ESTRAGO DA NAÇÃO

5/09/2004

Farpas Verdes LXXI

Os resultados da análise do Friends of Earth relativo ao sentido de voto no Parlamento Europeu em relação a 10 directivas comunitárias na área do ambiente - cuja análise para os eurodeputados portugueses foi feita pela Quercus - mostram que, de facto, existe uma clara dicotomia esquerda-direita sobre estas matérias. Se isso se torna evidente no caso português - em que o PS e a CDU tiveram sempre uma postura pró-ambiental e ao invés o PSD e o CDS-PP uma postura desfavorável -, na Espanha, no Reino Unido, na Itália e na Alemanha essa tendência também se confirma.

Esta situação coloca, mais uma vez, em questão se o ambiente é uma causa da esquerda e se, por oposição, os governos de direita não pouco favoráveis a medidas de protecção ambiental. Tenho uma posição pessoal sobre esta matéria: considero que, em teoria, e ideologicamente falando, a esquerda assume políticas mais ambientalistas do que a direita. Não tanto por uma razão pró-activa, mas por oposição à direita, que dá primazia ao liberalismo do mercado, que se preocupa mais com uma visão de lucro a todo o custo e a curto-prazo.

Contudo, apesar disso, em Portugal até considero que os Governos que melhor trataram das questões ambientais foram os de direita, sobretudo nos anos 70 e 80, quando Ribeiro Telles e Carlos Pimenta - e mesmo António Capucho e Francisco Sousa Tavares - tiveram responsabilidades nesta pasta. Se, contudo, analisarmos os anos 90 até à data, malgrado tudo, penso que mesmo assim o Partido Socialista teve um desempenho menos sofrível. Ou seja, na verdade, mais importante do que a ideologia, estão as pessoas e a sua postura individual. Aliás, acredito mesmo que se Carlos Pimenta tivesse ainda no Parlamento Europeu não duvido que o PSD teria registado uma melhor perfomance ambiental. Da mesma forma, se Mário Soares não fosse eurodeputado pelo PS - e agora que, desde há uns anos a esta data, mostra uma postura ambientalista ímpar -, talvez este partido não tivesse um desempenho tão favorável.

Também há que relativizar as posições dos eurodeputados aparentemente tão ambientalistas. Se estes tivessem de assumir um sentido de voto em matérias similares na nossa Assembleia da República - e sobretudo se fossem do partido do Governo -, talvez não votassem da mesma forma. Aliás, não deixa de ser curioso que, por exemplo, Joaquim Vairinhos, antigo presidente da autarquia de Loulé - um dos concelhos do país mais viciado no betão e nas suas benesses - seja um dos 41 eurodeputados que votou «verde» nas 10 directivas analisadas pelo Friends of Earth.

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