ESTRAGO DA NAÇÃO

5/17/2007

O pousio dos concelhos incendiáveis

Durante o Verão passado tinha já essa percepção, os dados da Direcção-Geral dos Recursos Florestais confirmam agora: os concelhos mais afectados pelos incêndios florestais no triénio mais destrutivo (2003-2005, em que ardeu cerca de 900 mil hectares) estiveram em pousio, enquanto que os concelhos que arderam mais em 2006 são, por regra, menos incendiáveis.

Veja-se, em concreto, a lista dos 10 concelhos que mais arderam (com a sua área afectada) e a posição que ocupavam no ranking da percentagem de área afectada no período 1990-2005 (num universo de 278 concelhos):

- Arcos de Valdevez - 6.323 hectares ardidos em 2006 - 130º mais ardido no período 1990-2005
- Estremoz - 4.616 hectares ardidos em 2006 - 272º mais ardido no período 1990-2005
- Porto de Mós - 3.479 hectares ardidos em 2006 - 93º mais ardido no período 1990-2005
- Barcelos - 2.779 hectares ardidos em 2006 - 183º mais ardido no período 1990-2005
- Melgaço - 2.214 hectares ardidos em 2006 - 127º mais ardido no período 1990-2005
- Paredes de Coura - 2.125 hectares ardidos em 2006 - 41º mais ardido no período 1990-2005
- Monção - 1.983 hectares ardidos em 2006 - 43º mais ardido no período 1990-2005
- Vieira do Minho - 1.697 hectares ardidos em 2006 - 64º mais ardido no período 1990-2005
- São Pedro do Sul - 1.446 hectares ardidos em 2006 - 37º mais ardido no período 1990-2005
10º - Ponte de Lima - 1.415 hectares ardidos em 2006 - 52º mais ardido no período 1990-2005

Ora, se os concelhos mais incendiáveis não arderam em 2006 e arderam sim os menos incendiáveis, então será imprudente concluir que houve melhorias na eficácia do combate. Pois se assim fosse seria suposto obterem-se até melhores resultados em concelhos menos incendiáveis. Na verdade, aquilo que se verificou no ano passado (e talvez se mantenha ainda este ano em algumas regiões) foi, para além das condições meteorológicas, o benefício da catástrofe - ou seja, as regiões mais afectadas nos anos de 2003, 2004 e 2005 ficaram em pousio face ao fogo, quer pelas área destruídas quer pela fragmentação das manchas florestais, que não permitiu que os fogos se propagassem para grandes áreas.

No entanto, os dados de 2006 mostram, mais uma vez, o problema do ciclo do fogo em Portugal. Por exemplo, veja-se o caso do concelho que mais ardeu no ano passado (Arcos de Valdevez). Embora aparentando ser pouco incendiável (em termos relativos, obviamente), já é a terceira vez que surge num top 10 anual desde 1981: foi 10º mais ardido em 1987 e 4º em 1993. Monção, por seu lado, já tinha tido outras três presenças no top 10 anual: em 1984 (7º), em 1996 (7º) e em 1997 (3º). E também Ponte de Lima já teve outras três presenças: em 1984 (10º), em 1989 (3º) e em 2003 (10º).

Significa isto que até mesmo os concelhos menos incendiáveis apresentam, numa menor dimensão, ciclos de fogos (isto é, longos anos de acalmia seguidos de um ano destrutivo). Este fenómeno é, obviamente, de maior escala em relação ao concelhos mais incendiáveis, pelo que o ano de 2006 não teve qualquer relevância. E será irresponsável concluir que o sistema de combate conseguiu, no ano passado, bons resultados. Na minha opinião, pelas análises que estou a fazer, muito pelo contrário...

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