ESTRAGO DA NAÇÃO

10/06/2005

Derivações Ambientais XXXI

Quem souber um bocadito de estatística e de sociologia, sabe bem que as sondagens que são apresentadas pelos diferentes órgãos de comunicação social fazem parte do «jogo mediático» de fazer notícias e animar o despique, porque sinceramente têm tudo menos rigor científico. É certo que, para enganar o pagode, se apresenta sempre a ficha técnica da ordem que, grosso modo, diz isto: No Concelho X, a amostra é constituída por N entrevistas, das quais Z% do sexo feminino. O erro de amostragem deste estudo, para um intervalo de confiança de 95% é de mais ou menos Y%.

Pois bem, o problema não está nos cálculos do erros de amostragem, mas sim na própria amostragem em si. Uma amostragem nas intenções de voto, em si mesmo, é uma tentativa de reconhecer o universo da população local. É certo que quantas mais pessoas eu questionar, mais certo estarei da realidade, mas a metodologia pré-amostragem, também é fundamental, sobretudo em casos de cidades como Lisboa com 540 mil eleitores em que encontramos uma grande multiplicidade de factores socio-económicos. Façamos a comparação com uma amostragem para um estudo biológico: se eu quiser estudar uma floresta, terei de fazer uma amostragem nos diversos habitats aí existentes. Se só fizer numa zona irei extrapolar resultados que nada representam da realidade.

Ora, voltando à questão da sondagem eleitoral, vejamos a última sondagem da TVI. No caso de Lisboa, na ficha técnica dizem que entrevistaram 1001 pessoas: isto representa uns míseros 0,19% dos eleitores. É uma percentagem diminuta, sobretudo se a montante não tiver existido uma escolha criteriosa das zonas a amostrar.

Mas, façamos outro exercício para ver o fraco rigor destas sondagens: no concelho de Felgueiras - que tem um pouco menos de 45 mil eleitores - a empresa que trabalhou para a TVI fez 826 entrevistas. Isto dá 1,83% dos eleitores - ou seja, quase 10 vezes mais do que em Lisboa. Contudo, a margem de erro neste concelho é de 3,4%, estranhamente superior a Lisboa (que é de 3,1%). Ora, não apenas se torna dificil de compreender esta diferença na margem de erro como na opção de escolher percentagens distintas na amostragem aos eleitores. Porque se assim fosse, das duas uma: ou em Lisboa teriam de fazer 9641 entrevistas (para que a percentagem de eleitores aqui fosse idêntica a Felgueiras), ou então em Felgueiras deveriam ter apenas feito 85 entrevistas (para que a percentagem de eleitores aqui fosse idêntica a Lisboa). Claro está que se optasse pela primeira alternativa, o custo seria enormíssimo; se optassem pela segunda ninguém acreditaria na sondagem de Felgueiras (com apenas 85 entrevistas). Mas, na verdade, aquilo que a empresa que trabalhou para a TVI fez vem dar ao mesmo: apenas 1001 entrevistas em Lisboa é o mesmo que fazer 85 em Felgueiras. Com a agravante que na capital de Portugal o tecido socio-económico é bastante mais diferenciado. É por isso, em cidades como Lisboa e Porto - e isso viu-se bem nas eleições de 2001 -, as sondagens quase sempre erram e muito...

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