ESTRAGO DA NAÇÃO

8/12/2005

Farpas Verdes CCLXX

Fiquei abismado ao ler uma citação do secreário de Estado do Ambiente, Humberto Rosa. Tendo ardido 15 mil hectares de áreas protegidas durante este ano, ele desdramatizou a situação, salientando que «os incêndios são preocupantes quando há pessoas e bens afectados, mas a situação não é de uma enorme gravidade do ponto de vista da conservação da natureza», porque aquelas áreas têm um «bom potencial de regeneração».

Ora, sem conhecer em detalhe todas as áreas afectadas - mas sei que na serra da Estrela os estragos foram também em floresta secular -, é patente que a dimensão dos incêndios nas áreas protegidas é enorme (já o tinha sido em 2003). E não consigo entender como não se pode considerar grave que arda em 7% do território nacional uns 15000 hectares em tão curto espaço de tempo.

Este rácio é dramático, porque é superior aos das áreas não protegidas. Se fosse igual, teriamos já uma área ardida em Portugal a rondar os 215 mil hectares (e «ainda» não estamos lá). Ou seja, como é possível assumir-se que a situação não é grave nas áreas protegidas quando os dados mostram que elas estão mais «desprotegidas» dos incêndios do que o resto do território?

Por outro lado, a questão da regeneração é correcta do ponto de vista ecológico, mas não do ponto de vista do conceito humano de conservação da natureza. A conservação da natureza pressupõe uma gestão com planeamento; isto é, «orientar» a Natureza. O fogo pode fazer parte da conservação da natureza, mas apenas se for feita de uma forma planeada e gerida. Não se pode desdramatizar os efeitos dos incêndios incontrolados em área protegidas dizendo que daqui a uns anos está igual ao que estava, porque durante esse período de anos de «regeneração» não teremos ao dispor aquilo que se tinha antes do incêndio. Em suma, durante anos «perde-se» um património que, em situação normais e se houvesse gestão, deveria existir.

Por fim, a pior mensagem que se pode dar aos cidadãos deste país é a desdramatização dos incêndios em áreas protegidas. É óbvio que a vida humana prevalece e dever prevalecer. Mas suavizar as perdas ambientais em áreas protegidas é um péssimo sinal. Não apenas por não corresponder à verdade (na minha opinião, humilde, claro está), mas sobretudo por «comprometer» a capacidade de manobra que o próprio Ministério do Ambiente e o Instituto de Conservação da Natureza terão para «convencer» o país e o Governo de que é fundamental fazer uma melhor gestão e protecção das áreas protegidas contra os incêndios. Se a situação não é dramática, como disse o secretário de Estado do Ambiente, como se justificará aquilo que ele simultaneamento propõe de aumentar os sapadores florestais nas ditas áreas?

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