critique.

7/24/2007

Os riscos das privatizações

Nos últimos anos, as privatizações em Portugal têm sobretudo funcionado para tapar buracos financeiros do Estado. Ora, não sendo contra as privatizações, julgo porém que devem ser feitas com um cuidadoso critério. E não estão a ser. Se existem alguns sectores da economia que podem e devem ser dinamizados pelos privados, sendo que o Estado deve apenas exercer o seu papel de regulador, mas exigente, noutros casos existe interesses estratégicos que deveriam ser salvaguardados para a esfera pública. O caso da água para consumo humano é um deles.

Com a anunciada privatização da holding Águas de Portugal - que integra a componente do saneamento (desde água até esgotos passando pelos resíduos) e muitos outras empresas de sectores ambientais -, o Governo dá de barato o uso e usufruto de um bem que deveria estar sempre na esfera pública, por razões que parecem óbvias. Mais ainda quando ainda existem atrasos significativos em algumas regiões relativamente ao abastecimento público de água e á drenagem e tratamento de esgotos urbanos, cujo financiamento poderia e deveria vir dos chorudos lucros da parte mais litoral dos investimentos daquela holding. Aliás, não se pode esperar que os privados que entrem no capital da Águas de Portugal estejam muito interessados em «esturrar» dinheiro em regiões cujos investimentos somente seriam aceitáveis se os preços dos serviços subissem a valores incomportáveis. Ou seja, o que vai acontecer em vastas regiões do país é a completa ausência de investimentos no futuro naqueles dois sectores.

Já em relação aos resíduos sólidos urbanos, começo a ser, cada vez mais, favorável às privatizações, pois se conseguiriam sinergias (por vezes, em alguns concelhos existem quatro entidades distintas a mexer nos lixos) e melhoraria a qualidade do serviço.Aliás, basta comparar Lisboa (um horror em termos de limpeza urbana e recolha de resíduos), cujos lixos são recolhidos pela autarquia, e alguns outros concelhos onde estão empresas privadas. Nestes casos, salvaguardar este sector para a esfera pública não faz sentido e, embora lamente, começo a ser apologista de que, aqui, o privado é melhor do que o público.

Nota: Gostaria de explanar melhor todas estas questões, mas por manifesta falta de tempo fica, por agora, este apontamento.

7/18/2007

Ambiente em imagens

Interessante, a iniciativa da Quercus de criar a Quercus TV, onde se encontram alguns vídeos da associação (sobretudo d'O Minuto Verde, transmitido na RTP) e de outras origens.

7/17/2007

Cruzes canhoto

O meu amigo Fernando Moital foi, na passada semana, visitar o Parque Natural da Ria Formosa. Ficou chocado, porque formosura havia pouca. Das várias fotos que registam a sua passagem por aquele antro natural, salvo seja, que aqui podem ser visualizadas, uma se destaca - e que em cima apresento -, tirada a uma parede do centro de interpretação ambiental.

Quando a olhei para a foto, recordei-me da descrição de um incêndio em 1750 no Hospital de Todos-os-Santos, em Lisboa. Então, muitos padres, em vez de tentarem arranjar água ou qualquer outro meio de extinção, usaram cruzes para afugentar as chamas. Logo pensei, portanto que aquele objecto que ali surge pendurado por debaixo da tabuleta «Uso Exclusivo Combate a Fogo» era um crucifixo que não deveria ser usado nunca em funções religiosas, mas sim no ataque aos incêndios. Depois, ele explicou-me: aquilo servia para prender um extintor, que não estava lá...

7/16/2007

O dedinho

O dedinho que me dizia que António Costa não ultrapassaria os 30% - contrariando todas as previsões das sondagens -, esteve certo. E como as coisas ficaram em termos de mandatos, parece-me quase impossível coligações. A única possível será Costa-Carmona, mas não me parece que o próprio PS queira aceitar essa hipótese, pois numa situação em que os escândalos urbanísticos aumentem - e esturriquem o agora vereador Carmona Rodrigues -, António Costa e o PS ficariam muito chamuscados.

7/14/2007

O pessoal quer é música

«'Live Earth' fez disparar queixas para o provedor» da RTP, de acordo com o Diário de Notícias, por causa da «conversa a mais e música a menos». Eu sou suspeito - porque participei na «conversa a mais». Talvez tenha existido (sobretudo no caso dos VIPs... e, felizmente, da zona onde estava no estúdio não os ouvia, além de estar entretido a falar com os meus entrevistados. Mas é pena que num dia em que também deveria ser de reflexão sobre o ambiente,as pessoas só se queixem de que houve música a menos.

7/13/2007

Lisboa a votos

As eleições de domingo em Lisboa podem trazer algumas surpresas. Embora pareça incontornável uma vitória de António Costa, tenho um dedinho que me diz que não deverá ultrapassar os 30% dos votos. E que, em relação aos outros candidatos, embora nenhum venha a ultrapassar os 20%, é muito difícil apostar na sequência. Isto, obviamente, é um palpite, mas tanto é como as próprias sondagens feitas pelas empresas - que, recorde-se, falharam redondamente em 1999 quando davam como certa uma vitória esmagadora de João Soares.

Independentemente disto, certo é que a autarquia manter-se-á ingovernável durante os próximos dois anos até às novas eleições. Um cenário de coligação parece-me muitíssimo pouco provável: Costa não pode coligar-se com Carmona, porque se queimaria; Roseta não aceitará juntar-se, porque tornaria irrelevante a sua candidatura, o que daria a entender ter sido uma birra contra o PS; de Negrão, nem valeria a pena falar, porque nunca o PSD aceitaria um Bloco Central em Lisboa; PCP não desejará apoiar um ex-ministro de um Governo que combate; e Sá Fernandes, com o Bloco de Esquerda, mesmo que quisesse (o que me surpreenderia), provavelmente não elegerá vereadores suficientes. Claro que esta situação de ingovernabilidade não desagradará muito a António Costa: poder-lhe-á ser mesmo útil, pois não se cansará, ao longo dos próximos anos, de se queixar de estar a oposição a fazer-lhe a vida negra, e que só com uma maioria absoluta conseguirá endireitar a Câmara. E assim, em 2009, conseguir algo que o PS nunca obteve sozinho: maioria na autarquia de Lisboa.

7/11/2007

Investigação com esmola

Uma das pessoas que entrevistei na RTP, no programa dedicado ao Live Earth, foi o director de departamento de energias renováveis do INETI. Enquanto não entrávamos no ar, fui falando com ele e perguntei-lhe que verba possuía o INETI para investigação neste sector (e ele falou-me em vários projectos muito interessantes...). Disse-me que 2,5 milhões de euros (cerca de 500 mil contos em moeda antiga), que teriam também de servir para os salários de aproximadamente 50 pessoas. Ou seja, não dá para nada. E depois fala o Governo em criar um cluster e coisas do género.

P.S. Infelizmente, muitas questões não puderam ser desenvolvidas nessas micro-entrevistas (da minha parte foram cerca de vinte, a que se juntaram outras tantas feitas pela jornalista Rita Saldanha). Fiz o melhor que podia... e sabia.

Um país de porcos

A inspecção feita pelos serviços do Ministério do Ambiente às suiniculturas é apenas fogo de vista. Fazem esta acção, bastante mediatizada, encerram uma ou outra exploração e vão hibernar durante mais uns anos. Como, aliás, tem acontecido ao longo dos anos. Se assim não fosse não se teria detectado 31 infracções ambientais em apenas oito suiniculturas inspeccionadas.