9/15/2006

São Pedro, o nosso melhor bombeiro

Como se tem reparado, a chuva regressou nos últimos dias. E os incêndios, mais uma vez, pararam. Aliás, se existe algo de anormal neste Verão é a existência de chuva e não tanto de ondas de calor. Aliás, as pretensas cinco ondas de calor que foram referidas há cerca de uma semana no Diário de Notícias (ver aqui) são uma falácia, pois nem sequer se manifestaram em todo o país em simultâneo e, pelo menos uma delas, esteve associada a humidades relativas elevadas (as tais noites tropicais de Julho). Além disso, cinco ondas de calor pode bem ser menos gravoso em termos de risco de incêndio do que apenas uma. A questão da duração, distribuição e intensidade são factores muito mais importantes. Ou seja, uma única onda de calor, prolongada e a nível nacional pode ser mais desastrosa.

No entanto, como tem sido hábito este Verão, houve uma clara tentativa «oficial», seguida por muita imprensa, de fazer esquecer a chuva. O último relatório da Direcção-Geral dos Recursos Florestais (DGRF) ignora-a e mantém um índice de severidade meteorológico diário como único indicador de risco de incêndio, o que me parece, dadas as circunstâncias, muito pouco preciso em situações de pluviosidade. E por que razão isto aconteceu? Uma explicação mais bondosa (ou seja, sem qualquer interferência política): em Lisboa chouveu muito pouco - quase nada. E a imprensa julga que Lisboa é, em tudo, o reflexo do país.

Não é, em nada - e muito menos em meteorologia. Ora, eu fui dar uma rápida «olhadela» aos dados de precipitação (ver aqui) das redes de medição do Instituto da Água (os do Instituto de Meteorologia somente têm para as principais cidades) e confirmei a minha percepção: na generalidade do território, os meses de Junho, Julho e Agosto foram anormalmente chuvosos. E com variações muito grandes em relação à média. É certo que algumas zonas choveu abaixo da média no somatório dos três meses (como em Covilhã, menos 32%), mas é uma pequena minoria. E além disso - e muito importante -, os valores deste Verão, mesmo quando abaixo da média, são incomensuravelmente superiores aos registados em 2005 (ano de seca). Por exemplo, nestes três meses, na Covilhã choveu apenas 10 mm no ano passado; este ano chouveu 49 mm, ou seja, quase cinco vezes mais. Se confrontarmos com outras estações, as diferenças entre 2006 e 2005 são ainda maiores.

Mas comparando apenas com as médias, há de factos casos de muita, muita chuva neste presente Verão: por exemlo, temos acréscimos de pluviosidade de 320% em Barcelos, 246% em São Brás de Alportel, 146% em Abrantes, 85% em Vila Viçosa, 91% em Grândola, 61% em Pinhel, 43% em Vila Velha de Ródão, 37% em Castro Daire, etc., etc..

Individualizando os meses em que costuma arder (Julho e Agosto), as precipitações este ano chegaram a ser elevadíssimas em algumas zonas. Por exemplo, em Barcelos choveu 202,3 mm em Julho deste ano (quase 10 vezes a média do mês), um valor praticamente semelhante à média que se regista em Dezembro e Janeiro (os dois meses mais chuvosos do ano). Ou seja, em Agosto choveu 150,4 mm, sensivelmente cinco vezes mais que a média deste mês. Noutras regiões, o mês de Agosto foi também particularmente húmido, de norte a sul: por exemplo em São Brás de Alportel (24 mm este ano vs. 3 mm de média); Castro Daire (64 mm vs. 23 mm), Pinhel (22 mm vs. 11 mm).

Fazer uma análise mais detalhada - comparando todas as estações com o ano passado ou 2003 - seria muito moroso, mas estes exemplos mostram bem que não só não estivemos em seca (como aconteceu em 2003 e 2005), como pelo contrário foi um Verão anormalmente chuvoso, ainda mais com uma concentração em poucos dias (embora distribuídas, por regra, em todos os três meses), que «encharcou» vegetação e solo por muitos e longos dias. E portanto o São Pedro «travou» muito o risco de incêndio.

O Verão de 2006 parece-me, aliás, muito semelhante em termos de pluviosidade com o ano de 1997, em que ardeu apenas 30 mil hectares. Mas um trabalho mais aprofundado, espero, deveria ser feito pelo Instituto de Meteorologia. Fico a agurdar...

Nota: Espero, sinceramente, que o Instituto da Água não venha dizer que os dados não estão validados, como o fez em relação aos caudais afluentes ao Alqueva.
Um pouco de humor

Através do Pedro Macedo, do Bravos do Mindelo, esta pequena nota de humor em torno de «Uma Verdade Inconveniente»

P.S. Não sei como se mete directamente o youtube aqui. Se alguém me souber dar indicações, a gerência agradece.

9/13/2006

Uma verdade inconveniente

A pretexto da estreia em Portugal do documentário «Uma Verdade Inconveniente», coloquei no Reportagens Ambientais um artigo que escrevi na NS, em Julho, sobre Al Gore. Podem consultar aqui.

Voltarei ao tema, entretanto.
Os incendiários de Portugal

Hoje o Público faz manchete com a falta de aplicação de um plano de prevenção contra os fogos no Parque Nacional da Penda-Gerês, a pretexto de uma visita de deputados da Comissão Eventual àquela área protegida. O texto da jornalista Mariana Oliveira acaba assim:

«No encontro, falou-se de negligência, mas foram muitos os elementos da comitiva, desde deputados a representantes do comando distrital de operações de socorro, que se esqueceram de que, neste período, é proibido fumar nas áreas florestais. Houve até um deputado que atirou uma beata ao chão sem a apagar».

Palavras para quê, é o Portugal no seu pior. De facto, os incêndios são causados pelos incendiários. E aqueles senhores são, obviamente, incendiários.

P.S. A jornalista deveria ter divulgados os nomes. Seria serviço público. E já agora convinha saber se, na comitiva, estava algum elemento do SEPNA (GNR) para elaborar os devidos autos de notícia e aplicar as convenientes contra-ordenações. Isso sim seria exemplar.
O Algarve está salvo

Vila Nova de Cancela, no Algarve tinha, em 2001, cerca de 3500 habitantes e quatro mil casas. Admitindo ao Diário de Notícias (vd. aqui) que esta freguesia do concelho de Vila Real de Santo António «tem crescido desordenadamente ao longo dos anos, devido à pressão imobiliária», o presidente da autarquia diz que esta zona «necessita urgentemente de requalificar-se» E como? Pois então, com «três grandes empreendimentos turísticos, num total de 6100 camas e quatro campos de golfe».

Mas fiquemos todos descansados: o autarca assegura que «os erros urbanísticos do passado não voltarão a ser cometidos, já que todas as propostas privilegiam o enquadramento paisagístico e o equilíbrio ambiental», apontando para «índices muitíssimo baixos de construção» e que a qualidade está comprovada pela contratação de «dois conceituados urbanistas». Portanto, com esta melodiosa música de «violino de Chopin», podemos dormir sem percalços...
Uma dúvida

Se isto for verdade, são as raias ou os homens os seres irracionais?
Pinho, o poluidor

Um dia antes de ameaçar a Iberdrola de pedir uma indeminização pelo atraso no concurso de atribuição de potência eólica - alegando que Portugal tem prejuízos entre 2,8 e 3,8 milhões de euros relativos a emissões de CO2 por cada mês de atraso (vd. aqui)-, o ministro da Economia foi apanhado a 212 km/h na auto-estrada. Livrou-se da multa, mas o seu pópó descarregou uma dose suplementar de CO2. De certeza que não ouviu a sugestão do Ministério do Ambiente para andar apenas a 118 km/h...
Um ponto final

Eu prometi e vou cumprir. Estas linhas apenas servem para garantir ao João Morgado Fernandes que se não o considerasse um bom jornalista, nem me daria ao trabalho de rebater as teses que ele apresentou. Apontei os erros e justifiquei-os. Se ele considera os meus argumentos úteis ou inúteis, já não me interessa - nem ele tem de tomar posição sobre isso. Caso encerrado, portanto.

9/12/2006

O que é a eficácia? (com adenda)

Um exemplo de falta de eficácia e estratégia na vigilância, na primeira intervenção e no combate é um fogo eclodir às 13h30 numa região em que no pico da tarde a temperatura não ultrapassou os 22 graus e a humidade relativa foi sempre superior a 70%, e que, apesar da ajuda de dois Canadair, ainda lavra ao fim de mais de seis horas e meia (escrito às 20h00). Local: Arcos de Valdevez, no distrito de Viana do Castelo, a região do país que este ano manifesta o pior desempenho.

P.S. No intervalo do jogo do Sporting-Inter (cerca das 20h30), este fogo ainda estava não circunscrito. Às 22h00 está extinto. Não sei se por ter chovido, mas certo é que pelo que vi num site de meteorologia, às 20h30 estava uma humidade relativa de 100% em Viana do Castelo. Se não estava a chover, é como se estivesse...
O jornalismo do senso comum... e os seus despistamentos (take IV)

A polémica - chamemos-lhe já assim, porque não a vejo em sentido depreciativo -, com mais um novo capítulo, entre mim e o João Morgado Fernandes, do French Kissin', mostra sobretudo dois conceitos distintos de abordagem e análise jornalística, que extravasa a simples discussão em torno da questão da eficácia de combate aos incêndios florestais.

O meu conceito de jornalismo - apelidado, por ele, de «futurologia científica» -, que admito seja minoritário na imprensa portuguesa, baseia-se em análises não conjunturais e não imediatistas, usando tendências e dados objectivos para se chegar a uma conclusão. E se assim for necessário, munindo-me de «catadupas de números, relatórios e estatísticas» - simplificandos-os, claro está, o que aliás julgo ter sempre conseguido nas centenas de artigos que publiquei na imprensa como jornalista. Isto, malgrado eles serem de tão pouco agrado entre os pares e «chatos» de digerir pelas entidades analisadas, por serem objectivos.

É por isso que, contrapondo-me a análise baseadas en comparações simplistas - que aparenta revelar uma melhoria significativa na área ardida (menos 1/5 em relação ao ano passado) -, eu defendo que isso pouco significado tem, porque diversos indicadores objectivos mostram que as deficiências se mantêm. Tal como um ano frio nada inverteria a tendência de aquecimento global, porque sabemos (a comunidade científica, pelo menos) que esse ano nada representa se nada se modificou de estrutural. Ou seja, este ano de incêndios não quebra qualquer tendência (pelas razões de que a floresta não é nenhuma fénix renascida) e, além do mais, nem sequer é um valor excepcional em relação às estatísticas da última década (e nem quero recuar mais anos).

O outro conceito de jornalismo - que me parece ser o do JMF e que acredito ser largamente maioritário na imprensa portuguesa -, baseia-se numa metodologia mais pragmática, não se preocupa «com catadupas de números, relatórios e estatísticas» ou se os usa é com a máxima parcimónia, muitas vezes indicados por conhecidos e sem perder tempo confirmá-los. Por isso, muitas vezes, este jornalismo é «rápido». Num abrir e fechar de olhos faz um artigo, um editorial, o que quer que seja. Em suma, este tipo de jornalismo usa o senso comum - que acredito seja o que tem maior sucesso junto do público, porque facilmente as pessoas chegam à conclusão que os respectivos «sensos comuns», de que são dotadas, até está correcto. Os mitos alimentam-se dessa «massa» - e o jornalismo é, infelizmente, um dos seus principais «restaurantes».

Aliás, JMF acabou por transmitir mais um mito, porque não quis usar «catadupas de números, relatórios e estatísticas». Com efeito, diz ele que «mais precisamente: a Galiza costuma representar cerca de metade do total de área ardida em Espanha». É assim mesmo? Bom, sim, se se considerar que «cerca de metade» é 21,2% (chatice, este é o valor indicado pelas estatísticas disponíveis num site do Ministério do Ambiente de Espanha para o período 2000-2004 - a«coisa» faz-se somando as áreas ardidas na Galiza, divide-se pela área total ardida em Espanha e multiplica-se depois por 100...).*

E, embora eu não perceba bem o que ele quer dizer quando diz «a Galiza, por mais voltas que se dê (temperaturas, humidade...), não é comparável com uma das nossas áreas mais martirizada todos os anos, a zona Centro», imagino que ele queira dizer que a Galiza arde mais do que as zonas mais martirizadas de Portugal. Se é isso que ele pretendia transmitir, transmitiu mais um mito...

Eu que tenho o horrível defeito de, para além de fazer «futurologia científica», usar «catadupas de números, relatórios e estatísticas», fui ver - oh heresia! - a percentagem de território afectado pelos incêndios na Galiza desde os anos 90. Resultado: não chega aos 14% da sua superfície total. E em Portugal, quanto território ardeu nesse período? 25,5%! Ou seja, quase o dobro. E quais os ditritos portugueses que foram menos afectados que a Galiza? Apenas quatro: Évora, Beja, Lisboa e Portalegre (embora este já se aproxime, por causa do desastre de 2003). E como foram afectados os distritos minhotos - Viana do Castelo e Braga - com clima semelhante à Galiza? Pois bem (ou mal), a afectação foi de 48,5% e 28,5%, respectivamente. Aliás, ao contrário do que se pensa, o distrito de Viana do Castelo é um dos mais flagelados do país: em termos territoriais é o segundo, apenas atrás da Guarda. E não estou a entrar com os valores deste ano.

Pois é, quando se usam «catadupas de números, relatórios e estatísticas» descobre-se uma realidade que o jornalismo pragmático não alcança usando o senso comum... O meu jornalismo é «chato» e vai contra o senso comum? Provavelmente sim, mas a verdade por vezes é «chata», por muito que o senso comum não goste dela...

P.S. O jornalismo «pragmático» tem mais uma vantagem suplementar: é sempre mais conciso e não se perde muito tempo. Eu para rebater os erros de JMF gastei mais de meia hora (em consultas e escrita). Ele gastará meio minuto. É outro problema do jornalismo: tudo já se resume a frases curtas, simples. Mesmo que a percentagem de erros seja elevadíssima. Escrever pouco deveria exigir um rigor reforçado.

P.P.S. Por mim, esta discussão termina, se o João Morgado Fernandes também o desejar. Porém, isto não significa que ele não possa responder, se assim o desejar (nem isso seria concebível). Apenas deixo esta nota, porque já não vale a pena perpetuar uma discussão onde, claramente, o que se destaca é a existência de duas perspectivas de jornalismo quase antagónicas. A polémica focou-se nos incêndios, mas aplicar-se-ia em muitos outros assuntos.

* Gostaria de usar os dados definitivos de 2005, mas eles não os têm ainda disponíveis (e por isso, não especulo). Mas é certo que este ano mais de metade da área ardida em Espanha foi na Galiza, sendo porém uma situação anormal . Contudo, mesmo com este ano, para o último decénio, a Galiza terá contribuído com não mais de 1/4 do total de Espanha. Ou seja, muito longe de «cerca de metade».
Todos os dias se aprende (take III)

O João Morgado Fernandes (JMF), no French Kissin', decidiu, e ainda bem, responder ao meu post de ontem. Confesso que me escapa o seu raciocínio da primeira parte do post, porque se estatisticamente é verdade que ardeu 1/5 do ano passado, aquilo que tenho reiteradamente dito é que, mesmo assim, os valores são medíocres, incluindo a eficácia do combate. E que já tivemos anos semelhantes (ou até melhores) antes da catástrofe absoluta de 2003 e 2005. E que, pelas análises que faço, a situação deste ano não augura nada de bom para o futuro.

Porém, em relação à segunda parte do seu post, fiquei a «aprender» algumas coisas. Diz JMF - ressalvando o meu sentido de humor - que confrontando a situação portuguesa com a espanhola, eu comparo o «incomparável», dado que «em Espanha, a única região que é comparável com Portugal é a Galiza - o resto, ora é meseta desértica (floresta, onde?), ora é mediterrânica, ora é zona dos Pirinéus, de características completamente diferentes das nossas».

Ora, depois de ler isto, conclui que andei a ter visões quando visitei a Espanha. Por isso, peguei em alguns livros da área da floresta e... queimei-os à noite, pela fresca e em cimento - para não provocar incêndios florestais. Depois, socorri-me de alguns conhecimentos de informática e tentei «liquidar» as páginas do Eurostat (aqui) e do Ministério do Ambiente de Espanha (aqui) que «insistem» em impingir-nos que a Espanha até tem maior percentagem de área florestal (em relação ao total do seu território e, obviamente, em termos absolutos) do que Portugal. E obriguei-me a escrever 500 vezes «Portugal é o país mais florestado da Europa», apesar dos dados da União Europeia dizerem que ocupamos 2,8% da UE-25, mas a nossa área florestal (que inclui os matos) representa 2,2% do total.

Mas ainda tomei mais medidas ao reflectir nas sábias palavras de JMF, que escreveu que «a Galiza (...) toda ela coberta de floresta de crescimento rápido, em continuo [tem] uma vantagem enorme face a Portugal - o clima: temperaturas mais amenas, humidade mais elevada». De facto, a Galiza tem 66% da sua superfície com floresta (OK, não é toda, mas sempre é mais do que qualquer distrito português*), mas esse é um pormenor... que até vai contra o que JMF defende, pois quanto mais floresta, mais pode arder em termos absolutos, mesmo que em termos relativos arda menos

(Adenda 1: já agora, é bem feita: quem os mandou, aos galegos, ter tanta floresta? Assim têm maior risco de ela arder! Deveriam ter feito como no Minho que, em 1995, tinha cerca de 1/3 do seu território arborizado... assim não pode nunca arder tanto. Agora a sério: se então considerássemos, não a área territorial, mas sim a àrea florestal afectada, então a situação do Minho este ano, em termos percentuais, ainda pioraria mais comparativamente à Galiza... isto é uma questão de saber usar correctamente a estatística)
. (adenda
(Adenda 2: e se comparei Galiza com Minho foi por terem climas idênticos. Eu podia ter comparado Andaluzia com Portugal - quase do mesmo tamanho e com a mesma percentagem de área florestal. Mas, neste caso, estamoa a ser injusto com os andaluzes que têm um clima mais quente e seco do que a média em Portugal. E para Portugal seria uma vergonha, porque arde para aí uma s25 vezes mais...).

Assim, face ao meus «heréticos erros» de climatologia, abjurei e criei uma «Real Mesa Censória», decretando que uma série de livros de climatologia e meteorologia fossem imediatamente, sem apelo nem agravo, para o Index Librorium Proibitorium. Não é que os «sacanas» desses livros mostravam que o clima da Galiza (nas provícnias que arderam: Corunha, Pontevedra e Ourense) e do Minho (distritos de Braga e Viana do Castelo, que se têm fartado de arder, inclusive este ano) é igualzinho?! Ou que entre a Andaluzia (com muita, muita floresta) e o Alentejo e Algarve (quanta floresta tem o Algarve agora?) o clima é também praticamente igualzinho?! E, enfim, poderia continuar...

Ainda estive para «boicotar» informaticamente os dados climatológicas que se encontravam no nosso Instituto de Meteorologia (ver aqui, a figura 4, por exemplo) e no dos espanhóis (ver aqui, carreguem depois na barra da climatologia e pesquisem), que continuam a mostrar essas semelhanças (em média, nos meses de Verão, chove entre 100 e 200 milimetros; durante o ano supera os mil milímetros e há zonas serranas, tanto na Galiza como no Minho, que ultrapassam os dois mil), mas desisti. Fui-me deitar. Que continuem eles a divulgar erros, que o João Morgado Fernandes nos mostrará a verdade. Sem um só número, mas é a verdade...

P.S. A «culpa» do tom deste post é do próprio JMF (que espero tenha fair-play), por ter referido que o «PAV mantém o sentido de humor». Quis mantê-lo...


* - Em 1996 (último inventário florestal), os distritos de Aveiro, Coimbra e Setúbal eram os três mais florestados com 48%, 47% e 51%. Claro que, sobretudo os dois primeiros, têm agora muito menos. De acordo com as minhas estimativas (com base em dados oficiais), Aveiro terá agora entre 35% e 42%, enquanto que Coimbra andará entre 30% e 39%. Setúbal teve um decréscimo mais reduzido: no máximo 3 pontos percentuais.
Entrevista ao Jornal Fórum (da região de Vale do Sousa)

Para quem estiver interessado, clicar aqui e aqui, sobre o livro «Portugal: O Vermelho e o Negro».

9/11/2006

Acabaram-se os comentários... e nova cara

Como nos últimos tempos começaram a aumentar os comentários anónimos e, hoje, surgiram insultos, decidi pura e simplesmente eliminar essa opção.

Quem quiser comentar os posts, ou mesmo insultar-me, esteja à-vontade. Mas faça-o em privado. Assim, basta enviar o dito cujo comentário para a minha caixa de correio, clicando aqui ao lado. Não é opção que particularmente me agrade, porque retira a interactividade ao blog - mas é a vida, como diria o outro.

P.S. Neste processo de eliminação dos comentários, baralhei-me e o blog ficou «marado». Há males que vêm por bem. Criei um novo modelo, que agora permite os «permanent links» (além de possibilitar o envio de posts por e-mail e de elencar os mais recentes), uma das lacunas que o anterior possuía. Nos próximos tempos, se tiver paciência, faço pequenas alterações, pois acho que o modelo colocou os textos muito estreitos.
OK, pronto, estou a polemicar (take II)

Para mim é sempre um acto ingrato reagir ao escrito de alguém que assegura não desejar entrar em polémica comigo. Sobretudo se, por outras razões que não vêm ao caso, arrisco a que essa pessoa pense que existem outros motivos sombrios. Longe de ser este o caso. Mas como jamais tive receio de polemizar, vejo-me obrigado a reagir ao post do João Morgado Fernandes (JMF) no French Kissin'. Até porque tenho a certeza absoluta que, neste caso, a polémica será útil e ele a aceitará de bom grado (não sendo, contudo, necessário responder). Útil para ele (assim espero) e útil para mim, porque poderia dar-se o caso de eu até estar a fazer juízos preconceituosos. Por isso, o editorial do DN do passado dia 7 foi-me útil porque me «obrigou» a proceder a análises ainda mais rigorosas.

Diz JMF que «obviamente, há mil e uma maneiras de fazer contas e todas dão certo». Tem razão. Isso é verdade, se não se errar nos números. E se se fizerem contas adequadas. Com efeito, JMF sustenta a alegada eficácia do Governo apenas com duas contas: compara este ano (que ainda não terminou) com o ano passado e com a média dos cinco anos. Comparar um ano com o anterior é uma aberração estatística em matéria florestal. Comparar com a média dos últimos cinco anos é outra, tanto mais porque qualquer Governo se arricava - perante o desastre do último quinquénio - a ter um valor muito abaixo da média se chovesse durante o Verão, como aconteceu em três períodos distintos (Junho, Julho e Agosto; e parece que vem aí mais nos próximos dias...). O problema é que a média já é um desastre. E metade da média continua a ser um desastre. Se alguém perguntar a um especialista independente quantos hectares «suporta» a nossa floresta para ser rentável, ele diria 40 mil ou 50 mil. O Porter, já uma década, falou em 40 mil - todos já se esqueceram.

Ora, mas o que fiz eu? Uma conta, duas contas? Não, fiz muitas. E nenhuma simplista. E contas «a seu gosto»? Não, pelo contrário, o Governo é que infeizmente se desunha a fazê-las. Lembrarm-se dos mais de 500 fogos por dia na primeira quinzena de Agosto? pois eliam agora o relatório oficial da DGRF: fizeram uma correcção dos números, o que significa que não tivemos 500 fogos coisíssima nenhuma.

Mas eu possso fazer mais contas; usar todos os dados e mais alguns. E todas levarão ao contrário do que JMF defende. E eu até «renegaria» a todas elas se houvesse alguém que me apresentasse uma conta que não fosse enviesada e que demonstrasse de forma inequívoca e sem «malabarismos» estatísticos que a eficácia é boa. Se eu «tenho os livros», como diz JMF, não os escondo; pelo contrário, publico-os...

Mas, mesmo assim, «obrigo-me» a mais um esforço para mostrar a «eficácia» do Governo. E até me ponho a fazer o papel de advogado do diabo. Assim, agora não quero saber dos 900 mil hectares ardidos nos últimos anos que colocaram em «pousio» muitas zonas críticas. Nem quero saber da chuva deste Verão que está a ser um dos mais húmidos das duas últimas décadas. Desconte-se tudo isto: imaginemos que teve sempre um calor de rachar e não caiu uma pinga sequer de água. E que Portugal tem agora 3,3 milhões de hectares que poderiam ter ardido este ano (valores do Inventário Florestal de 1995).

Pois bem, mesmo assim, com 61 mil hectares (e estou a ser bondoso, mais uma vez, porque estimo que já se vá nos 80 mil hectares), objectivamente continuamos a ter uma eficácia muito medíocre no combate aos incêndios. E por que digo isto? Porque se quisermos comparar, por exemplo, com Espanha - cuja imprensa não está propriamente a elogiar o Governo em relação aos incêndios deste Verão -, objectivamente verifica-se que a situação portuguesa é, apesar de tudo, muito pior.

Com efeito, até 3 de Setembro, em Espanha arderam cerca de 136 mil hectares, enquanto em Portugal arderam 61 mil hectares (até 31 de Agosto). Ora, como a Espanha é cerca de 5,6 vezes o tamanho de Portugal, significa que a área ardida no nosso país (61 mil) equivaleria a quase 342 mil hectares em território espanhol. Alguém imagina um editorial do El País, por exemplo, a elogiar a eficácia do combate em Espanha se lhes tivessem ardido 342 mil hectares(mais do dobro do pior ano deles da última década)? Na verdade, se qualquer jornal em Portugal fosse tão crítico como os jornais espanhóis em relação aos resultados deste ano em Espanha, já deveria ter começado a zurzir no nosso Governo há muito tempo (136 mil hectares em Espanha representam 24 mil hectares em Portugal).

Mas para que não se venha com a questão de que uma coisa é o território, outra a área florestal, apresentemos a dita «coisa» noutra perspectiva. Se consideramos que a área florestal (floresta e matos) em Portugal é de 3,3 milhões de hectares (estou a ser bondoso, mais uma vez, usando a área total do último Inventário Florestal, de 1995 - e portanto «meto» as áreas ardidas nos últimos três anos e que agora não podem arder), então 61 mil hectares queimados representam uma afectação de 1,8% do território português. Em Espanha (vd. aqui), eles estão este ano com uma afectação de 0,5% do seu território - grosso modo, uma taxa semelhante à deflorestação da Amazónia.

Ou seja, mesmo com a «eficácia» do Governo português, ardeu três vezes mais do que em Espanha, onde a ineficácia foi particularmente evidente na Galiza. Aliás, neste aspecto, como se pode ficar satisfeito com a «eficácia» em Portugal se nos dois distritos minhotos (Viana do Castelo e Braga) ardeu 5% do seu território, enquanto os fogos da Galiza causaram uma destruição de 3% da área da Comunidade Autonómica?

Enfim, estranho país o nosso em matéria de incêndios: algo que na Espanha é mau, em Portugal transforma-se em bom, mesmo se esse bom português é três vezes pior do que o mau espanhol.

Mas há mais análises a fazer. Este ano, como se sabe, está a ser terrível em Espanha em termos de incêndios de grandes dimensões (superiores a 500 hectares). Por norma, eles tiveram uma média de 22 por ano na última década e este ano já vão em 52. Portanto, a situação em Espanha não pode ser considerada nada boa. Porém, em Portugal houve já 17, o que em termos proporcionais (de território) seria o mesmo que Espanha ter tido 95 incêndios com mais de 500 hectares. Ora, o que diria, por exemplo, um editorial do El País se este ano a Espanha tivesse 95 incêndios daquela dimensão?

Quando também critico o Governo socialista - e apelo à memória dos jornalistas - é porque, em 1999, o então Governo liderado pelo António Guterres (e onde estavam muitos dos actuais governantes) aprovou o Plano de Desenvolvimento Sustentável da Floresta Portuguesa. E esse plano tinha metas muito concretas - por exemplo, no período 2003-2008 deveria arder cerca de 40 mil hectares em média por ano -, mas que foram abandonadas quer pelo Governo PSD/PP quer pelo novo do PS. E em seu lugar o Governo actual colocou agora uma meta de 100 mil hectares. Ou seja, há meia dúzia de anos, um Governo socialista consideraria 61 mil hectares mau, agora já considera bom.

P.S. E eu estou aqui a referir que ardeu 61 mil hectares, mas o valor actual deverá atingir os 80 mil, pelas razões que já expliquei em anteriores posts.

Nota: Em abono da verdade, o meu post «Um exercício de memória para avaliar António Costa» foi uma «provocação» para fazer de contraponto aos exagerados elogios ao ministro da Administração Interna. No meu livro não fiz qualquer análise deste tipo, porque não faz qualquer sentido. Não há nenhum Governo que se destaque pela positiva, todos contribuíram para o desastre que se agudizou nos últimos anos. O único Governo que me merecerá elogios será aquele que retirar, em definitivo, o combate aos incêndios florestais aos bombeiros voluntários e partir para uma profissionalização (e responsabilização) deste sector. Porque perante o actual «sistema», um ministro da Administração Interna estará sempre dependente da sorte ou do azar. António Costa é talvez o único ministro que terá compreendido isso, pelo sinais que tem mostrado. Mas de boas intenções está a nossa floresta num constante inferno.

9/09/2006

Uma exemplar reportagem

O Correio da Manhã publicou hoje uma excelente reportagem de quatro páginas sobre o incêndio do Parque Nacional da Peneda-Gerês, com várias abordagens muito interessantes. Para mim, a melhor reportagem do ano sobre esta matéria: lúcida, equilibrada, pertinente e independente. O jornalista Secundino Cunha está de parabéns. E o Correio da Manhã, claro, também.

Deixo aqui uma passagem que sintetiza bem dois problemas crónicos em Portugal: a impreparação no combate e a «menorização» que, por regra, as autoridades oficiais - e muitos biólogos - transmitem em relação ao impactes do fogo nas áreas protegidas, considerando que a regeneração natural tudo irá repor:

«Para o homem que liderou esta freguesia serrana ao longo de 24 anos, 'os comandos cometeram dois erros crassos: em primeiro lugar, depreciaram o incêndio antes de ter entrado no Parque e quando acordaram já era tarde demais; e, em segundo lugar, atiraram para o terreno bombeiros vindos de Lisboa, de Leiria e de outros lados que, naturalmente, não sabiam para onde se haviam de virar'. Numa frase, António Enes Domingues resumiu o que vai na alma deste povo: 'Os nossos olhos já não voltam a ver toda a beleza da serra'».
Um exercício de memória para avaliar António Costa (take I)

No passado dia 7, João Morgado Fernandes (JMF) escreveu no editorial do Diário de Notícias, algo que faz todo o sentido: «(...) em Portugal, a generalidade dos protagonistas do espaço mediático joga permanentemente na falta de memória das pessoas. Não são apenas os políticos a esquecerem-se das promessas que fazem, são igualmente os comentadores e outros frequentadores dos media que, com grande à-vontade e por vezes até algum brilhantismo, dizem e contradizem tudo e mais alguma coisa».

No balanço que ele fez (ainda sem o ano acabar) refere que «os agentes com responsabilidade no combate às chamas estão de parabéns, a começar pelo Governo, que definiu novas estratégias de combate e reorganizou e reequipou o sector». Vejamos se a própria memória não terá traído JMF ou se são os «outros» - no lote dos quais me incluo e que critica a «propaganda» do actual Ministério da Administração Interna - que estão errados.

Por isso, fui fazer um pequeno exercício de rememorização, para ver se o actual ministro da Administração Interna tem assim tantos motivos para sorrir e mais merecer rasgados elogios. Ou seja, mesmo no seio do Partido Socialista, António Costa será um «fora de série», devendo nós prestar-lhe os reverentes agradecimentos por o país arder «tão pouco» este Verão? E se assim é, o povo não estará a ser ingrato, devendo assim, em massa, congratular-se efusivamente pela graça de ser administrado por este Governo que nos livra da desgraça dos fogos?

Fui ver então nos últimos 25 anos, o «desempenho» dos diversos ministros da Administração Interna que, durante o Verão, estiveram em funções num Governo socialista. Atenção, não quis comparar Governos do PS com Governos do PSD. Quis saber apenas se o actual ministro António Costa está a obter melhores resultados do que os seus antecessores também socialistas.
Pois bem, nos 10 Governo formados, desde 1983, pelo Partido Socialista (incluindo os do Bloco Central na primeira metade dos anos 80), houve apenas seis ministros que tiveram que «tratar» dos fogos no Verão: Eduardo Pereira (1983 e 1984), Alberto Costa (1996 e 1997), Jorge Coelho (1998 e 1999), Fernando Gomes (2000), Severiano Teixeira (2001) e António Costa (2005 e 2006).

Convém referir que Eduardo Pereira foi ministro da Administração Interna ainda até 12 de Julho de 1985; a partir dessa data o Governo mudou para o PSD. E Fernando Gomes não terminou todo o Verão de 2000, tendo sido substituído por Severiano Teixeira em 14 de Setembro.

E os resultados são os seguintes, em relação à área ardida para o ano completo (do melhor para o pior)

1º - Alberto Costa (1997) - 30.535 hectares
2º - Eduardo Pereira (1983) - 47.812 hectares
3º - Eduardo Pereira (1984) - 52.713 hectares
4º - António Costa (2006) - 61.000 hectares (valor indicado pela UE até 31 de Agosto; estimo, contudo, que o valor actual atinja já cerca de 80 mil hectares)
5º - Jorge Coelho (1999) - 70.613 hectares
6º - Alberto Costa (1996) - 88.867 hectares
7º - Severiano Teixeira (2001) - 112.158 hectares
8º - Jorge Coelho (1998) - 158.369 hectares
9º - Fernando Gomes (2000) - 159.604 hectares
10º - António Costa (2005) - 325.226 hectares

Ou seja, o ministro António Costa acabará, muito provavelmente, o seu segundo ano de desempenho ministerial na Administração Interna com um «honroso» 5º (este ano, na melhor das hipóteses, tendo em conta as actualizações na área ardida) e um 10º lugar (em 2005, o pior ano dos Governos socialistas). Se ainda comparamos a «perfomance» global apenas dos ministros socialistas que tiveram dois anos na Administração Interna, temos o seguinte balanço:

Eduardo Pereira - 100.525 hectares
Alberto Costa - 119.402 hectares
Jorge Coelho - 228.982 hectares
António Costa - 386.226 hectares (o ano de 2006 apenas com dados até 31 de Agosto)

Os resultados são tão evidentes que nem merecem mais comentários. Mas o seu actual colega da Justiça (Alberto Costa) deve estar a questionar-se por que razão não teve, há uma década (quando era ministro da Administração Interna), tantos elogios como os que tem agora António Costa...

Nota 1: Prometo fazer, quando tiver tempo, um «ranking» de todos os ministros da Administração Interna, incluindo portanto os do PSD...

9/08/2006

Balanço dos fogos II - uma proposta de avaliação

Fazer uma avaliação objectiva do desempenho das operações de combate é sempre uma tarefa complicada em Portugal. Por um lado, porque não existem dados muito fiáveis; por outro, não estão defindidos objectivos que permitam depois saber se esses desempenhos são bons ou maus.

Por isso, vemos o clima de euforia do Governo e até de alguns sectores da comunicação social face aos valores provisórios da área ardida (57.994 hectares). Este valor é bom? Se compararmos com o ano passado, claro: ardeu cinco vezes menos. Mas se compararmos 2004 com 2003 também verificamos que ardeu quatro vezes menos. E se compraramos 2003 com 1997 ardeu ardeu 14 vezes mais. E se compararmos este ano com um qualquer ano anterior da década de 60 ardeu seis vezes mais, pelo menos. Enfim, as estatísticas comparativas são o que são - albarda-se o burro à vontade do dono.

Por isso mesmo, decidi fazer uma fazer uma tentativa para definir critérios simples e objectivos para, de uma forma expedita, avaliar o desempenho distrital do combate ao incêndios.

Os critérios que utilizei foram os seguintes:

A - Área de afectação por distrito em relação ao período 1997-2005

Comparei a área ardida este ano em cada distrito com o de cada ano inteiro do período 1996-2005, hierarquizando de 1º até ao 10º lugar. Se este ano fosse o pior (1º em área ardida) teria 10 pontos, se fosse o segundo pior (2º em área ardida) teria 9 pontos e assim sucessivamente até ao melhor ano (10º em área ardida) em que se atribuiria 1 ponto. Este critério tem um factor de ponderação de 2 no índice total.

B - Percentagem de incêndios (área ardida superior a um hectare) que ultrapassaram os 100 hectares

Calculando este indicador a nível distrital, comparou-se cada valor distrital com a média nacional (3,2%). A pontuação atrbuída a cada distrito foi feita em função do desvio em relação à média, da seguinte forma:

0,0% - 0 pontos
0,1%-2,4% - 1 ponto
2,5%-3,2% - 2 pontos
3,3%-4,0% - 3 pontos
4,1%-4,8% - 4 pontos
> 4,9% - 5 pontos


Este critério tem um factor de ponderação de 2 no índice total.

A percentagem obtida para cada distrito (até 31 de Agosto) foram os seguintes (entre parêntesis estão os valores, respectivamente dos incêndios com mais de 100 hectares e a totalidade dos incêndios):

Aveiro - 2,1% (2/93)
Beja - 5,6% (1/18)
Braga - 3,8% (18/476)
Bragança - 5,1% (5/99)
Castelo Branco - 3,7% (3/81)
Coimbra - 2,2% (2/92)
Évora - 9,3% (4/43)
Faro - 0,0% (0/47)
Guarda - 5,1% (8/157)
Leiria - 3,3% (2/60)
Lisboa - 0,0% (0/166)
Portalegre - 4,3% (1/23)
Porto - 1,5% (7/476)
Santarém - 6,3% (6/95)
Setúbal - 4,8% (4/84)
Viana do Castelo - 5,1% (17/335)
Vila Real - 1,9% (5/269)
Viseu - 2,5% (7/283)


C - Número de incêndios com mais de 500 hectares, até 1.000 hectares

Por cada incêndio desta dimensão atribuiu-se 5 pontos. Os distritos que registaram incêndios (até 31 de Agosto) desta dimensão foram os seguintes:

Braga - 2
Évora - 1
Guarda - 1
Porto - 2
Viana do Castelo 4


Este critério tem um factor de ponderação de 1 no índice total.

D - Número de incêndios com mais de 1.000 hectares

Por cada incêndio atribuiu-se 10 pontos. Os distritos que registaram incêndios desta dimensão (até 31 de Agosto) foram os seguintes:

Braga - 1
Évora - 1
Viseu - 2


Este critério tem um factor de ponderação de 1 no índice total.

Deste modo, o índice total de desempenho é calculado da seguinte forma:

ID = 2A + 2B + 1C + 1D

Abaixo apresenta-se o quadro com os resultados finais até 31 de Agosto:

Distritos A B C D Total
Viana do Castelo 16 10 20 20 66
Évora 18 10 10 5 43
Braga 16 6 10 10 42
Viseu 4 4 20 0 28
Porto 10 2 0 10 22
Setúbal 14 8 0 0 22
Beja 8 10 0 0 18
Portalegre 10 8 0 0 18
Guarda 2 10 0 5 17
Santarém 6 10 0 0 16
Bragança 2 10 0 0 12
Aveiro 8 2 0 0 10
Castelo Branco 4 6 0 0 10
Leiria 4 6 0 0 10
Coimbra 4 2 0 0 6
Faro 2 0 0 0 2
Lisboa 2 0 0 0 2

Esta avaliação parece permitir concluir a existência de profundas diferenças de desempenho a nível distrital, como se constata pelos valores total do índice. Ou seja, há «oitos» e «oitentas». Há distritos com bons resultados e outros que estão numa desgraça.

Com efeito, este ano está a ser um desastre nos distritos de Viana do Castelo, Braga e Évora. Nos dois primeiros distritos, este ano já será, pelo menos, o terceiro pior da última década e em Évora será, pelo menos, o segundo pior. Acresce que estes distritos são, além de Viseu, os únicos onde se registaram já incêndios com mais de mil hectares. Os dois distritos do Minho têm, aliás, desempenhos piores do que a Galiza. De facto, em território galego, os terríveis incêndios deste Verão afectaram cerca de 3% da sua superfície total. Nos dois distritos minhotos já se vai em 5%. Aliás, os três piores distritos contribuiram em 54% para o total da área ardida do país.

No entanto, não há só más notícias. Em três distritos (Lisboa, Faro e Guarda), o ano de 2005 está a ser o mais calmo da última década. E em 14 dos 18 distritos, este ano nem sequer aparece (por agora, saliente-se) nos cinco piores anos da última década. Porém, Lisboa nunca foi distrito que ardesse muito e os outros dois distritos foram bastante flagelados nos últimos três anos. Em todo o caso, a generalidade dos distritos está a ter um ano calmo, em alguns casos devendo-se às condições meteorológicas, mas também certamente - assim espero - a uma melhoria da eficácia do combate. Porém, como tenho dito, é de elementar prudência não festejar, porque o ano não acabou nem um bom ano significa que os próximos o sejam.

Para mim, esta avaliação serve sobretudo para questionar as razões para que alguns distritos (sobretudo Viana do Castelo, Évora, Braga e, também em certa medida, Viseu) não estão a ter desempenhos idênticos aos outros, pois se assim fosse o ano estaria até a ser muito, muito bom. E esta avaliação (com estes ou outros critérios objectivos) torna-se, além do mais, fundamental para questionar o trabalho dos coordenadores distritais do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil. E elogiar os que estão a fazer um bom trabalho. Em suma, separar o trigo do joio.
O palheiro e o senhor comandante

Em relação ao incêndio de Murça, para a Lusa (take das 00h29 do dia 8), o Comandante do Centro Distrital de Operações de Socorro (CDOS) de Vila Real, Carlos Silva, disse que «não há neste momento povoações em perigo, mas durante o dia a povoação de Vale de Cunho esteve ameaçada e chegou a arder um palheiro». Um palheiro? Por amor de Deus, como foi possível os bombeiros deixarem destruir tamanha preciosidade?!

E ainda disse o mesmo comandante distrital que «o combate foi muito difícil durante o dia devido ao vento forte que mudava constantemente de direcção e porque o que está a arder é uma zona com muito mato e de difícil acesso». O senhor comandante tinha obrigação, pelo menos quando o fogo já levava 10 horas e tinha apenas 45 homens no terreno, de mandar mobilizar (ou pedir) mais meios, tanto mais que deveria saber que o vento pode tornar-se forte (até por acção do vento) e que o incêndio tinha probabilidades de seguir para zonas de dificil acesso. É por estas e por outras que eu acho que o país vai continuar a arder ano após ano se os senhores comandantes Carlos Silvas deste país continuarem em funções.

Nota 1 - Entretanto, um incêndio deflagrou em Caneças (Odivelas) às 00h40. Em menos de uma hora (escrevo às 01h30) estão já lá 100 bombeiros e 33 veículos. Percebem também por que não arde muito no distrito de Lisboa e arde muito em outras regiões perdidas do país. Pudera, se uma estratégia como a do fogo de Murça acontecesse perto de Lisboa, a comunicação social (ai sim) lembrava-se que as coisas continuam mal. Mas como, devido à pouca extensão da mancha florestal e ao ataque musculado, o incêndio vai, previsivelmente, durar pouco.

9/07/2006

Um caso exemplar sobre o «deixa arder que é mato»

Pelas 04h49 de hoje (dia 7) eclodiu um incêndio em Murça, no distrito de Vila Real, em zona de matos. Apesar da existência de 24 corporações de bombeiros neste distrito - das quais seis só em Alijó, vizinho de Murça -, mais de seis horas depois (às 11h15) estavam a combater este incêndio apenas 26 bombeiros, apoiados por seis veículos e dois aerotanques, de acordo com um take da Lusa. Era mato, deixa arder...

De acordo com a mesma agência noticiosa, às 14h45 parecia que não havia problemas. Estavam no teatro das operações apenas 43 bombeiros, 11 veículos, mas também três meios aéreos. A Lusa salientava que este era, segundo o SNBPC, «o único incêndio activo no país».

Depois, às 19h55, a Lusa já adiantava que estavam 113 bombeiros, 30 veículos e dois meios aéreos. A noite chegou e às 21h44 estavam 124 bombeiros e 53 veículos.

Ouço agora a TSF que o fogo já lavra no concelho de Alijó, há aldeias em perigo e frentes de fogo com seis quilómetros de extensão. No site do SNBPC consta, actualmente (23h40), a presença de 240 bombeiros e 60 veículos. Em suma, deixou-se o fogo ganhar força durante horas e horas - e agora é o «ai Jesus» e a culpa do vento forte.

Questão pertinente: que medalha haveremos de dar ao SNBPC, ao coordenador distrital de Vila Real e aos bombeiros voluntários por este lindo serviço?

Nota 1 - Uma hora depois deste post, chegaram mais 46 bombeiros e 12 veículos. Ou seja, em uma hora (numa altura em que o mal estava feito) foram mobilizados mais meios humanos e materiais do que os que estavam no combate ao incêndio nas 10 primeiras horas de incêndio.

Nota 2 - Hoje de madrugada, antes de me ir deitar (cerca das 3h00), o fogo de Murça estava considerado circunscrito. Agora são 12h00 e ainda está circunscrito. Ou seja, continua a arder. Temos um fogo que arde, arde nove horas depois de ser circunscrito.
As queimas nocturnas

No Verão, logo a seguir às primeiras chuvadas, sabe-se que há descargas de suiniculturas. Tenho estado a reparar que nos dias imediatamente anteriores a uma previsão meteorológica de chuva, surgem os incêndios em zonas de matos, sobretudo à noite. Tenho reparado nos últimos dias que surgem, sobretudo em Trás-os-Montes e Beira Interior, vários incêndios em zonas de matos. Por exemplo, agora que escrevo às 04h00 estão três fogos não circunscritos em Celorico da Beira, Vila real e Lamego. Todos em matos, todos depois das 11 da noite. Isto, claro, cheira-me a mêêêê... ou seja, a pastores.
Balanço dos fogos I (com pequenos acrescentos)

Esta é a primeira parte de um pequeno - mas até exaustivo - balanço sobre os incêndios e a eficácia registada até agora. Esta análise poderia ser mais exaustiva se houvesse mais informação, mas já uma noção, que julgo interessante, sobre alguns aspectos ainda não explorados.

O relatório da Direcção-Geral dos Recursos Florestais aponta uma área ardidade 57.994 hectares, mas a visualização do satélite Modis (UE) regista uma área de cerca de 61 mil hectares. O satélite Modis apenas «detecta» os incêndios com mais de 50 hectares de área queimada, pelo que o valor que indica «peca» sempre por defeito. No ano passado, esse erro (que é aceitável, obviamente) foi de 17%. Donde se pode estimar que este ano já terá ardido afinal cerca de 70 mil hectares até 31 de Agosto.

Nota-se, por outro lado, que o número de incêndios (área ardida igual ou superior a um hectare) é até agora bastante reduzido. Embora apenas me seja possível (sem me obrigar a fazer contas mais morosas) comparar o período deste ano até Agosto com os anos inteiros anteriores, certo é que quase garantidamente este será o ano com menor número de incêndios na última década. Contudo, o número de ocorrências (até 31 de Agosto), incluindo fogachos, atingiu oficialmente 18.770 e ultrapassará certamente as 20 mil ocorrências até ao final do ano, ficando-se apenas na expectativa se será ou não o ano com menos ocorrências registadas (até agora é o ano de 2004, com um pouco menos de 20 mil ocorrências). Isto permite, desde já, confirmar que - independentemente da velha questão dos fogos fictícios - manter-se-á a tendência descrecente de ignições verificada ao longo da última década.

No entanto, esta questão do número de ocorrências - e tendo em conta o «modus operandi» que permite manipulações (vd. o meu livro e o post anterior) - torna sempre difícil retirar conclusões seguras. Aliás, isso implica também que os indicadores de primeira intervenção podem (e devem, quase de certeza) estar desvirtuados. De facto, ao longo da década passada, Portugal tinha por regra uma taxa de primeira intervenção da ordem dos 75% (ou seja, conseguia-se extinguir essa percentagem de ocorrências antes de ultrapassarem um hectare). Esse valor pareceu-me sempre exagerado porque em Espanha ronda apenas 2/3. Ora, para este ano, se pegarmos nos dados, incluindo a «chuva» de fogachos, a taxa de primeira intervenção é actualmente de 85%! Eu, sinceramente, mesmo admitindo que a primeira intervenção melhorou, considero quase impossível atingir-se este valores (aliás, no relatório de DGRF de 18 de Agosto, quando se incluiram os falsos alarmes dava uma taxa de sucesso de primeira intervenção ligeiramente superior a 90%, portanto vê-se por aqui o «interesse» em incluir muitos fogachos).

Mas mesmo que a primeira intervenção tenha melhorado, certo é que se mantiveram as deficiências no combate estendido. Senão vejamos as percentagens de incêndios (mais de um hectare) que ultrapassaram os 100 hectares, por ano desde 1996 (com base em dados da DGRF, por mim trabalhados):

1996 - 2,1%
1997 - 0,7%
1998 - 2,7%
1999 - 2,0%
2000 - 3,2%
2001 - 2.5%
2002 - 3,3%
2003 - 4,7%
2004 - 3,3%
2005 - 4,0%
2006 (até 31 de Agosto tivemos 92 incêndios com mais de 100 hectares) - 3,2%

Ou seja, os valores deste ano são maiores ou semelhantes à generalidade dos anos, com excepção dos catastróficos anos de 2003 e 2005. Mas está muito acima dos anos de 1996, 1997 e 1999, os únicos três desta série de anos em que ardeu menos de 100 mil hectares.

Se consideramos, em permilagem, os incêndios (mais de um hectare) que ultrapassaram os 500 hectares, por ano desde 1996 (com base em dados da DGRF, por mim trabalhados), temos os seguintes resultados:

1996 - 2,9 por cada mil incêndios
1997 - 0,4 por mil
1998 - 8,4 por mil
1999 - 4,8 por mil
2000 - 5,7 por mil
2001 - 5,0 por mil
2002 - 6,9 por mil
2003 - 18,8 por mil
2004 - 10,5 por mil
2005 - 12,4 por mil
2006 (até 31 de Agosto tivemos 17 incêndios com mais de 500 hectares) - 5,9 por mil

Ou seja, através deste critérios, o combate estendido está francamente melhor do que nos últimos três anos, mas em níveis sensivelmente semelhantes aos do período 1999-2002. E stá também melhor do que 1998 (que ardeu mais de 200 mil hectares, de acordo com o ISA, embora o valor oficial ande na casa dos 150 mil). No entanto, está muito pior do que de 1996 e 1997 (dois anos em que ardeu menos de 100 mil). Aliás, para mim, o ano de 1997 é uma referência, pois ardeu apenas 30 mil hectares, uma área que deveria ser vista como o valor a atingir para que um determinado ano fosse considerado um sucesso. Além disso, termos já 17 incêndios com mais de 500 hectares é muito mau. Em Espanha, ao longo da última década, ocorrem em média 25 incêndios por ano que ultrapassam esta fasquia. Em termos proporcionais, significa que em Portugal apenas seria admissível ter cinco incêndios desta dimensão por ano. Portanto...

Claro que, mesmo assim, este ano poderá, com alguma probabilidade, ser o terceiro ano com menor área ardida desde 1996 (já será, contudo, pior do que 1997, já deverá ter ultrapassado o de 1999, em que ardeu 70.613 hectares; e o actual terceiro, que é 1996, está com 88.867 hectares). No entanto, tendo em consideração os indicadores que atrás apresentei, esse desempenho deve-se, na minha opinião, sobretudo à destruição dos três últimos anos, que implicaram uma grande redução das maiores manchas contínuas de vegetação. De facto, este ano já tivemos cinco incêndios com mais de mil hectares, mas apenas um ultrapassou os 5.000 hectares. Esse desempenho não se deve a questões de eficácia, porque um incêndio com mil hectares está já «hiper-incontornável» e a sua extinção depende sobretudo da continuidade do coberto vegetal e das condições atmosféricas. É bom recordar que o maior incêndio deste ano (que afectou o Parque Nacional da Peneda-Gerês, queimando 5.690 hectares, extingui-se com uma humidade relativa de 94%). E o incêndio da serra de Ossa (com mais de 4.779 hectares) dizimou quase tudo o que havia de vegetação em contínuo. Acresce a isto que este Verão foi, do ponto de vista meteorológico, muito favorável para a não ocorrência de incêndios, ao contrário das tentativas do Governo de mostrar o contrário. Com efeito, em todos os meses de Verão as precipitações foram muito abundantes. Em algumas regiões chouveu em Julho e Agosto aquilo que costuma chover em meses de Outono e Inverno.

(cont...)

9/06/2006

A pouca vergonha do vale-tudo

Aqui (Lusa), aqui (Visão), aqui (TSF), aqui (Portugal Diário), aqui (RTP) - e é apenas uma amostra - pode-se recordar as palavras do ministro da Administração Interna a destacar o excessivo número de fogos na segunda semana de Agosto, com vários dias com mais de 500 ocorrências. No dia 13 de Agosto, o Correio da Manhã referia mesmo que o dia 11 tinha sido o «que registou maior número de incêndios florestais: 579 fogos». Na generalidade das notícias, o ministro referia-se ao número elevado de ignições para sublinhar o «esforço extraordinário» das equipas de combate, pois conseguiram que «nunca houvesse mais de 27 incêndios por dia para circunscrever». O ministro da Administração Interna destacava também que «a média de ignições foi claramente superior, mas os danos claramente inferiores».

No dia 21 de Agosto publiquei aqui no blog um post intitulado «Chuva de fogachos esconde deficiências» em que mostrava como existiam fortes indícios de «manipulação» nas estatísticas. Não consegui publicar a notícia na imprensa.

Ontem, no relatório da Direcção-Geral dos Recursos Florestais, há uma nota de rodapé que refere o seguinte: «O número de ocorrências apurado face ao último relatório sofreu entretanto uma actualização, em virtude da eliminação de um conjunto de falsos alarmes inicialmente contabilizados como ocorrências florestais».

Fui ver a dimensão dessa «eliminação». Pois bem: «o conjunto de falsos alarmes» (pressupondo que só ocorreram a partir de dia 16, dado que na segunda quinzena de Agosto houve, em cada dia, entre 11 e 206 fogos) representaram 1.109 ocorrências. Ou seja, em vez de 6.805 fogos na primeira quinzena, tivemos 5696; portanto um forjado incremento de 19,5% aquando do relatório de há duas semanas. Isto significa portanto que, garantidamente, poucos foram os dias da primeira quinzena de Agosto com mais de 400 fogos e nenhum ultrapasou as 500 ocorrências; portanto não houve qualquer excesso de fogos durante a primeira quinzena de Agosto. E, claro, estou a incluir os tais fogos com menos de 100 metros quadrados (e mesmo com 1 metro quadrado), que em 2005, conforme comprovei no meu livro, representaram cerca de 28% das ocorrências totais oficialmente contabilizadas. E este ano veremos quantos são...

Enfim, estamos no país do vale-tudo. E à descarada! Há muito tempo que não via tamanha manipulação governamental, em conluio com as entidades técnicas da Administração Pública. E com a comunicação social, quase em coro, a cair na esparrela, tanto mais que quase aposto - a menos que entretanto leiam este blog e se insurjam - que agora nenhuma destacará esta desavergonhada manipulação.

Nota: Provavelmente, hoje, mais tarde, apresentarei aqui mais algumas avaliações. Nem todas são a destacar aspectos negativos. Na verdade, como já tinha aqui destacado, parece-me bastante interessante a situação em Castelo Branco. Mas noutros distritos, este está a ser um dos três piores anos de sempre.

9/05/2006

Vanessa Sequeira

Há vidas de sonho que acabam em pesadelo. O Mundo é triste e o assassinato da investigadora portuguesa Vanesa Sequeira acaba por ser um lancinante exemplo. Olhar as suas fotos publicadas neste blog, que aborda o seu trabalho e a sua morte, provoca uma dor de alma: aquela alegria estampada num rosto que denuncia, sem esconder, o seu prazer pelo trabalho que fazia na Amazónia. E onde encontrou a irracional violência humana e a morte.
Intermezzo

Ausente de Lisboa nos últimos dois dias, estive no meio da floresta, vendo coisas interessantes numa região que não quer voltar a arder. Aquilo que vi está na boa direcção (diria excelente), mas é uma pequena ilha. Falarei em breve sobre isso.

Entretanto, um direito de resposta do presidente do Instituto da Água publicado no Diário de Notícias no passado sábado terá a resposta devida, no sítio devido. Mas que a imprensa precisa de ir fazer uma reflexão, ai isso precisa. Darei notícias, muito em breve.

9/02/2006

Tolices e tontices na Rua do Século

A ideia do Ministério do Ambiente em relação à redução da velocidade nas auto-estradas de 120 para 118 km/h para reduzir as emissões de dióxido de carbono de Portugal tem ainda uma nuance. No Diário de Notícias de hoje uma fonte do Ministério do Ambiente (mais uma vez não identificada, desta vez certamente para que a dita «fonte» não caia no ridículo) refere que «não serão feitas alterações ao Código da Estrada», acrescentando que se vai apenas «sensibilizar» os cidadãos para a redução da velocidade média de circulação nas auto-estradas. O Ministério do Ambiente ainda consegue aumentar o grau de tolice. Mas será que os neurónios bloqueiam quando se entra na antiga sede do jornal «O Século»?
Dois exemplos para uma avaliação

No meu livro, defendi a necessidade de avaliação das operações de combate aos incêndios florestais não apenas para detectar o que corre mal, mas também o que corre bem, para que se possa aprender com o mal e com o bem. Ora, nos últimos tempos tenho constatado que no distrito de Castelo Branco se verifica uma capacidade extraordinária de mobilização de meios (sobretudo aéreos) que fazem com que os incêndios quase nunca ultrapassam as seis horas. É certo que esta estratégia de ataque massivo tem um custo elevado (por exemplo, ainda ontem num incêndio em Vila velha de Ródão chegaram a estar 10 meios aéreos), mas provavelmente, nas actuais circunstâncias, é a única hipótese que aquela região tem de não sofrer incêndios dantescos.

Ao invés, noutras regiões continua-se a brincar com o fogo. Por exemplo, esta noite (escrevo às 00h30) está a lavrar um incêndio em Vila Verde, numa zona a sul da serra do Soajo desde as 14h51 de ontem. Durante toda a tarde estiveram cerca de 20 bombeiros. Agora, estão 38 homens e 10 veículos, com a presença já do comandante distrital. Ou seja, durante uma tardde deixou-se o fogo andar a crescer. E há alguém responsável por isso, certamente.

9/01/2006

Só fez calor, não choveu...

O Instituto de Meteorologia apresentou hoje o habitual resumo climatológico mensal relativo a Agosto. É um pequeno documento de quatro páginas (portanto, uma síntese), mas peca obviamente por ser enviesado e ir ao encontro daquilo que os nossos governantes tanto gostam para justificar os incêndios: esteve muito calor, sobretudo no período entre os dias 2 e 13, e a partir do dia 20. E O instituto de Meteorologia faz o favor e destaca a ocorrência de ondas de calor e até chega a dizer enigmaticamente que o mês de Agosto «ficará entre os 15 mais quentes», como se o 15º lugar fosse igual ao 1º lugar...

Porém, intercalando estes períodos, como certamente se recordam, choveu que se fartou, sobretudo entre 17 e 19 de Agosto. E tem sido isso que faz com que os incêndios ainda não tenham eclodido na sua máxima força (a minha tese, como já defendi, é que se torna «necessário» duas semanas sem chuva no Verão para começarmos a ter incêndios de grandes dimensões). Porém, o relatório do Instituto de Meteorologia quase ignora o aspecto da precipitação, dedicando-lhe menos de 1/8 das páginas. Apenas faz uma pequena referência no final da primeira página e outra no final da última, onde se fica a saber que «nas regiões do interior e Sul (de Portugal) os valores elevados da quantidade de precipitação nos dias 17 a 19, (foram) muito superiores aos valores médios mensais». Em quanto, não se sabe. Mas o único valor de referência para se inferir uma dimensão é em Bragança - o local onde choveu mais no território português -, que registou uma percipitação mais de quatro vezes superior à média. Ou seja, em Agosto houve uma bênção dos Céus que ajudou a que não ardesse mais; mas o Instituto de Meteorologia parece querer ignorar...

Nota 1: Claro que não me admirará nada que as notícias de amanhã na comunicação social destaquem apenas que Agosto foi muito quente e que mesmo assim não houve muita destruição da floresta...

Nota 2 - Era suposto que a Direcção-Geral dos Recursos Florestais apresentasse hoje o relatório dos incêndios. Não o fez, o que não se justifica. Em Portugal, não há prazos a cumprir.

Tudo é histórico... até o disparate

Para tentar deslocar a polémica em torno da redução do caudal do Guadiana, o Ministério do Ambiente tentou que a comunicação social deslocasse as atenções para outros rios, supostamente mais problemáticos. Daí que uma «fonte do Instituto da Água» (não identificada, claro) se aprestasse a dar informações ao Correio da Manhã para que se mostrasse ao povo de Portugal que a situação do Douro em Espanha é muito pior do que a do Guadiana. E por isso Portugal pode ser mais afectado por essa causa.

Os disparates da notícia do Correio da Manhã são vários - a começar pelo facto de que no Douro as barragens são de «fio de água» devido à sua reduzida capacidade de armazenamento, pelo que é natural haver pouca água no Verão -, mas o maior surge quando o jornalista refere que «as reservas de água da bacia hidrográfica do Douro espanhol atingem valores históricos de falta de água». Porém, logo na frase seguinte fica-se a saber que afinal «as barragens estão agora com apenas 34,5 por cento da sua capacidade máxima, um valor superior em apenas 1,7 por cento da capacidade de armazenamento registada no ano passado, quando ocorreu a pior seca dos últimos cem anos». Ou seja, ao contrário do Guadiana, no Douro afinal há mais água do que no ano passado (aliás, como escrevi ontem e hoje em artigos do Diário de Notícias). Por isso, não se compreende onde estão os «valores históricos». A menos que tudo seja histórico... até o disparate.

Nota: Este é mais um caso que vai ao encontro do que já escrevi sobre a falta de preparação técnica dos jornalistas, que permite manipulações por parte das «fontes».

A silly season ainda não terminou

Sabe-se que os consumos de combustível e as emissões de dióxido de carbono dos veículos automóveis «disparam» quando se aumenta a velocidade. E sabe-se também que a esmagadora maioria dos automobilistas excedem em muito o limite de velocidade nas auto-estradasa (120 km/h para os ligeiros), como tem vindo a ser relatado por alguns estudos (vd. um exemplo aqui).

E o que faz o Governo? Controla mais os excessos de velocidade por razões de segurança e de ambiente? Não! Decide, de forma folclórica, meter como medida do Plano Nacional de Alterações Climáticas uma redução da velocidade nas auto-estradas de 120 para 118 km/h. Dois quilómetros a menos... Aos autores desta proposta proponho que se lhes dê mais um mês de férias: ainda não recuperaram do cansaço. Ou então regressaram ao trabalho com sentido de humor.
Os desmentidos e outras estórias aquosas

Consulta-se o site do Ministério do Ambiente de Espanha e verifica-se que o Guadiana estava seco na segunda-feira passada. Vai-se ao site do Instituto da Água e verifica-se que á entrada da albufeira de Alqueva, desde Maio, se registam 19 dias sem caudal e mais 15 com caudal residual (menos de 0,5 metros cúbicos por segundo). Portanto, dados oficiais, que podem se consultáveis. Pede-se o comentário ao Ministério do Ambiente sobre isto e escreve-se esta notícia, manchete de ontem do Diário de Notícias.

Reacções: de Espanha dizem que os seus dados estão errados por causa das férias de Verão; em Portugal, o Instituto da Água tenta desmentir, alegando que os caudais afluentes ao Alqueva não estão validados e apresenta valores de caudais junto à fronteira de uma estação que não é referência para o controlo do convénio ibérico e sobretudo por receber afluências de outros rios, já em território português. Por outro lado, apresenta valores de caudal recorrendo a médias móveis, que para quem está familiarizado com a estátistica, é uma forma engenhosa de eliminar os valores baixos (ou seja, os caudais zero).

Como a quase totalidade dos jornalistas pouco (ou nada) percebe de hidrologia e de estatística , divulgaram o desmentido do Instituto da Água como se esta entidade estivesse correcta e o jornalista fosse ignorante e mal intencionado. Hoje, no DN, sai um direito de resposta do Instituto da Água, mas também uma nova notícia da minha autoria que faz nova abordagem para «esclarecimento».

Em todo o caso, os diversos órgãos de comunicação social tinham a obrigação de salientar que, afinal, os desmentidos de Espanha e Portugal significa uma coisa: os dados oficiais publicados são afinal sempre «desmentíveis», se por acaso um jornalista que entenda dos assuntos descobre algo inconveniente...

Nota 1 - Esta questão merece, aliás, uma reflexão interessante. Se um jornalista especializado descobre algo - devido aos seus conhecimentos técnicos - sujeita-se a ser facilmente «desmentido», porque a entidade em causa se aproveita da «ignorância técnica» da generalidade dos outros jornalistas (porque em Portugal continua a apostar-se em jornalistas generalistas) para poder manipular a seu bel-prazer. Donde se conclui que em terra de cegos, quem tem olho pode ser, certo dia, acusado de estar a sofrer de alucinações. Em todo o caso, tive a total confiança da direcção do Diário de Notícias naquilo que escrevi ontem e hoje, o que me apraz registar com muito agrado.

Nota 2 - Esta foi uma daquelas notícias em que não consegui em «on» qualquer cometário de alguém especializado que apoiasse os meus textos - ninguém se quis expor. Optei, como sempre faço nestes casos, em assumir aquilo que apurava pela análise que fiz aos dados, pondo assim a «cabeça no cepo», porque confio naquilo que faço. Mas se não tivesse escrúpulos, poderia ter sempre metido na notícia de ontem qualquer coisa do género (é uma caricatura, claro): «Fonte do Ministério do Ambiente, sob anonimato, referiu ao DN que a ausência de caudal já fora detectada há semanas, mas que o Ministério dos Negócios retirou uma queixa forma a Madrid por receio de que os soldados portugueses a serem enviados para o Líbano fossem alvo de represálias pelas chefias espanholas». Tinha uma certa piada e eu, claro, refugiar-me-ia nas alegadas fontes anónimas para criar um facto político.