ESTRAGO DA NAÇÃO

7/24/2005

Farpas Verdes CCLXI

Quando hoje na televisão assisti ao Presidente da República elogiar os bombeiros voluntários pelo trabalho no combate aos incêndios florestais, surgiu-me na cabeça uma analogia: o discurso de um presidente de um clube de terceira divisão que elogia os seus jogadores amadores (que não têm tempo para treinar e aprender tácticas) por terem dado o litro dentro do campo, apesar da copiosa derrota.

Aquilo que pretendo dizer com isto é o seguinte: longe de mim responsabilizar os bombeiros voluntários pela situação catastrófica dos incêndios florestais. Não são eles os responsáveis pela má gestão da floresta, não são eles que os põem e estão - como bombeiros - a apanhar com as consequências de um conjunto vasto de irresponsabilidades que grassam no país. Não é a eles que se deve apontar responsabilidades: eles fazem o que podem; a maioria tem a sua profissão, tem um indiscutível mérito de «sacrifício», ou seja, fazem o que podem.

Mas o problema é exactamente este: a salvaguarda da floresta - riqueza ecológica, paisagística e económica do país - não pode estar à mercê de abnegados voluntaristas que «fazem o que podem». Preferia abnegados «mercenários» que «fazem o que devem». Isto é, preferia profissionais - a ganharem bem, a serem bem treinados e equipados, a poderem ser responsabilizados e a serem elogiados - não por serem voluntariosos, mas sim por serem eficazes e eficientes no combate às chamas.

A questão essencial será - fazendo uma comparação futeboleira - em poupar e ter uma equipa de bons rapazes e baratinha mas que é goleada ou ter uma equipa de bons rapazes e cara mas que vence. É que, ao contrário do futebol, ter uma equipa baratinha na defesa da floresta acaba por custar mais do que apostar numa equipa cara...

Tudo isto para defender que enquanto não deixarmos de apostar em bombeiros voluntários sem treino e os substituirmos (ou adaptá-los) em bombeiros profissionais (com treino e conhecimentos de combate), os elogios do Presidente da República continuarão ano após ano a coinciderem com uma floresta cada vez mais calcinada.

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