ESTRAGO DA NAÇÃO

4/18/2005

Farpas Verdes CCVIII

Tendo tido oportunidade de analisar, muito rapidamente, alguns dados sobre as precipitações ao longo dos anos (em 44 estações com mais de 50 anos de registos), nota-se que o actual ano hidrológico está, em muitos casos, a ser o mais severo. No entanto, isso apenas se verifica em 12 estações (27%).

Existem, de uma forma marcante, nas últimas seis décadas, anos particularmente severos de seca (embora esta análise seja obviamente superficial, por estar apenas a considerar os valores extremos). Por exemplo, o ano de 1945 continua a ser o mínimo em 9 estações). De salientar, contudo, que duas estações, Setúbal e Fonte Boa - que atingiram este ano o mínimo - não estavam em funcionamento em 1945.

O ano de 1981 também continua a ser o mais seco em 7 estações (sobretudo localizadas no Alentejo e Beira Interior).

O ano de 1992 também continua a ser o mais seco em 4 estações (Évora, Portalegre, Alvega e Chouto)

Uma evidência que estes dados permitem retirar é a de que as precipitações baixas têm estado a registar-se com maior intensidade desde a década de 80: em 25 estações (57% do total), o valor extremo registou-se entre 1981 e 2005. No entanto, a década de 40 (particularmente os anos de 1945 e 1949) também foram bastante secos (seis estações ainda registam os recordes dos valores mínimos).

Ou seja, estamos muito longe de poder considerar esta situação inédita e é completamente estapafúrdio dizer, como o Instituto da Água defende, estarmos perante uma seca com períodos de retorno de 300 anos em algumas regiões.

O problema da seca não tem, como por vezes se confunde, apenas a ver com a precipitação, mas também - e por vezes sobretudo - com a gestão dos recursos hídricos. Comparar um período de reduzida precipitação em 1945 e em 2005 nem sequer faz muito sentido se quisermos comparar situações de seca. Isto porque, se por um lados, em 1945 não tinhamos os consumos de água que hoje temos, também é verdade que a capacidade de armazenamento da água em albufeiras era ínfima (a maioria das barragens somente começaram a ser construídas a partir da década de 50 do século passado).

Se esta seca tem alguma virtude é a de fazer repensar a estratégia do uso da água em Portugal. Não podemos continuar a pensar que o São Pedro há-de ser sempre benévolo e não fazer uma gestão prudente da água. Se a gestão dos recursos hídricos fosse feita partindo sempre do pressuposto de que no ano seguinte teriamos uma seca, provavelmente nunca mais sofreriamos os seus efeitos...

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