ESTRAGO DA NAÇÃO

1/09/2006

Floresta II

Nem de propósito, hoje o Público tem uma interessante manchete: «Metade dos incêndios de 2005 foi fogo posto». O título é algo enviesado, pois na verdade o que a notícia aborda é a causa dos incêndios em função da área ardida total. Ou seja, cerca de 47% da área ardida teve na sua origem actos de incendiarismo (o incendiarismo não é apenas fogo posto...). Ora, uma coisa é a percentagem de área ardida; outra, a percentagem do número de ocorrências fogos.

Infelizmente, estas notícias - mesmo se bem intencionadas, como acredito que é o caso da notícia do jornalista do Público, Ricardo Garcia - têm efeitos contraproducentes, pois de certa forma desculpam as falhas do sistema de prevenção, vigilância e combate dos incêndios florestais. Diabolizando os causadores, está a transmitir-se a ideia de que existem «forças malignas» que estão na base das catástrofes dos incêndios florestais.

Julgo interessante ver que, por exemplo, na Espanha o incendiarismo é «mato» - ou seja, os incêndios, neste caso o número, e não a área afectada, representam a maioria das causas. Num estudo feito no ano passado, pegando nos dados do decénio 1994-2003, chegou-se à conclusão que 62% dos incêndios foram intencionais, valores que, aliás, se mantiveram quase sempre estáveis ao longo dos anos. Contudo, esta parecentagem elevada de incendiarismo - tão grande ou maior do que em Portugal - não tem correspondência com a extensão da área ardida.

Também me parece algo falacioso que se destaque o aumento do número de detenções de suspeitos incendiários, referindo que se passou de 80 em 2004 para 147 em 2005. As variações de um ano para o outro não têm a ver com um aumento da criminalidade, mas antes com o aumento das acções de inspecção e investigação pela GNR e PJ. Não estou com isto a dizer que não há incendiários; pelo contrário. Existem mais, mas onde eles existem em maior número são nas regiões onde quase nunca são feitas investigações das causas: por exemplo, em alguns concelhos dos distritos do Porto e Braga onde existe uma enormidade de incêndios, mas de pequena dimensão. Aliás, sobre esta matéria é interessante analisar o tal estudo espanhol, pois revela a existência de causas sociais entre as distintas regiões que «justificam» o incendiarismo.

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