ESTRAGO DA NAÇÃO

9/12/2006

O jornalismo do senso comum... e os seus despistamentos (take IV)

A polémica - chamemos-lhe já assim, porque não a vejo em sentido depreciativo -, com mais um novo capítulo, entre mim e o João Morgado Fernandes, do French Kissin', mostra sobretudo dois conceitos distintos de abordagem e análise jornalística, que extravasa a simples discussão em torno da questão da eficácia de combate aos incêndios florestais.

O meu conceito de jornalismo - apelidado, por ele, de «futurologia científica» -, que admito seja minoritário na imprensa portuguesa, baseia-se em análises não conjunturais e não imediatistas, usando tendências e dados objectivos para se chegar a uma conclusão. E se assim for necessário, munindo-me de «catadupas de números, relatórios e estatísticas» - simplificandos-os, claro está, o que aliás julgo ter sempre conseguido nas centenas de artigos que publiquei na imprensa como jornalista. Isto, malgrado eles serem de tão pouco agrado entre os pares e «chatos» de digerir pelas entidades analisadas, por serem objectivos.

É por isso que, contrapondo-me a análise baseadas en comparações simplistas - que aparenta revelar uma melhoria significativa na área ardida (menos 1/5 em relação ao ano passado) -, eu defendo que isso pouco significado tem, porque diversos indicadores objectivos mostram que as deficiências se mantêm. Tal como um ano frio nada inverteria a tendência de aquecimento global, porque sabemos (a comunidade científica, pelo menos) que esse ano nada representa se nada se modificou de estrutural. Ou seja, este ano de incêndios não quebra qualquer tendência (pelas razões de que a floresta não é nenhuma fénix renascida) e, além do mais, nem sequer é um valor excepcional em relação às estatísticas da última década (e nem quero recuar mais anos).

O outro conceito de jornalismo - que me parece ser o do JMF e que acredito ser largamente maioritário na imprensa portuguesa -, baseia-se numa metodologia mais pragmática, não se preocupa «com catadupas de números, relatórios e estatísticas» ou se os usa é com a máxima parcimónia, muitas vezes indicados por conhecidos e sem perder tempo confirmá-los. Por isso, muitas vezes, este jornalismo é «rápido». Num abrir e fechar de olhos faz um artigo, um editorial, o que quer que seja. Em suma, este tipo de jornalismo usa o senso comum - que acredito seja o que tem maior sucesso junto do público, porque facilmente as pessoas chegam à conclusão que os respectivos «sensos comuns», de que são dotadas, até está correcto. Os mitos alimentam-se dessa «massa» - e o jornalismo é, infelizmente, um dos seus principais «restaurantes».

Aliás, JMF acabou por transmitir mais um mito, porque não quis usar «catadupas de números, relatórios e estatísticas». Com efeito, diz ele que «mais precisamente: a Galiza costuma representar cerca de metade do total de área ardida em Espanha». É assim mesmo? Bom, sim, se se considerar que «cerca de metade» é 21,2% (chatice, este é o valor indicado pelas estatísticas disponíveis num site do Ministério do Ambiente de Espanha para o período 2000-2004 - a«coisa» faz-se somando as áreas ardidas na Galiza, divide-se pela área total ardida em Espanha e multiplica-se depois por 100...).*

E, embora eu não perceba bem o que ele quer dizer quando diz «a Galiza, por mais voltas que se dê (temperaturas, humidade...), não é comparável com uma das nossas áreas mais martirizada todos os anos, a zona Centro», imagino que ele queira dizer que a Galiza arde mais do que as zonas mais martirizadas de Portugal. Se é isso que ele pretendia transmitir, transmitiu mais um mito...

Eu que tenho o horrível defeito de, para além de fazer «futurologia científica», usar «catadupas de números, relatórios e estatísticas», fui ver - oh heresia! - a percentagem de território afectado pelos incêndios na Galiza desde os anos 90. Resultado: não chega aos 14% da sua superfície total. E em Portugal, quanto território ardeu nesse período? 25,5%! Ou seja, quase o dobro. E quais os ditritos portugueses que foram menos afectados que a Galiza? Apenas quatro: Évora, Beja, Lisboa e Portalegre (embora este já se aproxime, por causa do desastre de 2003). E como foram afectados os distritos minhotos - Viana do Castelo e Braga - com clima semelhante à Galiza? Pois bem (ou mal), a afectação foi de 48,5% e 28,5%, respectivamente. Aliás, ao contrário do que se pensa, o distrito de Viana do Castelo é um dos mais flagelados do país: em termos territoriais é o segundo, apenas atrás da Guarda. E não estou a entrar com os valores deste ano.

Pois é, quando se usam «catadupas de números, relatórios e estatísticas» descobre-se uma realidade que o jornalismo pragmático não alcança usando o senso comum... O meu jornalismo é «chato» e vai contra o senso comum? Provavelmente sim, mas a verdade por vezes é «chata», por muito que o senso comum não goste dela...

P.S. O jornalismo «pragmático» tem mais uma vantagem suplementar: é sempre mais conciso e não se perde muito tempo. Eu para rebater os erros de JMF gastei mais de meia hora (em consultas e escrita). Ele gastará meio minuto. É outro problema do jornalismo: tudo já se resume a frases curtas, simples. Mesmo que a percentagem de erros seja elevadíssima. Escrever pouco deveria exigir um rigor reforçado.

P.P.S. Por mim, esta discussão termina, se o João Morgado Fernandes também o desejar. Porém, isto não significa que ele não possa responder, se assim o desejar (nem isso seria concebível). Apenas deixo esta nota, porque já não vale a pena perpetuar uma discussão onde, claramente, o que se destaca é a existência de duas perspectivas de jornalismo quase antagónicas. A polémica focou-se nos incêndios, mas aplicar-se-ia em muitos outros assuntos.

* Gostaria de usar os dados definitivos de 2005, mas eles não os têm ainda disponíveis (e por isso, não especulo). Mas é certo que este ano mais de metade da área ardida em Espanha foi na Galiza, sendo porém uma situação anormal . Contudo, mesmo com este ano, para o último decénio, a Galiza terá contribuído com não mais de 1/4 do total de Espanha. Ou seja, muito longe de «cerca de metade».

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