Esta notícia do Correio da Manhã é antológica. Um incendiário que supostamente bebe «sete litros de vinho tinto por dia», causou em Belas «um dos piores incêndios deste ano». Se o dito fogo em Belas queimou menos de 1% do maior em fogo deste ano (Sabugal), este exagero do jornalista (a somar ao excesso de horas de duração, que ele diz ter sido de 96 horas, 4 dias!) leva-nos a desconfiar que afinal o incendiário bebia apenas um cálice de vinho do Porto... e se calhar branco.
Mostrar mensagens com a etiqueta disparates jornalísticos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta disparates jornalísticos. Mostrar todas as mensagens
9/15/2009
4/15/2008
Como se desvirtuam notícias
Tenho andado com pouca disponibilidade para escrever no blog, pelo que as visitas têm vindo, naturalmente,a diminuir. Porém, ontem reparo que o número de visitantes disparou e, por curiosidade, fui ver de onde vinham. Pois bem, do novo site do Portugal Diário que, numa iniciativa de louvar começaram a destacar numa secção própria uma série de blogs seleccionados (pediram autorização por e-mail, o que também se deve destacar...).
Porém, e aqui é que a porca torce o rabo: a razão de tanta visita adveio de um simples post que escrevi há dias em que referia um estudo neo-zelandês que destacava a possibilidade da cerveja vir a aumentar por via do aquecimento global, uma vez que o a cevada terá as suas produções reduzidas. Eu tinha mesmo colocado o link da notícia saída na Folha Online.
Contudo, o Portugal Diário decidiu chamar a atenção dos seus visitantes ao meu blog colocando o título «Cerveja no Estrago da Nação», o que até tem a sua piada. Mas depois vem um diaparate na pequena frase que eles acrescentaram: «Estudo defende aumento da cerveja para salvar o clima».
Ou seja, agradeço-lhes a publicidade, mas pedia que tivessem mais cuidado no uso da informação.
Porém, e aqui é que a porca torce o rabo: a razão de tanta visita adveio de um simples post que escrevi há dias em que referia um estudo neo-zelandês que destacava a possibilidade da cerveja vir a aumentar por via do aquecimento global, uma vez que o a cevada terá as suas produções reduzidas. Eu tinha mesmo colocado o link da notícia saída na Folha Online.
Contudo, o Portugal Diário decidiu chamar a atenção dos seus visitantes ao meu blog colocando o título «Cerveja no Estrago da Nação», o que até tem a sua piada. Mas depois vem um diaparate na pequena frase que eles acrescentaram: «Estudo defende aumento da cerveja para salvar o clima».
Ou seja, agradeço-lhes a publicidade, mas pedia que tivessem mais cuidado no uso da informação.
Etiquetas:
alterações climáticas,
disparates jornalísticos
9/25/2007
Propaganda & ignorância
Muito se tem falado na máquina propagandística do Governo. Mas daquilo que pouco se tem criticado é o contributo da comunicação social. E tem sido muita. Por vezes por se ver envolvida numa teia de promiscuidades, noutros casos por ignorância.
Ora, a ignorância é, na minha opinião, tão ou mais perigosa do que a promiscuidade. Porque se a promiscuidade pode a todo o tempo terminar, a ignorância é mais perene.
Isto a propósito da forma como a generalidade da comunicação social tem divulgado, irresponsavelmente por ignorância, as supostas maravilhas energéticas do Governo. E também sobre as (não) medidas de combate ao aquecimento global.
Ontem, como se sabe, José Sócrates foi discursar na Conferência de Alto Nível das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas. Ora, até se lhe desculpa que, por ser como presidente em exercício das União Europeia, dissertasse sobre maravilhosas que estão longe de ser nacionais.
Porém, mais grave é ter, mais tarde (e acredito numa daquelas conversas em tom informal, como ele bem sabe fazer), começa a debitar loas às medidas do Governo no que diz respeito às emissões de gases de efeito de estufa. Nesta notícia da Lusa, aqui transcrita pelo Público Online, Sócrates terá dito que Portugal assumiu já «metas mais ambiciosas do que as definidas dentro da União Europeia». Isto daria vontade para rir, se não fosse grave, porquanto é bem sabido que estamos muito longe de cumprir as metas previstas no protocolo de Quioto, que nos tinha concedido um regime de excepção dentro da União Europeia (ou seja, a UE deveria reduzir 8% as emissões no período 2008-12 em relação a 1990, enquanto Portugal poderia subir 27%).
Mas há mais. Sócrates disse também - e amorfamente o jornalista da Lusa divulgou, que «em matérias como as energias renováveis, Portugal está na linha da frente da Europa, tendo já 39 por cento da sua energia eléctrica com base renovável». Isso está longe de ser verdade - nem neste ano chuvoso tal acontecerá - e é bom salientar que a electricidade representa apenas 20% dos consumos energéticos, além de que gases de efeito de estufa têm ainda outras origens.
Em conclusão, os jornalistas (e os seus editores) deveriam ter a obrigação de ter um olhar mais crítico - e já agora saber qualquer coisinha antes de escreverem - sempre que o Governo fala sobre energia, ambiente e alterações climáticas. Caso contrário, ainda se pensa que Sócrates diz a verdade. O que, convenhamos, não foi o caso.
Ora, a ignorância é, na minha opinião, tão ou mais perigosa do que a promiscuidade. Porque se a promiscuidade pode a todo o tempo terminar, a ignorância é mais perene.
Isto a propósito da forma como a generalidade da comunicação social tem divulgado, irresponsavelmente por ignorância, as supostas maravilhas energéticas do Governo. E também sobre as (não) medidas de combate ao aquecimento global.
Ontem, como se sabe, José Sócrates foi discursar na Conferência de Alto Nível das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas. Ora, até se lhe desculpa que, por ser como presidente em exercício das União Europeia, dissertasse sobre maravilhosas que estão longe de ser nacionais.
Porém, mais grave é ter, mais tarde (e acredito numa daquelas conversas em tom informal, como ele bem sabe fazer), começa a debitar loas às medidas do Governo no que diz respeito às emissões de gases de efeito de estufa. Nesta notícia da Lusa, aqui transcrita pelo Público Online, Sócrates terá dito que Portugal assumiu já «metas mais ambiciosas do que as definidas dentro da União Europeia». Isto daria vontade para rir, se não fosse grave, porquanto é bem sabido que estamos muito longe de cumprir as metas previstas no protocolo de Quioto, que nos tinha concedido um regime de excepção dentro da União Europeia (ou seja, a UE deveria reduzir 8% as emissões no período 2008-12 em relação a 1990, enquanto Portugal poderia subir 27%).
Mas há mais. Sócrates disse também - e amorfamente o jornalista da Lusa divulgou, que «em matérias como as energias renováveis, Portugal está na linha da frente da Europa, tendo já 39 por cento da sua energia eléctrica com base renovável». Isso está longe de ser verdade - nem neste ano chuvoso tal acontecerá - e é bom salientar que a electricidade representa apenas 20% dos consumos energéticos, além de que gases de efeito de estufa têm ainda outras origens.
Em conclusão, os jornalistas (e os seus editores) deveriam ter a obrigação de ter um olhar mais crítico - e já agora saber qualquer coisinha antes de escreverem - sempre que o Governo fala sobre energia, ambiente e alterações climáticas. Caso contrário, ainda se pensa que Sócrates diz a verdade. O que, convenhamos, não foi o caso.
Etiquetas:
alterações climáticas,
ambiente,
disparates jornalísticos,
energia,
Governo,
jornalismo
7/10/2007
Endoidaram, por certo
Nos últimos tempos, o Diário de Notícias tem sido um manancial de diversão. Hoje, não aguentei destacar e comentar a totalidade desta notícia que me chamou a atenção pelo título: «Foi nadar no rio depois de almoço e morreu». A coisa parecia-me mais uma daquelas notícias do cão que morde o homem, típicas da silly season, quando não se encontra nada mais importante. Porém, esta notícia é especial, tanto assim que para cada parágrafo segue o meu comentário,em itálico e bold. Espero que se divirtam tanto como eu.
«Um indivíduo com cerca de 30 anos perdeu ontem a vida, numa altura em que nadava no rio Douro próximo da praia do Areinho, em Vila Nova de Gaia. Segundo alguns populares, o alerta terá sido dado por crianças que brincavam junto a uma pequena marina, depois de perderem o indivíduo de vista.»
Comentário - Ficamos a saber que um indivíduo (estranha palavra num jornal) perdeu a vida e que crianças perderam o dito de vista. Tantas perdas. Comecei logo a achar que esta notícia me ia divertir.
«O alerta para os bombeiros foi dado por volta das 14.30. Um homem com cerca de 30 anos tinha desaparecido no rio Douro. Para o local foram de imediato os mergulhadores dos Sapadores do Porto e dos bombeiros da Aguda. A estes juntaram-se vários elementos dos Sapadores de Vila Nova de Gaia e de Avintes.»
Comentário - Para o caso de não se ter reparado na primeira frase, o jornalista volta a dar a idade da vítima (cerca de 30 anos). A diferença é ter o indivíduo passado a ser homem.
«Segundo os Sapadores de Gaia e o piquete da Polícia Marítima, as informações recolhidas no local indicam que o indivíduo terá decidido nadar no rio após o almoço. "Tudo leva a acreditar que se terá sentido indisposto, talvez uma congestão ou assim, já que o corpo não apresentava qualquer ferimento", disse ao DN um elemento da Polícia Marítima.»
Comentário - Bolas, o homem passou outra vez a indivíduo. Mas há mais: há bitates para encher sobre a causa do afogamento. E é assim mesmo, de forma coloquial: «talvez uma congestão ou assim». Lindo...
«O alerta foi dado por algumas crianças que brincavam próximo do local e que haviam visto o indivíduo a saltar para a águas. Algum tempo depois, tendo deixado de o ver à tona da água, alertaram alguns adultos para o desaparecimento do homem.»
Comentário - Deixem ver se entendo: as crianças alertaram os adultos, os adultos alertaram supostamente os bombeiros. Isto parece-me coisa para encher. Ah!, e o indivíduo já passou outra vez a ser homem.
«Nas roupas da vítima, que estavam penduradas numa pequena embarcação de pescadores ancorada no local, não foi encontrado qualquer documento que permitisse a identificação. "Houve quem dissesse que o conhecia de vista e que sabia, mais ou menos, onde morava, mas sem grandes certezas", adiantou a mesma fonte. O homem seria solteiro, não tinha filhos e morava próximo do Areínho, com um tio. O corpo foi levado para o Instituto de Medicina Legal do Porto para autópsia que irá determinar as causas da morte e a posterior identificação da vítima mortal.»
Comentário - Essencial, o pormenor de as roupas da vítima estarem penduradas num barco de pescadores. Mas fiquei curioso de saber como eram, e as suas cores e tecidos. Também gostei do «houve quem dissesse». E com tantas dúvidas sobre a identidade do indivíduo ou homem - mas há uns bitates - , aprendi, pela frase do jornalista, que a autópsia também determinará a identificação da vítima. Ah, e ainda bem que a vítima é uma vítima mortal, caso contrário a autópsia provavelmente ia doer um bocadinho...
«Segundo o comandante Martins dos Santos, da Capitania do Douro, "as únicas mortes registadas este ano no rio, nada têm a ver com afogamentos deste género". Os seis casos verificados até ontem reportam-se a "acidentes ou incidentes" diferentes deste caso.»
Comentário - Mais outra informação fundamental: ficamos a saber que houve seis mortes naquele rio, mas que foram apenas «acidentes ou incidentes», sem especificar. E nós que até tínhamos ficado a saber que o indivíduo, ou homem, tinha pendurado a roupa numa embarcação de pescadores.
Conclusão final: Mas que raio de notícia é esta????!
«Um indivíduo com cerca de 30 anos perdeu ontem a vida, numa altura em que nadava no rio Douro próximo da praia do Areinho, em Vila Nova de Gaia. Segundo alguns populares, o alerta terá sido dado por crianças que brincavam junto a uma pequena marina, depois de perderem o indivíduo de vista.»
Comentário - Ficamos a saber que um indivíduo (estranha palavra num jornal) perdeu a vida e que crianças perderam o dito de vista. Tantas perdas. Comecei logo a achar que esta notícia me ia divertir.
«O alerta para os bombeiros foi dado por volta das 14.30. Um homem com cerca de 30 anos tinha desaparecido no rio Douro. Para o local foram de imediato os mergulhadores dos Sapadores do Porto e dos bombeiros da Aguda. A estes juntaram-se vários elementos dos Sapadores de Vila Nova de Gaia e de Avintes.»
Comentário - Para o caso de não se ter reparado na primeira frase, o jornalista volta a dar a idade da vítima (cerca de 30 anos). A diferença é ter o indivíduo passado a ser homem.
«Segundo os Sapadores de Gaia e o piquete da Polícia Marítima, as informações recolhidas no local indicam que o indivíduo terá decidido nadar no rio após o almoço. "Tudo leva a acreditar que se terá sentido indisposto, talvez uma congestão ou assim, já que o corpo não apresentava qualquer ferimento", disse ao DN um elemento da Polícia Marítima.»
Comentário - Bolas, o homem passou outra vez a indivíduo. Mas há mais: há bitates para encher sobre a causa do afogamento. E é assim mesmo, de forma coloquial: «talvez uma congestão ou assim». Lindo...
«O alerta foi dado por algumas crianças que brincavam próximo do local e que haviam visto o indivíduo a saltar para a águas. Algum tempo depois, tendo deixado de o ver à tona da água, alertaram alguns adultos para o desaparecimento do homem.»
Comentário - Deixem ver se entendo: as crianças alertaram os adultos, os adultos alertaram supostamente os bombeiros. Isto parece-me coisa para encher. Ah!, e o indivíduo já passou outra vez a ser homem.
«Nas roupas da vítima, que estavam penduradas numa pequena embarcação de pescadores ancorada no local, não foi encontrado qualquer documento que permitisse a identificação. "Houve quem dissesse que o conhecia de vista e que sabia, mais ou menos, onde morava, mas sem grandes certezas", adiantou a mesma fonte. O homem seria solteiro, não tinha filhos e morava próximo do Areínho, com um tio. O corpo foi levado para o Instituto de Medicina Legal do Porto para autópsia que irá determinar as causas da morte e a posterior identificação da vítima mortal.»
Comentário - Essencial, o pormenor de as roupas da vítima estarem penduradas num barco de pescadores. Mas fiquei curioso de saber como eram, e as suas cores e tecidos. Também gostei do «houve quem dissesse». E com tantas dúvidas sobre a identidade do indivíduo ou homem - mas há uns bitates - , aprendi, pela frase do jornalista, que a autópsia também determinará a identificação da vítima. Ah, e ainda bem que a vítima é uma vítima mortal, caso contrário a autópsia provavelmente ia doer um bocadinho...
«Segundo o comandante Martins dos Santos, da Capitania do Douro, "as únicas mortes registadas este ano no rio, nada têm a ver com afogamentos deste género". Os seis casos verificados até ontem reportam-se a "acidentes ou incidentes" diferentes deste caso.»
Comentário - Mais outra informação fundamental: ficamos a saber que houve seis mortes naquele rio, mas que foram apenas «acidentes ou incidentes», sem especificar. E nós que até tínhamos ficado a saber que o indivíduo, ou homem, tinha pendurado a roupa numa embarcação de pescadores.
Conclusão final: Mas que raio de notícia é esta????!
Etiquetas:
disparates jornalísticos,
jornalismo
7/04/2007
Mais um disparate
O jornalismo desportivo é, sabe-se, um caso à parte do jornalismo. Não apenas pelos perigosos pactos que se criam com as fontes e pelas represálias a que estão sujeitos os jornalistas, além de se usar uma linguagem muito própria. Mas nada disto justifica que quem escreva sobre desporto tenha a liberdade de escrever mal e, pior ainda, sem sentido. Hoje, no Correio da Manhã, numa caixa desta notícia, consta uma pérola do disparate (e já faço o desconto às vírgulas...):
«Leandro Lima, médio ofensivo de 19 anos que foi contratado ao São Caetano, é, a par do seu compatriota Helton, do argentino Lucho Gonzalez e do uruguaio Jorge Fucille o grande ausente neste arranque para a nova época» (sic).
Ou seja, na mesma linha, eu sou o único português vivo, a par de de mais uns 10 milhões de pessoas.
«Leandro Lima, médio ofensivo de 19 anos que foi contratado ao São Caetano, é, a par do seu compatriota Helton, do argentino Lucho Gonzalez e do uruguaio Jorge Fucille o grande ausente neste arranque para a nova época» (sic).
Ou seja, na mesma linha, eu sou o único português vivo, a par de de mais uns 10 milhões de pessoas.
Etiquetas:
disparates jornalísticos,
jornalismo
7/02/2007
Escrita com os pés
Começa a ser desesperante reparar na fraquíssima qualidade de algumas notícias que surgem nos jornais de âmbito nacional. Ontem deu-me para reparar nesta notícia do DN que aborda o início da «época oficial» dos fogos florestais.
Vejamos algumas incorrecções sobre as matérias abordadas pelo jornalista:
a) «No ano passado ficou longe das cifras negras de 2003 e 2004, com mais de 300 mil hectares ardidos», escreve o jornalista, quando, na verdade, foram os anos de 2003 e 2005.
b) «A área ardida tem vindo a registar um decréscimo significativo face à média dos últimos cinco anos, segundo a Direcção-Geral dos Recursos Florestais», escreve o jornalista, quando não faz sentido algum comparar um ano com a média dos 5 anos anteriores e dizer depois que se está a registar um decréscimo (ou seja, uma tendência).
c) «O objectivo do Governo é que até 2012 a área de floresta ardida em Portugal diminua cem mil hectares», quando, na verdade, o objectivo é que a partir de 2012 se consiga que, por ano, menos de 100 mil hectares de área ardida por ano.
Mais chocante, porém, são os sucessivos erros de construção das frases e uma escrita quase macarrónica, sem vírgulas onde deveriam estar e com incoerências várias. Eu próprio cometo erros e lapsos quando escrevo, mas nesta notícia abundam excessivamente. São mais do que lapsos. Vejamos alguns exemplos:
a) «No ano passado ficou longe das cifras negras de 2003 e 2004, com mais de 300 mil hectares ardidos». Deveria ser «O ano passado (...).
b) «O melhor exemplo é o do corrente ano, em que a área ardida diminuiu até agora 60% face ao mesmo período de 2006, segundo dados divulgados pela Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC)». A expressão «é o do» é horrível.
c) «A promessa consta do plano nacional de defesa da floresta aprovada em Conselho de Ministros». Fica-se a ser que a promessa foi aprovada em Conselho de Ministros; pensava que tinha sido o plano...
d) «Para já a grande ajuda para o combate aos fogos florestais vem da meteorologia, e, apesar do início do Verão, as previsões insistem no céu nublado e elevadas humidades relativas». As previsões insistem? Por amor de Deus, pelo menos que se escrevesse qualquer coisa do género «as previsões apontam para a manutenção de céu nublado».
Podem-me dizer que são pormenores, mas continuo a insistir que são estes pormenores de falta de qualidade que contribuem para afugentar os leitores. Pelo menos os mais exigentes.
Vejamos algumas incorrecções sobre as matérias abordadas pelo jornalista:
a) «No ano passado ficou longe das cifras negras de 2003 e 2004, com mais de 300 mil hectares ardidos», escreve o jornalista, quando, na verdade, foram os anos de 2003 e 2005.
b) «A área ardida tem vindo a registar um decréscimo significativo face à média dos últimos cinco anos, segundo a Direcção-Geral dos Recursos Florestais», escreve o jornalista, quando não faz sentido algum comparar um ano com a média dos 5 anos anteriores e dizer depois que se está a registar um decréscimo (ou seja, uma tendência).
c) «O objectivo do Governo é que até 2012 a área de floresta ardida em Portugal diminua cem mil hectares», quando, na verdade, o objectivo é que a partir de 2012 se consiga que, por ano, menos de 100 mil hectares de área ardida por ano.
Mais chocante, porém, são os sucessivos erros de construção das frases e uma escrita quase macarrónica, sem vírgulas onde deveriam estar e com incoerências várias. Eu próprio cometo erros e lapsos quando escrevo, mas nesta notícia abundam excessivamente. São mais do que lapsos. Vejamos alguns exemplos:
a) «No ano passado ficou longe das cifras negras de 2003 e 2004, com mais de 300 mil hectares ardidos». Deveria ser «O ano passado (...).
b) «O melhor exemplo é o do corrente ano, em que a área ardida diminuiu até agora 60% face ao mesmo período de 2006, segundo dados divulgados pela Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC)». A expressão «é o do» é horrível.
c) «A promessa consta do plano nacional de defesa da floresta aprovada em Conselho de Ministros». Fica-se a ser que a promessa foi aprovada em Conselho de Ministros; pensava que tinha sido o plano...
d) «Para já a grande ajuda para o combate aos fogos florestais vem da meteorologia, e, apesar do início do Verão, as previsões insistem no céu nublado e elevadas humidades relativas». As previsões insistem? Por amor de Deus, pelo menos que se escrevesse qualquer coisa do género «as previsões apontam para a manutenção de céu nublado».
Podem-me dizer que são pormenores, mas continuo a insistir que são estes pormenores de falta de qualidade que contribuem para afugentar os leitores. Pelo menos os mais exigentes.
Etiquetas:
disparates jornalísticos,
incêndios,
jornalismo
6/16/2007
Aeroporto e embustices
Esta notícia da jornalista Leonor Matias, do Diário de Notícias (manchete de hoje), constitui o paradigma do mau jornalismo.
Escreve a dita jornalista ter apurado que «a opção de construir o novo aeroporto de Lisboa no Campo de Tiro de Alcochete pode resultar num apoio comunitário de 800 milhões de euros(...) contra apenas 5,6% dos 3,1 mil milhões de de euros no caso da Ota», acrescentando que «esta diferença explica-se pelo facto de o Campo de Tiro de Alcochete pertencer ao concelho de Benavente, o qual passou a integrar a região do Alentejo, considerada uma zona pobre para efeitos de elegebilidade de apoios comunitários, enquanto a Ota pertence à região de Lisboa e Vale do Tejo, passou a ser considerada uma zona "rica"».
Contudo, na verdade, isto é um disparate em toda a largura e comprimento. Por uma razão muito simples: já nem sequer formalmente existe uma região de Lisboa e Vale do Tejo (LVT) e, portanto, Ota não integra uma região «rica». Há poucos anos, exactamente por ter a região LVT passado a ser uma região «rica», decidiu o Governo separar as NUT III do Oeste, Médio Tejo e Lezíria do Tejo da então LVT, passando as duas primeiras para a região Centro e a terceira para o Alentejo. Deste modo, as restantes subregiões Grande Lisboa e Península de Setúbal formaram a actual («rica») região Lisboa.
Deste modo, colocar Benavente (Campo de Tiro) , para efeitos de financiamento comunitário, em vantagem sobre Alenquer (Ota) não é verdade: estão em pé de igualdade, já que Benavente (Médio Tejo) é ,de facto, Alentejo, mas Alenquer (Oeste) não é LVT (que já não existe) nem Lisboa,mas sim Centro - ou seja, ambas as localizações não estão inseridas numa região«rica». E isto arrasa logo a notícia.
Porém, choca-me particularmente também toda a estrutura da notícia. Vejamos por quê , através de algumas passagens:
«(...) apurou o DN junto de fonte ligada ao estudo patrocinado pela Confederação da Indústria Portuguesa (CIP) (...).
(...) Fonte da Comissão Europeia ligada aos fundos regionais explicou ao DN (...)
(...) Fonte do gabinete do ministro das Obras Públicas, Mário Lino, confirmou ao DN (...)
(...) Fonte da câmara municipal de Benavente lamentou ao DN (...)».
Ou seja, a jornalista usou quatro fontes para elaborar uma notícia. Todas as quatro são fontes anónimas! Nem uma é, portanto, identificada e nem se justifica por haver necessidade de protecção de fontes, pois as informações não são assim tão confidenciais e nem me parece que aqui se justifique a protecção da fonte.
Porém, tendo em conta que a primeira fonte (anónima e ligada ao estudo da CIP) transmite uma informação errada que a jornalista tinha obrigação de saber estar incorrecta (são daquelas coisas que tem de saber...),
que a segunda fonte (a da Comissão Europeia) faz referências que estão, no mínimo desactualizadas e, portanto, incorrecta, como acima se comprovou (a passagem da notícia do DN é a seguinte: «Fonte da Comissão Europeia ligada aos fundos regionais explicou ao DN que em termos de elegibilidade existem dois tipos de regiões, e Benavente faz parte das zonas mais pobres, em que o Produto Interno Bruto (PIB) está abaixo dos 75%, o que não se passa na região de Lisboa e Vale do Tejo»),
que me parece muito pouco provável (para não dizer impossível) que uma verdadeira e competente «fonte da Comissão Europeia ligada aos fundos comunitários» desconheça que não existe já LVT e que Alenquer está integrada agora na região Centro (ou seja, numa região que não é «rica»,
torna-se assim lícito questionar se a jornalista falou sequer com as fontes ou se aquilo que escorreu da sua pena foi mera imaginação, mera ignorância ou um contributo para a causa de um dos lobbies. Mau jornalismo, isso sei que é.
Escreve a dita jornalista ter apurado que «a opção de construir o novo aeroporto de Lisboa no Campo de Tiro de Alcochete pode resultar num apoio comunitário de 800 milhões de euros(...) contra apenas 5,6% dos 3,1 mil milhões de de euros no caso da Ota», acrescentando que «esta diferença explica-se pelo facto de o Campo de Tiro de Alcochete pertencer ao concelho de Benavente, o qual passou a integrar a região do Alentejo, considerada uma zona pobre para efeitos de elegebilidade de apoios comunitários, enquanto a Ota pertence à região de Lisboa e Vale do Tejo, passou a ser considerada uma zona "rica"».
Contudo, na verdade, isto é um disparate em toda a largura e comprimento. Por uma razão muito simples: já nem sequer formalmente existe uma região de Lisboa e Vale do Tejo (LVT) e, portanto, Ota não integra uma região «rica». Há poucos anos, exactamente por ter a região LVT passado a ser uma região «rica», decidiu o Governo separar as NUT III do Oeste, Médio Tejo e Lezíria do Tejo da então LVT, passando as duas primeiras para a região Centro e a terceira para o Alentejo. Deste modo, as restantes subregiões Grande Lisboa e Península de Setúbal formaram a actual («rica») região Lisboa.
Deste modo, colocar Benavente (Campo de Tiro) , para efeitos de financiamento comunitário, em vantagem sobre Alenquer (Ota) não é verdade: estão em pé de igualdade, já que Benavente (Médio Tejo) é ,de facto, Alentejo, mas Alenquer (Oeste) não é LVT (que já não existe) nem Lisboa,mas sim Centro - ou seja, ambas as localizações não estão inseridas numa região«rica». E isto arrasa logo a notícia.
Porém, choca-me particularmente também toda a estrutura da notícia. Vejamos por quê , através de algumas passagens:
«(...) apurou o DN junto de fonte ligada ao estudo patrocinado pela Confederação da Indústria Portuguesa (CIP) (...).
(...) Fonte da Comissão Europeia ligada aos fundos regionais explicou ao DN (...)
(...) Fonte do gabinete do ministro das Obras Públicas, Mário Lino, confirmou ao DN (...)
(...) Fonte da câmara municipal de Benavente lamentou ao DN (...)».
Ou seja, a jornalista usou quatro fontes para elaborar uma notícia. Todas as quatro são fontes anónimas! Nem uma é, portanto, identificada e nem se justifica por haver necessidade de protecção de fontes, pois as informações não são assim tão confidenciais e nem me parece que aqui se justifique a protecção da fonte.
Porém, tendo em conta que a primeira fonte (anónima e ligada ao estudo da CIP) transmite uma informação errada que a jornalista tinha obrigação de saber estar incorrecta (são daquelas coisas que tem de saber...),
que a segunda fonte (a da Comissão Europeia) faz referências que estão, no mínimo desactualizadas e, portanto, incorrecta, como acima se comprovou (a passagem da notícia do DN é a seguinte: «Fonte da Comissão Europeia ligada aos fundos regionais explicou ao DN que em termos de elegibilidade existem dois tipos de regiões, e Benavente faz parte das zonas mais pobres, em que o Produto Interno Bruto (PIB) está abaixo dos 75%, o que não se passa na região de Lisboa e Vale do Tejo»),
que me parece muito pouco provável (para não dizer impossível) que uma verdadeira e competente «fonte da Comissão Europeia ligada aos fundos comunitários» desconheça que não existe já LVT e que Alenquer está integrada agora na região Centro (ou seja, numa região que não é «rica»,
torna-se assim lícito questionar se a jornalista falou sequer com as fontes ou se aquilo que escorreu da sua pena foi mera imaginação, mera ignorância ou um contributo para a causa de um dos lobbies. Mau jornalismo, isso sei que é.
Etiquetas:
aeroporto,
disparates jornalísticos
5/30/2007
LOL
A entrevista de ontem no DN (vd. aqui) a Ricardo Araújo Pereira, sobre a polemicazinha (parva e sem sentido) do genérico do Diz que é uma espécie de magazine, foi titulada com um «A música está isenta de direitos de autor», mas, na verdade, a jornalista devia ter usado o título «Como o DN foi gozado até ao tutano». Imperdível. Em todo o caso, os meus agradecimentos ao DN pela coragem de editar a entrevista: foi um bom momento de humor...
Etiquetas:
disparates jornalísticos,
humor,
jornalismo
5/20/2007
Venha uma revisão aos dicionários
Eu jurava, até hoje, que doar significava dar sem estar envolvido um preço ou um custo. Mas não me fiando, fui ao Dicionário Houaiss e diz-se lá que doar é «transferir de modo legal e gratuito (bens ou vantagens) a (outrem)» ou ainda «transmitir gratuitamente a posse de (alguma coisa) a; oferecer».
Isto aconteceu-me depois de ler o seguinte no Diário de Notícias de hoje: «A doação do quartel dos Bombeiros Voluntários de Monção à Câmara Municipal, a troco de uma compensação de 308 mil euros, poderá ser a solução para assegurar a continuidade daquela associação humanitária, a braços com uma "grave crise" económica» (vd. aqui versão completa do disparate).
Nota séria: Até se compreende a imaginação dos bombeiros de Monção, que chega a este tipo de delírios para arranjarem uma escapatória ao buraco financeiros que eles próprios criaram (a construção do quartel estava inicialmente orçada em um milhão de euros, dos quais quase 600 mil comparticipados pelo Estado e pela Câmara de Monção, mas a obra acabou por derrapar em meio milhão de euros, segundo o DN). Contudo, já não se compreende, nem é admissível, que um jornalista não saiba que jamais se pode falar de «doação (...) a troco de uma compensação». Um jornalista não deve transmitir aos leitores todos os disparates que ouve ou que lhe impingem. Caso contrário, é um mau profissional.
Isto aconteceu-me depois de ler o seguinte no Diário de Notícias de hoje: «A doação do quartel dos Bombeiros Voluntários de Monção à Câmara Municipal, a troco de uma compensação de 308 mil euros, poderá ser a solução para assegurar a continuidade daquela associação humanitária, a braços com uma "grave crise" económica» (vd. aqui versão completa do disparate).
Nota séria: Até se compreende a imaginação dos bombeiros de Monção, que chega a este tipo de delírios para arranjarem uma escapatória ao buraco financeiros que eles próprios criaram (a construção do quartel estava inicialmente orçada em um milhão de euros, dos quais quase 600 mil comparticipados pelo Estado e pela Câmara de Monção, mas a obra acabou por derrapar em meio milhão de euros, segundo o DN). Contudo, já não se compreende, nem é admissível, que um jornalista não saiba que jamais se pode falar de «doação (...) a troco de uma compensação». Um jornalista não deve transmitir aos leitores todos os disparates que ouve ou que lhe impingem. Caso contrário, é um mau profissional.
Etiquetas:
bombeiros,
disparates jornalísticos,
jornalismo
Subscrever:
Mensagens (Atom)