ESTRAGO DA NAÇÃO

12/14/2006

Os jornalistas e a saúde

Subscrevi um abaixo-assinado da Sindicato de Jornalista reclamando que não se acabe com a Caixa de Previdência e Abono de Família dos Jornalistas. Para quem não saiba, este integra um dos melhores sistemas de saúde do país, sobretudo de integrado na Casa da Imprensa, designadamente uma excelente comparticipação em operações, acesso rápido e barato a consultas de especialidade, de análises e exames complementares, bem como custo zero em medicamentos. Ou seja, os jornalistas são uns privilegiados, sem dúvida. Acabe-se, decreta o Governo.

Torna-se difícil estar a falar sobre um sistema de que sou beneficiada, mais ainda quando o seu fim me prejudicará - pois é óbvio que perderei um direito. Porém, esta questão não se pode colocar assim de uma forma tão simplista. Primeiro, porque tabelar por baixo, sempre foi um mau sistema. E, neste caso, o que interessa saber, em primeiro lugar, é se o sistema de saúde dos jornalistas é financeiramente lesivo para o Estado - ou seja, se está a ser suportado pelos outros contribuintes. Pelo que sei, o sistema de saúde dos jornalistas não é deficitário. Logo, esse argumento cai por terra.

Mas, em segundo lugar e decorrente do que se disse, há algo que pode intrigar: se este sistema de saúde tem tantos benefícios, qual a razão para não ser deficitário? Não tenho elementos para responder a esta questão. No entanto, não seria uma opção desajustada analisar com detalhe os efeitos financeiros a médio-longo prazos de um sistema de saúde em que, claramente, se pode apostar no «luxo» da prevenção. Ou seja, com estes benefícios, eu posso fazer análises um «chek-up» todos os anos e fazer mesmo algumas operações que não seriam prioritárias no curto-prazo, mas que evitam, à partida, eventuais evoluções que poderiam ser problemáticas para a minha saúde e, concomitantemente, para o Sistema Nacional de Saúde. Ora, sem este sistema, provavelmente não teria capacidade financeira para avaliar o meu estado de saúde com maior cuidado. Isto aplica-se, aliás, às pessoas que não usufruem desse sistema de saúde.

Ora, e o que acontece nestas situações? Por regra, as pessoas acabam por aguentar os seus achaques e quando necessitam mesmo de cuidados no habitual Sistema Nacional de Saúde encontram-se num estado que obriga o Estado a suportar custos eventualmente muito mais elevados. Ou seja, em muitos casos, o Estado arrisca-se a gastar mais dinheiro do que se tivesse investido em criar um bom sistema de saúde preventivo. E, claro, nessa situação, perdem todos: os contribuintes em geral, mas sobretudo os doentes.

Onde quero chegar com isto? Julgo que existirá uma razão para que o sistema de saúde dos jornalistas não seja deficitário e isso reside sobretudo em apostar na medicina preventiva (supostamente cara) em detrimento do deixar andar até se cair numa cama de hospital. Deste modo, eu gostaria que o Governo - ou quem de direito - apresentasse um estudo que comparasse a classe dos jornalista com a dos contribuintes em geral em relação a diversos indicadores, designadamente percentagens de dias de doença, de número médio de dias de internamento; em suma, de custos globais directamente relacionados com a saúde e com a produtividade. E fazendo isso, se se chegasse à conclusão de que esses índices são semelhantes (ou mesmo piores, em relação aos jornalistas), acho então bem que se acabe com os benefícios dos jornalistas. Se forem melhores, então será um duplo erro. Primeiro, porque os jornalistas acabarão por ter o mesmo destino dos contribuintes em geral. Segundo, e muito pior, porque se acaba com um modelo que deveria ser aplicado para o país. Isto é, ao invés daqueles que eram injustiçados poderem atingir o nível dos beneficiados, comete-se a maior das injustiças: todos passam a sofrer de um sistema injusto.

Nota: Leio esta notícia no DN: confirma-se que as seguradoras - quase todas pertencentes a instituições bancárias - vão ser as principais beneficiadas com o fim dos (bons) sistemas autónomos de saúde. Claro que isto é uma acaso - o nosso Governo socialista não nos iria fazer uma coisas destas apenas para poder beneficiar os bancos...

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