9/08/2006

O palheiro e o senhor comandante

Em relação ao incêndio de Murça, para a Lusa (take das 00h29 do dia 8), o Comandante do Centro Distrital de Operações de Socorro (CDOS) de Vila Real, Carlos Silva, disse que «não há neste momento povoações em perigo, mas durante o dia a povoação de Vale de Cunho esteve ameaçada e chegou a arder um palheiro». Um palheiro? Por amor de Deus, como foi possível os bombeiros deixarem destruir tamanha preciosidade?!

E ainda disse o mesmo comandante distrital que «o combate foi muito difícil durante o dia devido ao vento forte que mudava constantemente de direcção e porque o que está a arder é uma zona com muito mato e de difícil acesso». O senhor comandante tinha obrigação, pelo menos quando o fogo já levava 10 horas e tinha apenas 45 homens no terreno, de mandar mobilizar (ou pedir) mais meios, tanto mais que deveria saber que o vento pode tornar-se forte (até por acção do vento) e que o incêndio tinha probabilidades de seguir para zonas de dificil acesso. É por estas e por outras que eu acho que o país vai continuar a arder ano após ano se os senhores comandantes Carlos Silvas deste país continuarem em funções.

Nota 1 - Entretanto, um incêndio deflagrou em Caneças (Odivelas) às 00h40. Em menos de uma hora (escrevo às 01h30) estão já lá 100 bombeiros e 33 veículos. Percebem também por que não arde muito no distrito de Lisboa e arde muito em outras regiões perdidas do país. Pudera, se uma estratégia como a do fogo de Murça acontecesse perto de Lisboa, a comunicação social (ai sim) lembrava-se que as coisas continuam mal. Mas como, devido à pouca extensão da mancha florestal e ao ataque musculado, o incêndio vai, previsivelmente, durar pouco.

9/07/2006

Um caso exemplar sobre o «deixa arder que é mato»

Pelas 04h49 de hoje (dia 7) eclodiu um incêndio em Murça, no distrito de Vila Real, em zona de matos. Apesar da existência de 24 corporações de bombeiros neste distrito - das quais seis só em Alijó, vizinho de Murça -, mais de seis horas depois (às 11h15) estavam a combater este incêndio apenas 26 bombeiros, apoiados por seis veículos e dois aerotanques, de acordo com um take da Lusa. Era mato, deixa arder...

De acordo com a mesma agência noticiosa, às 14h45 parecia que não havia problemas. Estavam no teatro das operações apenas 43 bombeiros, 11 veículos, mas também três meios aéreos. A Lusa salientava que este era, segundo o SNBPC, «o único incêndio activo no país».

Depois, às 19h55, a Lusa já adiantava que estavam 113 bombeiros, 30 veículos e dois meios aéreos. A noite chegou e às 21h44 estavam 124 bombeiros e 53 veículos.

Ouço agora a TSF que o fogo já lavra no concelho de Alijó, há aldeias em perigo e frentes de fogo com seis quilómetros de extensão. No site do SNBPC consta, actualmente (23h40), a presença de 240 bombeiros e 60 veículos. Em suma, deixou-se o fogo ganhar força durante horas e horas - e agora é o «ai Jesus» e a culpa do vento forte.

Questão pertinente: que medalha haveremos de dar ao SNBPC, ao coordenador distrital de Vila Real e aos bombeiros voluntários por este lindo serviço?

Nota 1 - Uma hora depois deste post, chegaram mais 46 bombeiros e 12 veículos. Ou seja, em uma hora (numa altura em que o mal estava feito) foram mobilizados mais meios humanos e materiais do que os que estavam no combate ao incêndio nas 10 primeiras horas de incêndio.

Nota 2 - Hoje de madrugada, antes de me ir deitar (cerca das 3h00), o fogo de Murça estava considerado circunscrito. Agora são 12h00 e ainda está circunscrito. Ou seja, continua a arder. Temos um fogo que arde, arde nove horas depois de ser circunscrito.
As queimas nocturnas

No Verão, logo a seguir às primeiras chuvadas, sabe-se que há descargas de suiniculturas. Tenho estado a reparar que nos dias imediatamente anteriores a uma previsão meteorológica de chuva, surgem os incêndios em zonas de matos, sobretudo à noite. Tenho reparado nos últimos dias que surgem, sobretudo em Trás-os-Montes e Beira Interior, vários incêndios em zonas de matos. Por exemplo, agora que escrevo às 04h00 estão três fogos não circunscritos em Celorico da Beira, Vila real e Lamego. Todos em matos, todos depois das 11 da noite. Isto, claro, cheira-me a mêêêê... ou seja, a pastores.
Balanço dos fogos I (com pequenos acrescentos)

Esta é a primeira parte de um pequeno - mas até exaustivo - balanço sobre os incêndios e a eficácia registada até agora. Esta análise poderia ser mais exaustiva se houvesse mais informação, mas já uma noção, que julgo interessante, sobre alguns aspectos ainda não explorados.

O relatório da Direcção-Geral dos Recursos Florestais aponta uma área ardidade 57.994 hectares, mas a visualização do satélite Modis (UE) regista uma área de cerca de 61 mil hectares. O satélite Modis apenas «detecta» os incêndios com mais de 50 hectares de área queimada, pelo que o valor que indica «peca» sempre por defeito. No ano passado, esse erro (que é aceitável, obviamente) foi de 17%. Donde se pode estimar que este ano já terá ardido afinal cerca de 70 mil hectares até 31 de Agosto.

Nota-se, por outro lado, que o número de incêndios (área ardida igual ou superior a um hectare) é até agora bastante reduzido. Embora apenas me seja possível (sem me obrigar a fazer contas mais morosas) comparar o período deste ano até Agosto com os anos inteiros anteriores, certo é que quase garantidamente este será o ano com menor número de incêndios na última década. Contudo, o número de ocorrências (até 31 de Agosto), incluindo fogachos, atingiu oficialmente 18.770 e ultrapassará certamente as 20 mil ocorrências até ao final do ano, ficando-se apenas na expectativa se será ou não o ano com menos ocorrências registadas (até agora é o ano de 2004, com um pouco menos de 20 mil ocorrências). Isto permite, desde já, confirmar que - independentemente da velha questão dos fogos fictícios - manter-se-á a tendência descrecente de ignições verificada ao longo da última década.

No entanto, esta questão do número de ocorrências - e tendo em conta o «modus operandi» que permite manipulações (vd. o meu livro e o post anterior) - torna sempre difícil retirar conclusões seguras. Aliás, isso implica também que os indicadores de primeira intervenção podem (e devem, quase de certeza) estar desvirtuados. De facto, ao longo da década passada, Portugal tinha por regra uma taxa de primeira intervenção da ordem dos 75% (ou seja, conseguia-se extinguir essa percentagem de ocorrências antes de ultrapassarem um hectare). Esse valor pareceu-me sempre exagerado porque em Espanha ronda apenas 2/3. Ora, para este ano, se pegarmos nos dados, incluindo a «chuva» de fogachos, a taxa de primeira intervenção é actualmente de 85%! Eu, sinceramente, mesmo admitindo que a primeira intervenção melhorou, considero quase impossível atingir-se este valores (aliás, no relatório de DGRF de 18 de Agosto, quando se incluiram os falsos alarmes dava uma taxa de sucesso de primeira intervenção ligeiramente superior a 90%, portanto vê-se por aqui o «interesse» em incluir muitos fogachos).

Mas mesmo que a primeira intervenção tenha melhorado, certo é que se mantiveram as deficiências no combate estendido. Senão vejamos as percentagens de incêndios (mais de um hectare) que ultrapassaram os 100 hectares, por ano desde 1996 (com base em dados da DGRF, por mim trabalhados):

1996 - 2,1%
1997 - 0,7%
1998 - 2,7%
1999 - 2,0%
2000 - 3,2%
2001 - 2.5%
2002 - 3,3%
2003 - 4,7%
2004 - 3,3%
2005 - 4,0%
2006 (até 31 de Agosto tivemos 92 incêndios com mais de 100 hectares) - 3,2%

Ou seja, os valores deste ano são maiores ou semelhantes à generalidade dos anos, com excepção dos catastróficos anos de 2003 e 2005. Mas está muito acima dos anos de 1996, 1997 e 1999, os únicos três desta série de anos em que ardeu menos de 100 mil hectares.

Se consideramos, em permilagem, os incêndios (mais de um hectare) que ultrapassaram os 500 hectares, por ano desde 1996 (com base em dados da DGRF, por mim trabalhados), temos os seguintes resultados:

1996 - 2,9 por cada mil incêndios
1997 - 0,4 por mil
1998 - 8,4 por mil
1999 - 4,8 por mil
2000 - 5,7 por mil
2001 - 5,0 por mil
2002 - 6,9 por mil
2003 - 18,8 por mil
2004 - 10,5 por mil
2005 - 12,4 por mil
2006 (até 31 de Agosto tivemos 17 incêndios com mais de 500 hectares) - 5,9 por mil

Ou seja, através deste critérios, o combate estendido está francamente melhor do que nos últimos três anos, mas em níveis sensivelmente semelhantes aos do período 1999-2002. E stá também melhor do que 1998 (que ardeu mais de 200 mil hectares, de acordo com o ISA, embora o valor oficial ande na casa dos 150 mil). No entanto, está muito pior do que de 1996 e 1997 (dois anos em que ardeu menos de 100 mil). Aliás, para mim, o ano de 1997 é uma referência, pois ardeu apenas 30 mil hectares, uma área que deveria ser vista como o valor a atingir para que um determinado ano fosse considerado um sucesso. Além disso, termos já 17 incêndios com mais de 500 hectares é muito mau. Em Espanha, ao longo da última década, ocorrem em média 25 incêndios por ano que ultrapassam esta fasquia. Em termos proporcionais, significa que em Portugal apenas seria admissível ter cinco incêndios desta dimensão por ano. Portanto...

Claro que, mesmo assim, este ano poderá, com alguma probabilidade, ser o terceiro ano com menor área ardida desde 1996 (já será, contudo, pior do que 1997, já deverá ter ultrapassado o de 1999, em que ardeu 70.613 hectares; e o actual terceiro, que é 1996, está com 88.867 hectares). No entanto, tendo em consideração os indicadores que atrás apresentei, esse desempenho deve-se, na minha opinião, sobretudo à destruição dos três últimos anos, que implicaram uma grande redução das maiores manchas contínuas de vegetação. De facto, este ano já tivemos cinco incêndios com mais de mil hectares, mas apenas um ultrapassou os 5.000 hectares. Esse desempenho não se deve a questões de eficácia, porque um incêndio com mil hectares está já «hiper-incontornável» e a sua extinção depende sobretudo da continuidade do coberto vegetal e das condições atmosféricas. É bom recordar que o maior incêndio deste ano (que afectou o Parque Nacional da Peneda-Gerês, queimando 5.690 hectares, extingui-se com uma humidade relativa de 94%). E o incêndio da serra de Ossa (com mais de 4.779 hectares) dizimou quase tudo o que havia de vegetação em contínuo. Acresce a isto que este Verão foi, do ponto de vista meteorológico, muito favorável para a não ocorrência de incêndios, ao contrário das tentativas do Governo de mostrar o contrário. Com efeito, em todos os meses de Verão as precipitações foram muito abundantes. Em algumas regiões chouveu em Julho e Agosto aquilo que costuma chover em meses de Outono e Inverno.

(cont...)

9/06/2006

A pouca vergonha do vale-tudo

Aqui (Lusa), aqui (Visão), aqui (TSF), aqui (Portugal Diário), aqui (RTP) - e é apenas uma amostra - pode-se recordar as palavras do ministro da Administração Interna a destacar o excessivo número de fogos na segunda semana de Agosto, com vários dias com mais de 500 ocorrências. No dia 13 de Agosto, o Correio da Manhã referia mesmo que o dia 11 tinha sido o «que registou maior número de incêndios florestais: 579 fogos». Na generalidade das notícias, o ministro referia-se ao número elevado de ignições para sublinhar o «esforço extraordinário» das equipas de combate, pois conseguiram que «nunca houvesse mais de 27 incêndios por dia para circunscrever». O ministro da Administração Interna destacava também que «a média de ignições foi claramente superior, mas os danos claramente inferiores».

No dia 21 de Agosto publiquei aqui no blog um post intitulado «Chuva de fogachos esconde deficiências» em que mostrava como existiam fortes indícios de «manipulação» nas estatísticas. Não consegui publicar a notícia na imprensa.

Ontem, no relatório da Direcção-Geral dos Recursos Florestais, há uma nota de rodapé que refere o seguinte: «O número de ocorrências apurado face ao último relatório sofreu entretanto uma actualização, em virtude da eliminação de um conjunto de falsos alarmes inicialmente contabilizados como ocorrências florestais».

Fui ver a dimensão dessa «eliminação». Pois bem: «o conjunto de falsos alarmes» (pressupondo que só ocorreram a partir de dia 16, dado que na segunda quinzena de Agosto houve, em cada dia, entre 11 e 206 fogos) representaram 1.109 ocorrências. Ou seja, em vez de 6.805 fogos na primeira quinzena, tivemos 5696; portanto um forjado incremento de 19,5% aquando do relatório de há duas semanas. Isto significa portanto que, garantidamente, poucos foram os dias da primeira quinzena de Agosto com mais de 400 fogos e nenhum ultrapasou as 500 ocorrências; portanto não houve qualquer excesso de fogos durante a primeira quinzena de Agosto. E, claro, estou a incluir os tais fogos com menos de 100 metros quadrados (e mesmo com 1 metro quadrado), que em 2005, conforme comprovei no meu livro, representaram cerca de 28% das ocorrências totais oficialmente contabilizadas. E este ano veremos quantos são...

Enfim, estamos no país do vale-tudo. E à descarada! Há muito tempo que não via tamanha manipulação governamental, em conluio com as entidades técnicas da Administração Pública. E com a comunicação social, quase em coro, a cair na esparrela, tanto mais que quase aposto - a menos que entretanto leiam este blog e se insurjam - que agora nenhuma destacará esta desavergonhada manipulação.

Nota: Provavelmente, hoje, mais tarde, apresentarei aqui mais algumas avaliações. Nem todas são a destacar aspectos negativos. Na verdade, como já tinha aqui destacado, parece-me bastante interessante a situação em Castelo Branco. Mas noutros distritos, este está a ser um dos três piores anos de sempre.

9/05/2006

Vanessa Sequeira

Há vidas de sonho que acabam em pesadelo. O Mundo é triste e o assassinato da investigadora portuguesa Vanesa Sequeira acaba por ser um lancinante exemplo. Olhar as suas fotos publicadas neste blog, que aborda o seu trabalho e a sua morte, provoca uma dor de alma: aquela alegria estampada num rosto que denuncia, sem esconder, o seu prazer pelo trabalho que fazia na Amazónia. E onde encontrou a irracional violência humana e a morte.
Intermezzo

Ausente de Lisboa nos últimos dois dias, estive no meio da floresta, vendo coisas interessantes numa região que não quer voltar a arder. Aquilo que vi está na boa direcção (diria excelente), mas é uma pequena ilha. Falarei em breve sobre isso.

Entretanto, um direito de resposta do presidente do Instituto da Água publicado no Diário de Notícias no passado sábado terá a resposta devida, no sítio devido. Mas que a imprensa precisa de ir fazer uma reflexão, ai isso precisa. Darei notícias, muito em breve.

9/02/2006

Tolices e tontices na Rua do Século

A ideia do Ministério do Ambiente em relação à redução da velocidade nas auto-estradas de 120 para 118 km/h para reduzir as emissões de dióxido de carbono de Portugal tem ainda uma nuance. No Diário de Notícias de hoje uma fonte do Ministério do Ambiente (mais uma vez não identificada, desta vez certamente para que a dita «fonte» não caia no ridículo) refere que «não serão feitas alterações ao Código da Estrada», acrescentando que se vai apenas «sensibilizar» os cidadãos para a redução da velocidade média de circulação nas auto-estradas. O Ministério do Ambiente ainda consegue aumentar o grau de tolice. Mas será que os neurónios bloqueiam quando se entra na antiga sede do jornal «O Século»?
Dois exemplos para uma avaliação

No meu livro, defendi a necessidade de avaliação das operações de combate aos incêndios florestais não apenas para detectar o que corre mal, mas também o que corre bem, para que se possa aprender com o mal e com o bem. Ora, nos últimos tempos tenho constatado que no distrito de Castelo Branco se verifica uma capacidade extraordinária de mobilização de meios (sobretudo aéreos) que fazem com que os incêndios quase nunca ultrapassam as seis horas. É certo que esta estratégia de ataque massivo tem um custo elevado (por exemplo, ainda ontem num incêndio em Vila velha de Ródão chegaram a estar 10 meios aéreos), mas provavelmente, nas actuais circunstâncias, é a única hipótese que aquela região tem de não sofrer incêndios dantescos.

Ao invés, noutras regiões continua-se a brincar com o fogo. Por exemplo, esta noite (escrevo às 00h30) está a lavrar um incêndio em Vila Verde, numa zona a sul da serra do Soajo desde as 14h51 de ontem. Durante toda a tarde estiveram cerca de 20 bombeiros. Agora, estão 38 homens e 10 veículos, com a presença já do comandante distrital. Ou seja, durante uma tardde deixou-se o fogo andar a crescer. E há alguém responsável por isso, certamente.

9/01/2006

Só fez calor, não choveu...

O Instituto de Meteorologia apresentou hoje o habitual resumo climatológico mensal relativo a Agosto. É um pequeno documento de quatro páginas (portanto, uma síntese), mas peca obviamente por ser enviesado e ir ao encontro daquilo que os nossos governantes tanto gostam para justificar os incêndios: esteve muito calor, sobretudo no período entre os dias 2 e 13, e a partir do dia 20. E O instituto de Meteorologia faz o favor e destaca a ocorrência de ondas de calor e até chega a dizer enigmaticamente que o mês de Agosto «ficará entre os 15 mais quentes», como se o 15º lugar fosse igual ao 1º lugar...

Porém, intercalando estes períodos, como certamente se recordam, choveu que se fartou, sobretudo entre 17 e 19 de Agosto. E tem sido isso que faz com que os incêndios ainda não tenham eclodido na sua máxima força (a minha tese, como já defendi, é que se torna «necessário» duas semanas sem chuva no Verão para começarmos a ter incêndios de grandes dimensões). Porém, o relatório do Instituto de Meteorologia quase ignora o aspecto da precipitação, dedicando-lhe menos de 1/8 das páginas. Apenas faz uma pequena referência no final da primeira página e outra no final da última, onde se fica a saber que «nas regiões do interior e Sul (de Portugal) os valores elevados da quantidade de precipitação nos dias 17 a 19, (foram) muito superiores aos valores médios mensais». Em quanto, não se sabe. Mas o único valor de referência para se inferir uma dimensão é em Bragança - o local onde choveu mais no território português -, que registou uma percipitação mais de quatro vezes superior à média. Ou seja, em Agosto houve uma bênção dos Céus que ajudou a que não ardesse mais; mas o Instituto de Meteorologia parece querer ignorar...

Nota 1: Claro que não me admirará nada que as notícias de amanhã na comunicação social destaquem apenas que Agosto foi muito quente e que mesmo assim não houve muita destruição da floresta...

Nota 2 - Era suposto que a Direcção-Geral dos Recursos Florestais apresentasse hoje o relatório dos incêndios. Não o fez, o que não se justifica. Em Portugal, não há prazos a cumprir.

Tudo é histórico... até o disparate

Para tentar deslocar a polémica em torno da redução do caudal do Guadiana, o Ministério do Ambiente tentou que a comunicação social deslocasse as atenções para outros rios, supostamente mais problemáticos. Daí que uma «fonte do Instituto da Água» (não identificada, claro) se aprestasse a dar informações ao Correio da Manhã para que se mostrasse ao povo de Portugal que a situação do Douro em Espanha é muito pior do que a do Guadiana. E por isso Portugal pode ser mais afectado por essa causa.

Os disparates da notícia do Correio da Manhã são vários - a começar pelo facto de que no Douro as barragens são de «fio de água» devido à sua reduzida capacidade de armazenamento, pelo que é natural haver pouca água no Verão -, mas o maior surge quando o jornalista refere que «as reservas de água da bacia hidrográfica do Douro espanhol atingem valores históricos de falta de água». Porém, logo na frase seguinte fica-se a saber que afinal «as barragens estão agora com apenas 34,5 por cento da sua capacidade máxima, um valor superior em apenas 1,7 por cento da capacidade de armazenamento registada no ano passado, quando ocorreu a pior seca dos últimos cem anos». Ou seja, ao contrário do Guadiana, no Douro afinal há mais água do que no ano passado (aliás, como escrevi ontem e hoje em artigos do Diário de Notícias). Por isso, não se compreende onde estão os «valores históricos». A menos que tudo seja histórico... até o disparate.

Nota: Este é mais um caso que vai ao encontro do que já escrevi sobre a falta de preparação técnica dos jornalistas, que permite manipulações por parte das «fontes».

A silly season ainda não terminou

Sabe-se que os consumos de combustível e as emissões de dióxido de carbono dos veículos automóveis «disparam» quando se aumenta a velocidade. E sabe-se também que a esmagadora maioria dos automobilistas excedem em muito o limite de velocidade nas auto-estradasa (120 km/h para os ligeiros), como tem vindo a ser relatado por alguns estudos (vd. um exemplo aqui).

E o que faz o Governo? Controla mais os excessos de velocidade por razões de segurança e de ambiente? Não! Decide, de forma folclórica, meter como medida do Plano Nacional de Alterações Climáticas uma redução da velocidade nas auto-estradas de 120 para 118 km/h. Dois quilómetros a menos... Aos autores desta proposta proponho que se lhes dê mais um mês de férias: ainda não recuperaram do cansaço. Ou então regressaram ao trabalho com sentido de humor.
Os desmentidos e outras estórias aquosas

Consulta-se o site do Ministério do Ambiente de Espanha e verifica-se que o Guadiana estava seco na segunda-feira passada. Vai-se ao site do Instituto da Água e verifica-se que á entrada da albufeira de Alqueva, desde Maio, se registam 19 dias sem caudal e mais 15 com caudal residual (menos de 0,5 metros cúbicos por segundo). Portanto, dados oficiais, que podem se consultáveis. Pede-se o comentário ao Ministério do Ambiente sobre isto e escreve-se esta notícia, manchete de ontem do Diário de Notícias.

Reacções: de Espanha dizem que os seus dados estão errados por causa das férias de Verão; em Portugal, o Instituto da Água tenta desmentir, alegando que os caudais afluentes ao Alqueva não estão validados e apresenta valores de caudais junto à fronteira de uma estação que não é referência para o controlo do convénio ibérico e sobretudo por receber afluências de outros rios, já em território português. Por outro lado, apresenta valores de caudal recorrendo a médias móveis, que para quem está familiarizado com a estátistica, é uma forma engenhosa de eliminar os valores baixos (ou seja, os caudais zero).

Como a quase totalidade dos jornalistas pouco (ou nada) percebe de hidrologia e de estatística , divulgaram o desmentido do Instituto da Água como se esta entidade estivesse correcta e o jornalista fosse ignorante e mal intencionado. Hoje, no DN, sai um direito de resposta do Instituto da Água, mas também uma nova notícia da minha autoria que faz nova abordagem para «esclarecimento».

Em todo o caso, os diversos órgãos de comunicação social tinham a obrigação de salientar que, afinal, os desmentidos de Espanha e Portugal significa uma coisa: os dados oficiais publicados são afinal sempre «desmentíveis», se por acaso um jornalista que entenda dos assuntos descobre algo inconveniente...

Nota 1 - Esta questão merece, aliás, uma reflexão interessante. Se um jornalista especializado descobre algo - devido aos seus conhecimentos técnicos - sujeita-se a ser facilmente «desmentido», porque a entidade em causa se aproveita da «ignorância técnica» da generalidade dos outros jornalistas (porque em Portugal continua a apostar-se em jornalistas generalistas) para poder manipular a seu bel-prazer. Donde se conclui que em terra de cegos, quem tem olho pode ser, certo dia, acusado de estar a sofrer de alucinações. Em todo o caso, tive a total confiança da direcção do Diário de Notícias naquilo que escrevi ontem e hoje, o que me apraz registar com muito agrado.

Nota 2 - Esta foi uma daquelas notícias em que não consegui em «on» qualquer cometário de alguém especializado que apoiasse os meus textos - ninguém se quis expor. Optei, como sempre faço nestes casos, em assumir aquilo que apurava pela análise que fiz aos dados, pondo assim a «cabeça no cepo», porque confio naquilo que faço. Mas se não tivesse escrúpulos, poderia ter sempre metido na notícia de ontem qualquer coisa do género (é uma caricatura, claro): «Fonte do Ministério do Ambiente, sob anonimato, referiu ao DN que a ausência de caudal já fora detectada há semanas, mas que o Ministério dos Negócios retirou uma queixa forma a Madrid por receio de que os soldados portugueses a serem enviados para o Líbano fossem alvo de represálias pelas chefias espanholas». Tinha uma certa piada e eu, claro, refugiar-me-ia nas alegadas fontes anónimas para criar um facto político.

8/31/2006

Oportunidade perdida

A polémica levantada por Eduardo Cintra Torres (ECT) na sua coluna de opinião no Público da semana passada - em que analisando o tempo de abordagem dos noticiários da RTP em relação aos incêndios, acusa depois, «escondendo-se» em fontes anónimas, que o Governo dá «recados» à Direcção de Informação Pública - acabou por ser uma oportunidade perdida para se chegar ao âmago da questão. Em vez de acusar - sem jamais conseguir provar - poderia e deveria questionar. E de forma muito comprometedora.

Se se recordam, ECT comparou os noticiários das televisões no dia 12 de Agosto para mostrar que havia uma clara secundarização dos fogos na RTP. O dia 12 foi um sábado. Por acaso, eu já tinha feito uma análise semelhante no dia 6 de Agosto, quando então escrevi o post «O frete televisivo», que podem aqui reler:

No Portugal da RTP - empresa pública de televisão -, hoje não houve fogos em Portugal. E os que houve ficaram remetidos para as calendas do alinhamento e apenas os que foram extintos. Enquanto as outras televisões (SIC e TVI) deram o destaque merecido, com directos q.b., a RTP gastou 33 minutos do seu telejornal das 20 horas a abordar a guerra no Líbano (com pelo menos três directos com outros quantos jornalistas), a tensão no Irão, os problemas em Gaza, a doença de Fidel Castro, um acidente no Parque da Pena devido à queda de uma ramada de eucalipto (que causou uma morte). Depois em dois ou três minutos, a RTP apenas abordou dois incêndios, ambos circunscritos de manhã e, nessa altura, já extintos: na Póvoa do Varzim e em Paredes (Aguiar de Sousa). De resto, nem uma única palavra sobre a situação actual, designadamente a mais de uma dezena de incêndios que então estavam ainda não circunscritos. Eis um exemplo de serviço público que, sob critérios inconfessáveis, se confunde com serviço do Governo. Eu bem que temia que a introdução de critérios para a abordagem dos incêndios pela Direcção de Informação da RTP - de que falei há dias -, ia dar nisto...

Ora, o dia 6 de Agosto foi um domingo. Também fui reparando, ao longo dessa semana, que a RTP passou a dar um destaque algo semelhante à das outras televisões. E também já tinha reparado que no dia 9 de Julho - um domingo -, quando morreram os seis bombeiros na Guarda, a RTP também quase ignorou o caso.

Em suma, ECT poderia - e deveria, porventura - ter levado o seu trabalho mais longe. Porque os indícios que tenho - e que poderiam sem confirmados com um pequeno trabalho - é que existiram grandes diferenças entre os noticiários da «RTP fim-de-semana» e da «RTP dia-da-semana». Se isso se confirmasse com uma análise um pouco mais exaustiva - como indiciam os dias 9 de Julho, 6 e 12 de Agosto -, então munido de dados concretos, ECT poderia questionar a RTP de tão estranho critérios, tanto mais que as equipas que fazem os noticiários são distintas nestes dois períodos. E se uma (a dos «dias-da-semana) teve critérios objectivos, a outra (a dos «fim-de-semana) não os teve.... algo teria de ser bem explicado.

Nota: O uso das fontes anónimas (uma «praga» no jornalismo português) deveria ser erradicado do jornalismo ou apenas usado em circunstâncias muitíssimo especiais. E em notícias de política (ou com implicações nesta área) deveria ser, desde já, banido. A fonte anónima em Portugal serve para tudo, desde lançar boatos, fazer acusações ou «disfarçar» a incompetência dos jornalistas em investigar ou assumir a responsabilidade daquilo que escrevem. Se vezes usei (muito poucas) as fontes anónimas em artigos, foi para proteger pessoas, não para me «proteger» de ataques ao que assumidamente escrevi.

8/30/2006

Simplex complicadex

A Fundação da Ciência e Tecnologia, tutelada pelo Ministério da Ciência - que deveria ser uma espécie de porta-estandarte do «choque tecnológico» - decidiu , imbuída no espítito «Simplex», passar a receber as candidaturas aos projectos de investigação pelas universidades e institutos através da Internet. Na teoria, uma excelente ideia, apenas com virtudes: poupança nos custos, no papel e na burocracias de correios e quejandos.

Porém, o «Simplex» anda cada vez a mostrar-se mais «Complidex». Hoje soube-se que uns milhares de investigadores andaram a queimar neurónios nos últimos dias e horas de sono a tentar meter as suas candidaturas no sistema criado pela FCT. O tal criado pelo sistema Simplex eimbuído pelo choque tecnológico; ou vice-versa.

Razão: as tentativas de acesso foram tantas que o sistema bloqueou ou ficou baralhado com investigadores a chegarem a entrar, com as respectivas passwords, nas candidaturas de outros investigadores. Ou seja, a maior das confusões.

A FCT andou a «pedir emprestado» (se assim se pode dizer), uns quantos servidores para reforçar o seu choque tecnológico, mas nem assim. Resultado: culpou os investigadores de deixarem tudo para o último dia (coisa que o Simplex, por tão simplificado, não soube prever, parecendo que não conhece os portugueses ou que a entrega de uma candidatura até ao prazo final não é tão válida e legítima como a entregue com um mês de antecedência) e teve de alargar a aceitação das candidaturas até ao dia 15 de Setembro.

Esta é, pelo que sei, a segunda situação de atraso (a primeira foi com o «selo do carro») em que o Simplex dá para o torto e que se têm de prorrogar prazos, donde se concluiu que o choque tecnológico em Portugal acaba por ser uma «força de bloqueio».

8/29/2006

Um Estado forte contra os fracos

Executar as demolições na Azinhaga dos Besouros é legal e eticamente um acto de justiça social, mesmo que estejam subjacentes alguns factores sociais de injustiça individual. As construções são ilegais e num Estado de Direito , a perpetuação destas situações apenas permite o seu alastramento indefinido, com «expedientes» vários feitos por quem aguarda que o Estado Providência lhe arrange uma casa gratuita, paga pelos contribuintes.

Porém, o Estado de Direito comete uma injustiça colectiva quando o exercício de poder face às populações mais pobres é feita com a maior das celeridades e sem apelo nem agravo. O Estado de Direito deveria exercer a mesma acção contra as casas ilegais que pululam por muitos lados, de gente que há anos «aguarda» que as suas casas sejam legitimamente demolidas. Estou-me a lembrar da Arrábida e do Algarve, por exemplo...

Em suma, o Estado de Direito em Portugal é forte contra os fracos e fraco contra os fortes...
Onde é que eu já vi isto?

O ministro da Agricultura foi hoje à Companhia de Lezírias apresentar uma nova estratégia da maior herdade pública de produção primária. Afinal, a única «inovação» que noto, pelas notícias, é a pretensão de «se criar uma Fundação com entidades privadas, mecenas, câmaras, banca e outras instituições da sociedade civil, com o objectivo de envolvê-las na preservação do cavalo Lusitano», de acordo com as palavras do ministro Jaime Silva, aproveitando a integração do Serviço Nacional Coudélico e da Coudelaria de Alter-do- Chão na Companhia das Lezírias.

Embora o actual Governo já tenha garantido que não pretende privatizar a Companhia das Lezírias - uma ideia obtusa do Governo de Durão Barroso -, esta ideia de se criar uma Fundação com entidades privada, mecenas, autarquias, bancas e quejando «cheira-me» a uma repetição do processo da Herdade da Vargem Fresca. Para quem não se recorda, a ideia inicial era implementar um projecto do agro-turismo de carácter pedagógico com uma empresa estrangeira e com a FLAD, constituindo-se a Prtucele. Entretanto entrou em jogo a banca, a Companhia das Lezírias vendeu os terrenos ao preço da uva mijona e tivemos depois um imbróglio de todo o tamanho com corte de sobreiros e outras tropelias conhecidas em torno de um projecto imobiliário. Não se admirem, portanto, se dentro de algum tempo esta «Fundação do Cavalo» galope rapidamente para um projecto imobiliário...

8/28/2006

Um pivete lusitano

Parece já fazer parte do fado lusitano, as redes de esgotos a rebentarem durante o Verão, as bandeiras azuis a serem arreadas por causa dos esgotos, os turistas a fugirem do pivete ora por causa do derrame dos ditos esgotos ou alegadamente por causa das lamas das ETAR. Os casos, dir-se-á, ocorrem de forma pontual. Mas juntando os pontos, algo está mal, muito mal, quando o somatório é tão elevado e percorre o país de Norte a Sul. Afinal, os fortes investimentos no litoral em saneamento básico serviu para isto?

Deixo aqui uma breve lista de notícias, não exaustivas, que foram saindo apenas neste mês de Agosto; algumas ter-me-ão escapado:

28 de Agosto (Diário de Notícias) - Um mau cheiro intenso durante várias horas, provocado pela remoção de lamas de uma Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR), obrigou dezenas de turistas a abandonar, no sábado, a praia da Falésia, em Vilamoura.

25 de Agosto (Jornal de Notícias) - Ao fim da tarde da passada terça-feira, a Capitania de Caminha hasteou a bandeira vermelha na praia de Vila Praia de Âncora, após ter sido notificada pelo Ministério do Ambiente de que a Delegação Regional de Saúde tinha interditado os banhos na designada Praia das Crianças", devido à presença de salmonelas (vestígios de contaminação fecal) nas duas últimas análises realizadas às águas da foz do rio Âncora, nos dias 25 de Julho e 8 de Agosto.

23 de Agosto (Lusa) - A praia de Vale do Lobo, no Algarve, vai deixar de ter Bandeira Azul até ao final da época balnear devido à poluição que originou uma análise má à qualidade da água.

21 Agosto (Lusa) - A Capitania do Porto da Figueira da Foz alargou hoje a uma extensão de 800 metros a interdição a banhos na praia de Buarcos, na Figueira da Foz, devido a poluição por esgotos, disse fonte daquela entidade.

18 de Agosto (Lusa) - Uma fuga de poluentes atingiu hoje a Ria Formosa, perto da Doca de Faro, uma situação justificada pela empresa municipal de águas e resíduos FAGAR com a "forte chuvada" que se abateu sobre a cidade na quinta-feira.

17 Agosto (Lusa) - A praia da Franquia, em Vila Nova de Milfontes (Odemira), já foi reaberta a uso balnear depois de interdita durante alguns dias, devido a uma descarga de esgotos domésticos no areal, garantiu hoje o município. O presidente da Câmara Municipal de Odemira, António Camilo, explicou hoje à agência Lusa que a descarga de esgotos domésticos, ocorrida na semana passada, foi causada por uma "avaria" no colector de águas pluviais.

9 de Agosto (Público) - Uma descarga de esgotos e lamas interditou hoje os banhos na praia de Esmoriz, em Ovar, pelo segundo dia consecutivo.

8/27/2006

Um novo teste se aproxima

Depois das chuvas que atingiram Portugal durante alguns dias a meio deste mês, estamos quase a atingir a segunda semana sem precipitação. As temperaturas têm estado relativamente amenas para esta época do ano, com excepção do sul do país e a parte sul da Beira Interior. De acordo com as previsões meteorológicas para os próximos dias (sempre falíveis, sobretudo com mais de 72 horas), o tempo será quente e seco, com excepção da faixa Minho-Beira Litoral. Isto para dizer que novo teste se aproxima...

Aliás, convém salientar que, se é certo que dificilmente se chegará aos anos catastróficos de 2003 e 2005 – quase impossível, fisicamente, de ocorrer já, por as extensas áreas então dizimadas estarem em «pousio», imunes aos fogos –, uma retrospectiva ao passado mostra que Setembro, e mesmo a primeira quinzena de Outubro, podem contribuir para aumentar significativamente a destruição. Com efeito, nos anos de 2000, 2001 e 2003, as chamas devastaram, durante este período, uma área na casa dos 40 mil hectares. No ano passado atingiu os 36 mil hectares. Nos anos de 2002 e 2004, o final do Verão e início de Outono foi mais benigno, devido às chuvas, tendo ardido 6,7 mil e 15 mil hectares, respectivamente.

O próximo mês será assim crucial para confirmar se o Governo conseguirá, pela primeira vez desde 1999, que o país arda menos de 100 mil hectares – um valor que, aliás, se encontra como referência no recém aprovado Plano Nacional de Defesa da Floresta contra Incêndios.

No entanto, os números da área ardida que serão, previsivelmente, apresentados em Outubro estarão ainda sujeitos a rectificações, pois por norma pecam por defeito. Por exemplo, no ano passado os primeiros valores apontavam para uma área ardida de 294 mil hectares. Com o avançar dos meses, sucessivas rectificações fizeram este número subir para os 338 mil hectares, ou seja, um acréscimo de 15%.

8/25/2006

Conceitos de bombeirês

Pela primeira vez, um take da Lusa, desta noite, esclarece as noções de bombeirês, de acordo com o SNBPC, em relação aos incêndios florestais. Passo a citar esse extracto da agência noticiosa

O facto de um incêndio estar "circunscrito" significa apenas que está impedido de se proagar.
Na terminologia dos bombeiros, segue-se depois a fase em que está "dominado", isto é, que as chamas cedem aos meios de combate.
Depois, o incêndio poderá ser "extinto", passando-se depois à fase de "rescaldo", a operação mais complexa em que se tenta impedir que nem uma simples brasa fique no terreno e dê origem a reacendimentos.
Por último, o incêndio entra em fase de "vigilância", em que, durante algumas horas, várias pessoas velam para que qualquer foco mal apagado não desperte o pesadelo das chamas.

Um pouco de humor na página do SNBPC

Como se sabe, Plutão foi despromovido, deixando de ser considerado um planeta do Sistema Solar. Provavelmente em protesto contra essa decisão, o SNBPC teve durante breves minutos (corrigiu entratanto) a seguinte descrição dos meios usados no incêndios de Proença-a-Nova:

Aerotanque pesado Canadair,Beriev,CODIS,2ºCODIS,GRIF Santarém,GRIF Portalegre,GRIF Leiria,Coluna Nacional, Veiculo de Comando e Comunicações. Posto de Comando no CMA Proença-a-Nova. 4 Plutões militares.
A ajuda do céu

Ontem, o Jornal de Notícias fazia manchete (ver aqui) sobre a alegada menor utilização dos meios aéreos no combate aos incêndios deste ano em comparação com o ano anterior. A notícia referia, logo no início, o seguinte: «Aviões menos horas no ar, menos meios de reforço, menos militares empenhados no terreno. Apesar dos recordes no número diário de ocorrências atingidos na primeira quinzena de Agosto, os dados quantitativos de actuação do dispositivo de combate a incêndios mantêm-se todos muito longe dos valores de 2005. O número de horas de voo dos meios aéreos é de pouco mais de metade do ano passado, considerando o período até 15 de Agosto, a actuação dos grupos de reforço ficou-se por um terço e também o recurso a meios militares e outros apoios logísticos diminuiu».

Este é o género de análise jornalística usando estatística de pacotilha, sem qualquer nexo, cai no habitual erro de comparar um ano com o anterior. E sobretudo com o facto de não se fazer uma análise crítica aos números verdadeiros de ocorrências. Aliás, mais à frente no texto, acaba-se por acrescentar que «estes dados [menor uso de meios] contrastam com a estatística das ocorrências, que este ano é superior à média dos cinco anteriores (respectivamente 19 195 e 17 933), embora o número de incêndios (com mais de um hectare) seja inferior. Isto explica-se porque na contabilidade final entram os fogachos (com menos de um hectare) e as ocorrências sem área, como os falsos alarmes, que representam cerca de um quarto do total, segundo dados da Direcção-Geral de Recursos Florestais».

Ou seja, em rigor, se quisermos comparar o uso de meios aéreos entre dois anos (o que, mesmo assim, é um exercício fútil) deveriamos apenas comparar os incêndios que, em cada um desses anos, usaram de facto esses meios aéreos. Caso contrário, estaremos a meter ao «barulho» uma infinidade das tais ocorrências sem áreas (é a primeira vez que, numa notícia, acaba por se assumir oficialmente que existem ocorrências sem área - e não sei o que isto é senão fogos que não existem - e os falsos alarmes nas estatísticas oficiais) que desvirtuam qualquer análise comparativa. O que interessa saber é se por cada intervenção (leia-se incêndio com uso de aeronaves), a factura, em dinheiro, está a aumentar ou não.

Embora admita que não tenha informação estatisticamente válida, ao longo deste Verão tenho constatado situações em que existe um ataque massivo de meios aéreos em determinados fogos nascentes, sobretudo em períodos de menor incidência de incêndios. Por exemplo, neste preciso momento, encontra-se, segundo o site do SNBPC, um único incêndio não circunscrito em Portugal: em Vale do Urso, no concelho de Proença-a-Nova (Castelo Branco), que alegadamente se iniciou às 12h41 (neste momento em que escrevo são 13h00). Ora, para um fogo que supostamente começou há pouco tempo, temos neste momento no teatro das operações, além de 73 bombeiros e 23 veículos, nada mais nada menos do que 3 helicópteros, 4 aerotanques e foi accionado o Canadair e o Beriev. Ou seja, para um só incêndio manda-se 9 meios aéreos, que têm obviamente custos elevadíssimos. Já tenho referido, aliás, que é um erro crasso confiar apenas na capacidade de extinção dos meios aéreos. Numa situação como de hoje (apenas com um fogo activo a esta hora) tem uma elevada probabilidade de sucesso, mas com uma factura pesada. E em dias com maior número de incêndios, acaba por falhar, porque não podem ir a todas. Em suma, a aposta massiva em meios aéreos acaba apenas por disfarçar a ineficácia do combate em terra. Até um dia...

8/24/2006

Se até o líder dos bombeiros critica os números do Governo....

Por estranho que possa parecer - e ainda mais tendo em consideração o post anterior -, tenho a melhor das impressões em relação à postura e atitudes do presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Duarte Caldeira. Em inúmeras posições, ele mostra um conhecimento profundo da realidade dos incêndios florestais e, confesso, subscrevo a esmagadora maioria das análises que faz sobre estas questões. Na verdade, a sua postura é quase de diplomata dos bombeiros, em contraste com a visão algo maniqueísta da quase generalidade das chefias dos bombeiros voluntários.

Este meu intróito serve para realçar o editorial da últiam edição do jornal «BP», da Liga dos Bombeiros Portugueses, onde Duarte Caldeira aponta, com oportunidade, as incoerências dos relatórios da Direcção-Geral dos Recursos Florestais que têm um rigor que deixa muito a desejar. E defende também a criação de uma estrutura - eventualmente um Observatório - que ponha fim à bandalheira das estatísticas oficiais - aspecto, aliás, defendo no meu livro e que tenho vindo incessantemente a chamar a atenção nos últimos tempos.

O texto de Duarte Caldeira pode ser lido aqui (ver página 2 - atenção que o pdf demora a ser descarregado), mas para facilitar, publico-o textualmente a seguir.


A saga dos relatórios da DGRF*

Não é novo. Sempre questionámos os modelos de relatório elaborados pela Direcção-Geral dos Recursos Florestais (DGRF), em especial no que se refere às análises dos dados estatísticos referentes ao número de ocorrências e às áreas ardidas de anos diferentes.
Continuamos com uma dúvida quanto à natureza provisória dos relatórios, bem como quanto ao momento em que os dados por eles disponibilizados passam a definitivos.
Temos ainda dúvidas quanto aos critérios de validação da informação de base em que eles se sustentam.
A título de exemplo, no relatório relativo ao período de um de janeiro a 31 de Julho refere-se que , no distrito de Viseu, ocorreram 50 reacendimentos, enquanto em todos os demais distritos os reacendimentos situam-se entre zero e seis.
Atrevemo-nos a afirmar: há qualquer coisa nestes dados que carece de explicação. Estarão a ser adoptados em todo o País os mesmos critérios de quantificação das variáveis ema nálise?
Esta pergunta pode colocar-se em relação a outras incoerências que um estudo cuidado e sistematizado dos relatórios produzidos pela DGRF sugere.
Como confiar nos dados que nos são disponibilizados?
Como comparar resultados de anos diferentes, se não temos a necessária confiança quanto à fiabilidade da informação que os deve sustentar?
Esta é uma matéria relevante, que exige a adopção de medidas.
Voltamos a propor a criação de uma estrutura (um Observatório?) que acerte as metodologias, integre a informação, padronize as variáveis, monitorize as medidas de acção política e, só depois, avalie e divulgue os resultados.
Ponha-se fim aos campeonatos de estatística, que apenas servem para alimentar as agendas desertas, no mês de Agosto, dos meios de comunicação social.
Levemos todos a sério, de uma vez por todas, o carácter determinante da informação, enquanto instrumento insubstituível para suportar as decisões.

* Duarte Caldeira, Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, in BP, Agosto de 2006, pg. 2



Levei uma repreensão

No último jornal mensal «BP», de Agosto, editado pela Liga dos Bombeiros Portugueses, na última página, este vosso escriba merece uma nota de destaque na secção «Louvor/Repreensão». Claro que a mim, escriba, coube a «Repreensão», «pela forma como aborda a temática dos incêndios, com mal disfarçados preconceitos para com os bombeiros, e não só» (ver aqui).

Defender a profissionalização para que os bombeiros tenham melhores condições, melhor treino físico, táctico e estratégico, considerar que é inumano colocá-los em risco de vida (permitindo que estejam em acções de combate dias a fio) é, segundo a Liga dos Bombeiros Portugueses, denotar «mal disfarçados preconceitos para com os bombeiros».

Defender que deve ser feita uma avaliação objectiva da eficácia, um controlo dos registos das ocorrências, uma mais adequada distribuição dos meios de combate é, segundo a Liga dos Bombeiros Portugueses, denotar «mal disfarçados preconceitos para com os bombeiros».

Defender que deveria haver uma clarificação do Estatuto Social dos Bombeiros, de modo a que os bombeiros voluntários não disponíveis deixem de «parasitar» os benefícios sociais dos bombeiros voluntários disponíveis é, segundo a Liga dos Bombeiros Portugueses, denotar «mal disfarçados preconceitos para com os bombeiros».

Defender que o comando das operações deve ser entregue a pessoas com habilitações e eleitas pelo mérito é, segundo a Liga dos Bombeiros Portugueses, denotar «mal disfarçados preconceitos para com os bombeiros».

Enfim, a existir um preconceito é da parte do órgão oficial da Liga dos Bombeiros Portugueses que considera que quem mexe na «vaca sagrada» - o voluntariado - só pode «ter mal disfarçados preconceitos».

Quanto ao «e não só», não entendo. Pode ser que no jornal de Setembro haja mais espaço para se explicarem.

8/23/2006

Será que mudámos alguma coisa?

Encontro num catálogo de um livreiro uma obra, publicada em dois volumes (mas só um está disponível), com um sugestivo título: Genuína exposição do tremendo marasmo político em que cahio Portugal, com desenganada indicação dos únicos remédios apropriados à sua cura radical, dedicada aos verdadeiros amigos do bem público. A obra é de 1834, mas se calhar alguém deveria publicar outra, 172 anos depois.
É triste, é muito triste

O Governo continua insensível aos apelos dos agricultores da zona afectada pelo incêndio do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Ouvi agora o presidente da Junta de Freguesia do Soajo a dizer na TSF que só queriam que fossem fornecidos a alimentação para o gado que perderam os pastos, mas que não há disponibilidade estatal para esse apoio. Estamos a falar de umas poucas dezenas de milhares de euros que o Estado tem obrigação de suportar por duas razões: o incêndio na Peneda-Gerês deveu-se sobretudo a negligência nas operações de combate e estamos perante uma área protegida em que as relações com a população humana residente é vital. Aliás, é por estas (faltas de apoio) e por outras que, por vezes, se observa tanta animosidade das populações em relação à conservação da Natureza.


8/21/2006

Chuva de fogachos esconde deficiências

Como não consegui publicar este texto em nenhum órgão de comunicação social (e não quero estar aqui a explicar as razões, que são irrelevantes para o caso), opto por o colocar aqui para não preder actualidade. Consiste numa análise ao último relatório da Direcção-Geral dos Recursos Florestais, e que contraria a propalada eficácia do combate aos incêndios.

Quase 90% de alegado sucesso na primeira intervenção nos fogos nascentes não evitaram que este ano esteja a ser um dos piores da década em termos de eficácia no combate aos incêndios florestais. Apesar do Governo – através dos ministros da Administração Interna, da Agricultura e até da Presidência – se ter congratulado esta semana com os bons resultados da «época dos fogos», os dados do último relatório da Direcção-Geral dos Recursos Florestais (DGRF) contradizem este optimismo. Na realidade, o ano de 2006 está a atingir graus de destruição quase semelhantes a 2004 e piores do que os obtidos no período entre 1996 e 2002.

De facto, descontando os mais de 16 mil fogachos registados até 15 de Agosto – ou seja, as pequenas ignições que, no seu conjunto, não queimaram mais de dois mil hectares –, cada incêndio deste ano causou uma devastação média de 20 hectares. Pior do que isto apenas se encontram os catastróficos anos de 2003 (80 hectares por incêndio) e de 2005 (40 hectares por incêndio). De resto, os valores de 2006 estão um pouco acima de 2004 (25 hectares por incêndio), mas superam largamente os do período anterior a 2003. Por exemplo, em 1999 – último ano em que se ficou abaixo dos 100 mil hectares ardidos –, o grau de destruição cifrou-se em menos de 12 hectares por incêndio.

Mas ainda existem mais sinais de preocupação relativamente ao desempenho no combate. Os incêndios deste ano estão a atingir sobretudo concelhos que, desde 1990, tinham estado quase imunes à devastação das chamas. E a actual taxa de destruição em áreas protegidas (cerca de nove mil hectares em 8% do território português) é o dobro da média nacional. Além disto, mesmo comparando com a situação espanhola – que está a atravessar a pior época da última década, já com 120 mil hectares queimados –, Portugal apresenta, mesmo assim, piores resultados relativos. De facto, como o território de Espanha é cinco vezes e meia superior a Portugal, os nossos 50 mil hectares ardidos até agora representariam, do outro lado da fronteira, 275 mil hectares. Ou seja, mesmo este ano, o nosso país ardeu a uma taxa duas vezes superior a Espanha.

Este cenário mostra, assim, que a aposta na primeira intervenção está longe de ser vencedora. E os resultados até parecem mostrar, em muitas situações, que os indicadores de eficácia podem estar muito longe da realidade. Com efeito, até agora conseguiu-se extinguir 88% de todas as ignições registadas antes de ultrapassar um hectare ardido – fronteira que separa, tecnicamente, os fogachos dos incêndios –, mas a evolução é demasiado excelente para não levantar dúvidas. De facto, na última década a taxa de sucesso da primeira intervenção rondava os 76%, sem que em nenhum ano se conseguisse chegar aos 80%. Estes valores já eram, em si mesmo, demasiado elevados para os padrões internacionais. Por exemplo, na Espanha – onde existem menos ignições e área ardida, mesmo em termos absolutos –, essa taxa ronda apenas os 65%.

Mais do que uma eficácia de excelência – que, em todo o caso, não se repete no combate estendido – estas taxas indiciam alguma «engenharia estatística», que permite manipulações. Com efeito, apenas os incêndios com mais de 10 hectares ardidos têm uma confirmação posterior da sua existência no terreno, por parte da DGRF. Significa isto que a esmagadora maioria dos registos de pequenas ignições é transmitida pelas corporações de bombeiros, sem ocorrer qualquer validação oficial. Por exemplo, no ano passado, 28% dos fogos registados tiveram áreas alegadamente queimadas inferiores a 100 metros quadrados. E existem mesmo milhares de registos com áreas de um, dois ou três metros quadrados. Ou seja, muitos podem nem sequer ter existido.

O interesse em registar muitos fogachos é duplo: funciona como argumento da dispersão de meios – justificativo aquando dos grandes incêndios – e melhora a eficácia da primeira intervenção. Isso mesmo se verifica este ano: houve apenas 2402 incêndios – um valor que está dentro da normalidade –, mas registaram-se quase 16800 fogachos, um número absurdamente elevado. Numa análise detalhada, verificam-se mesmo casos regionais intrigantes. Por exemplo, em Faro, em que apenas arderam 103 hectares até agora, houve já 506 ignições – mais do dobro do número médio em anos anteriores –, das quais 465 foram meros fogachos. Em Aveiro para 1856 ignições contabilizam-se 1765 fogachos, o que deste modo permite uma impressionante taxa de sucesso de primeira intervenção de 95%.

A suspeita de inflação na contabilização de fogachos ganha ainda mais forma quando se comparam os registos nacionais com o Nordeste espanhol, que reconhecidamente apanhou com uma vaga de chamas. Até meio de Agosto, o Ministério do Ambiente espanhol registou 7920 fogos nas comunidades da Galiza, Astúrias, Cantábria e País Vasco e nas províncias de Leão e Zamora. Porém, sem que isso fosse visível no terreno, em Portugal terão sido registados 8.059 fogos apenas nos distritos de Viana do Castelo, Braga e Porto. Neste último distrito contabilizou-se 1702 fogos na primeira quinzena de Agosto – o que dá mais de uma centena por dia –, embora somente surjam nas estatísticas oficiais 212 a ultrapassarem um hectare de área queimada.

Mas também nos reacendimentos – as novas ignições em fogos considerados extintos, por deficiência no rescaldo –, os resultados deste ano mostram uma evolução anormalmente boa. De facto, no último quinquénio, a taxa de reacendimentos em Portugal situava-se nos 4%, quase quatro vezes superior a Espanha. No entanto, este ano, oficialmente os reacendimentos quase desapareceram. Na primeira quinzena de Agosto apenas houve 13, representando 0,2% das ignições registadas. Ora, em igual período do ano passado – em que houve cerca de metade dos fogos –, tinham sido registados 272 reacendimentos, ou seja, 7% do total. Neste caso, por isso, a contabilidade oficial parece estar a excluir reacendimentos, para dar uma ideia de eficácia.

8/20/2006

Inventar a roda com ela já descoberta

O anúncio do Ministério da Administração Interna de profissionalizar os bombeiros que combatem os incêndios florestais, aproveitando-os no restante período para outras funções, embora seja um projecto ainda verde, parece-me com contornos que o direcciona para o fracasso. Pelo que se sabe pela imprensa, a ideia é criar uma estrutura profissional dentro das corporações de bombeiros voluntários - o que, em abono da verdade, já existe para os serviços ambulatórios e para a estrutura de combate aos fogos durante o Verão - com a criação de um comandante a ser nomeado pelo presidente da autarquia.

Tenho defendido a profissionalização dos bombeiros - única forma de garantir disponibilidade, de dar o treino e as tácticas mais eficazes, e portanto exigir melhores resultados -, mas criar uma estrutura profissional paga pelos dinheiros públicos no interior de uma estrutura gerida por associações privadas (como são as associações de bombeiros voluntários) não parece que vá dar bons resultados. Mais ainda quando um dos objectivos é o combate aos incêndios florestais. Voltarei ao tema, quando se conhecer em concreto o que se vai fazer, mas julgo que o modelo que se deveria seguir, no caso dos fogos florestais, era criar estruturas autónomas às dos actuais bombeiros voluntários, apenas controladas pelo Estado. Veja-se o que se fez em algumas cidades portuguesas (Lisboa, Porto, Gaia, etc.) ou no estrangeiro. Isto não retiraria trabalho aos bombeiros voluntários, tanto mais que apenas 3% das suas intervenções ao longo do ano são referentes ao combate aos incêndios florestais.

P.S. A imprensa, em geral, continua a ignorar que praticamente todos os bombeiros que estão a combater os fogos são profissionais ou profissionalizados (durante o Verão). A percentagem de bombeiros voluntários disponíveis é irrelevante, e ainda mais se se descontar aqueles que são funcionários de autarquias, cujo presidente os disponibiliza para as operações de combate (mas mesmo estes, bem vistas as coisas, recebem o dinheiro pela função na autarquia). Actualmente, no combate aos incêndios, o voluntariado praticamente não existe.

8/18/2006

Isto não é ser profeta, é conhecer os políticos

Ouvindo os ministros da Administração Interna, da Agricultura e até da Presidência tecerem loas às maravilhas que se estão a conseguir com a alegada redução da área ardida - somente não se juntou ainda o ministro do Ambiente, talvez por escrúpulos -, não resisto a colocar aqui uma pequena passagem do meu livro «Portugal: O Vermelho e o Negro» (vd. pg. 103-104):

Lamentavelmente, os piores anos de incêndios acabam, a prazo, por ser «benéficos» para os políticos, uma vez que servem na perfeição para subir o conceito de «ano catastrófico». Veja-se o caso de 2004: apesar de ter chovido bastante em Agosto, mesmo assim ardeu quase 130 mil hectares. Esse valor seria considerado catastrófico nos anos 70 e 80, mas perdeu «relevância» na presente década por causa dos trágicos números de 2003. O mesmo se aplica ao ano de 2005, que tendo sido também devastador, ficou 100 mil hectares abaixo dos valores de 2003. Os últimos anos têm mesmo modificado a percepção nacional sobre o grau de destruição. Se nas décadas de 80 e 90, um ano que rondasse 100 mil hectares queimados era tido como péssimo; agora seria um valor considerado excelente. Se num próximo ano se se regressar à casa da centena de milhares de hectares, os governantes terão a desfaçatez de vincar a «excelência» das medidas de prevenção e a eficácia do combate. Mesmo que tenha chovido a cântaros durante todo o Verão. A partir de agora para um ano ser publicamente calamitoso «necessita» que arda mais de 425 mil hectares. E, claro, se tal acontecer, a culpa será sempre do tempo quente e seco, como o senso comum dos portugueses «compreenderá» e a falta de memória auxiliará.

Os parabéns ao Ministério do Ambiente pelo bom serviço

Se nas áreas protegidas arderam 9.068 hectares (cf. informações do ICN); e se estas constituem cerca de 8% do total do território português, significa que se Portugal inteiro ardesse como as áreas protegidas deveríamos ter até agora um saldo de quase 115 mil hectares. Como ardeu «apenas» 50 mil, quer isto dizer que o Ministério do Ambiente está de parabéns: em termos proporcionais ardeu nas áreas protegidas o dobro daquilo que ardeu no país!

Mas como tudo recupera, garante o Instituto de Conservação da Natureza, não faz mal nenhum. The fire must go on.