ESTRAGO DA NAÇÃO

7/15/2004

Farpas Verdes XCVII

José Sócrates é, como Pedro Santana Lopes, o produto da ascensão política baseada no apoio do poder mediático que se vai inculcando na opinião público de uma forma estrategicamente concertada. O hoje anunciado candidato a secretário-geral do PS vencerá, sem margem para quaisquer dúvidas, o pssto de líder da oposição e, portanto, será um sério candidato a primeiro-ministro dentro de dois anos. É, aliás, curioso que neste percurso de promoção pública, Santana Lopes e José Sócrates tenham tido mesmo um percurso paralelo, porque ambos se tornaram adversários mediáticos na comunicação social; primeiro na RTP, até há pouco tempo na revista Sábado.
 
Conheço bem o percurso político de José Sócrates, desde os tempos em que era deputado na Assembleia da República no início dos anos 90. Quem tem memória recordar-se-á de um «porta-voz» de ambente da oposição que era levado pouco a sério. Ele era tão fraco que com a vitória do PS nas eleições de 1995 lhe deram o lugar de secretário de Estado e mesmo assim foi muito.
 
Sócrates foi, contudo, neste aspecto bastante inteligente nas suas novas funções: soube criar «guerras» e consensos que surpreenderam, sobretudo porque ninguém acreditava nele. Mas além disse cultivou, nos seus primeiros tempos de governantes, duas características que, infelizmente, foi perdendo com os anos: humildade e vontade de aprender e ouvir. Recordar-se-ão muitos da «guerra» contra a indústria para revitalizar a reutilização das embalagens (que depois deu em quase nada) e na forma participativa como foi elaborado o Plano Estratégico de Resíduos Sólidos Urbanos. Tenho, confesso, algumas saudades desse tempo de um Sócrates com vontade de mostrar serviço, mas fazendo-o bem.
 
A sua saída da secretaria de Estado do Ambiente para Ministro-Adjunto foi, na minha opinião, o período em que Sócrates se terá transfigurado. A promoção tê-lo-á feito ver que afinal até ter-lhe-iam nascido asas para voar mais longe. O seu discurso mudou literalmente - hão-de reparar que até o tom de voz e o estilo oral se alterou profundamente - e a partir daí a sua conduta tinha sobretudo um cariz mais politiqueiro e mediático. Foi a patir desse momento que alguma comunicação social «apostou» literalmente na sua imagem, sobretudo quando Portugal ganhou a organização do Euro 2004. Muitos jornalistas e directores dos «media» que não saberiam sequer dizer em 1995 quem era o secretário de Estado do Ambiente, passaram anos mais tarde a criar sobre José Sócrates a imagem de político dinâmico e resoluto.
 
O seu regresso ao Ministério do Ambiente em 1999 foi sobretudo uma excelente estratégia pessoal. Sócrates - que conseguiu satisfazer uma antiga reclamação dos ambientalistas: a fusão do Ambiente com o ordenamento do território - sabia que tinha disponível imenso dinheiro dos fundos comunitários e criou o megalómano Programa Polis (não tanto na obra feita, mas nas verbas gastas), tinha ainda imensas inaugurações a fazer (sobretudo com os aterros sanitários) e tinha uma batalha que desejava conquistar (a co-incineração). Mesmo se nesta última guerra tivesse, como sabia, uma bateria de críticas, Sócrates sabia que os «opinion-makers» não lhe poupariam elogios por a sua abnegação ser o oposto daquilo que criticavam em António Guterres.
 
A saída de cena do Governo socialista em 2002 não o chamuscou em nada. Pelo contrário, José Sócrates foi talvez o ex-governante que melhor saiu na fotografia do desastre que foi os últimos anos do guterrismo. A comunicação social, mais uma vez, garantiu-lhe um palco especial, dando-lhe a possibilidade de dissertar sobre os mais variados assuntos. Tprnou-se, portanto, um político no auge do mediatismo, o que
nos tempos que correm é meio caminho andado para o sucesso.
 
Posto isto, estou a imaginar José Sócrates como futuro primeiro-ministro. E, na verdade, não sei sinceramente o que diga. Vejo vantagens e desvantagens. É certo que, malgrado o facto de se se espremer aquilo que fez no Ambiente saía pouco sumo,as questões de ambiente e de ordenamento podem mesmo assim beneficiar bastantes. Sócrates, quer se queira quer não, tem a imagem colado ao ambiente e, portanto, num Governo por si liderado seria «obrigado» a não meter pé em ramo verde. A própria comunicação social, como sistema vampírico que por vezes é, não lhe admitiria determinadas medidas anti-ambientais. No entanto, do ponto de vista mais global, Sócrates não parece dar garantias de ser um político com ideias geniais e a sua ideologia é algo indefinida e vacilando mais para o lado mediático das suas acções. Pode ser que, como eventual líder da oposição, possa mostrar um novo élan, mas para isso terá de recuperar aquilo que melhor tinha nos seus primeiros anos: humildade e vontade de fazer mas fazer bem.

 
De resto, voltando à comparação entre o seu «colega» Santana, diria que como primeiro-ministro, venha o Diabo e escolha. Se eu fosse Diabo, talvez escolhesse José Sócrates, mas mais por preferir «do mal, o menos».


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