ESTRAGO DA NAÇÃO

9/15/2006

São Pedro, o nosso melhor bombeiro

Como se tem reparado, a chuva regressou nos últimos dias. E os incêndios, mais uma vez, pararam. Aliás, se existe algo de anormal neste Verão é a existência de chuva e não tanto de ondas de calor. Aliás, as pretensas cinco ondas de calor que foram referidas há cerca de uma semana no Diário de Notícias (ver aqui) são uma falácia, pois nem sequer se manifestaram em todo o país em simultâneo e, pelo menos uma delas, esteve associada a humidades relativas elevadas (as tais noites tropicais de Julho). Além disso, cinco ondas de calor pode bem ser menos gravoso em termos de risco de incêndio do que apenas uma. A questão da duração, distribuição e intensidade são factores muito mais importantes. Ou seja, uma única onda de calor, prolongada e a nível nacional pode ser mais desastrosa.

No entanto, como tem sido hábito este Verão, houve uma clara tentativa «oficial», seguida por muita imprensa, de fazer esquecer a chuva. O último relatório da Direcção-Geral dos Recursos Florestais (DGRF) ignora-a e mantém um índice de severidade meteorológico diário como único indicador de risco de incêndio, o que me parece, dadas as circunstâncias, muito pouco preciso em situações de pluviosidade. E por que razão isto aconteceu? Uma explicação mais bondosa (ou seja, sem qualquer interferência política): em Lisboa chouveu muito pouco - quase nada. E a imprensa julga que Lisboa é, em tudo, o reflexo do país.

Não é, em nada - e muito menos em meteorologia. Ora, eu fui dar uma rápida «olhadela» aos dados de precipitação (ver aqui) das redes de medição do Instituto da Água (os do Instituto de Meteorologia somente têm para as principais cidades) e confirmei a minha percepção: na generalidade do território, os meses de Junho, Julho e Agosto foram anormalmente chuvosos. E com variações muito grandes em relação à média. É certo que algumas zonas choveu abaixo da média no somatório dos três meses (como em Covilhã, menos 32%), mas é uma pequena minoria. E além disso - e muito importante -, os valores deste Verão, mesmo quando abaixo da média, são incomensuravelmente superiores aos registados em 2005 (ano de seca). Por exemplo, nestes três meses, na Covilhã choveu apenas 10 mm no ano passado; este ano chouveu 49 mm, ou seja, quase cinco vezes mais. Se confrontarmos com outras estações, as diferenças entre 2006 e 2005 são ainda maiores.

Mas comparando apenas com as médias, há de factos casos de muita, muita chuva neste presente Verão: por exemlo, temos acréscimos de pluviosidade de 320% em Barcelos, 246% em São Brás de Alportel, 146% em Abrantes, 85% em Vila Viçosa, 91% em Grândola, 61% em Pinhel, 43% em Vila Velha de Ródão, 37% em Castro Daire, etc., etc..

Individualizando os meses em que costuma arder (Julho e Agosto), as precipitações este ano chegaram a ser elevadíssimas em algumas zonas. Por exemplo, em Barcelos choveu 202,3 mm em Julho deste ano (quase 10 vezes a média do mês), um valor praticamente semelhante à média que se regista em Dezembro e Janeiro (os dois meses mais chuvosos do ano). Ou seja, em Agosto choveu 150,4 mm, sensivelmente cinco vezes mais que a média deste mês. Noutras regiões, o mês de Agosto foi também particularmente húmido, de norte a sul: por exemplo em São Brás de Alportel (24 mm este ano vs. 3 mm de média); Castro Daire (64 mm vs. 23 mm), Pinhel (22 mm vs. 11 mm).

Fazer uma análise mais detalhada - comparando todas as estações com o ano passado ou 2003 - seria muito moroso, mas estes exemplos mostram bem que não só não estivemos em seca (como aconteceu em 2003 e 2005), como pelo contrário foi um Verão anormalmente chuvoso, ainda mais com uma concentração em poucos dias (embora distribuídas, por regra, em todos os três meses), que «encharcou» vegetação e solo por muitos e longos dias. E portanto o São Pedro «travou» muito o risco de incêndio.

O Verão de 2006 parece-me, aliás, muito semelhante em termos de pluviosidade com o ano de 1997, em que ardeu apenas 30 mil hectares. Mas um trabalho mais aprofundado, espero, deveria ser feito pelo Instituto de Meteorologia. Fico a agurdar...

Nota: Espero, sinceramente, que o Instituto da Água não venha dizer que os dados não estão validados, como o fez em relação aos caudais afluentes ao Alqueva.

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