8/21/2006

Chuva de fogachos esconde deficiências

Como não consegui publicar este texto em nenhum órgão de comunicação social (e não quero estar aqui a explicar as razões, que são irrelevantes para o caso), opto por o colocar aqui para não preder actualidade. Consiste numa análise ao último relatório da Direcção-Geral dos Recursos Florestais, e que contraria a propalada eficácia do combate aos incêndios.

Quase 90% de alegado sucesso na primeira intervenção nos fogos nascentes não evitaram que este ano esteja a ser um dos piores da década em termos de eficácia no combate aos incêndios florestais. Apesar do Governo – através dos ministros da Administração Interna, da Agricultura e até da Presidência – se ter congratulado esta semana com os bons resultados da «época dos fogos», os dados do último relatório da Direcção-Geral dos Recursos Florestais (DGRF) contradizem este optimismo. Na realidade, o ano de 2006 está a atingir graus de destruição quase semelhantes a 2004 e piores do que os obtidos no período entre 1996 e 2002.

De facto, descontando os mais de 16 mil fogachos registados até 15 de Agosto – ou seja, as pequenas ignições que, no seu conjunto, não queimaram mais de dois mil hectares –, cada incêndio deste ano causou uma devastação média de 20 hectares. Pior do que isto apenas se encontram os catastróficos anos de 2003 (80 hectares por incêndio) e de 2005 (40 hectares por incêndio). De resto, os valores de 2006 estão um pouco acima de 2004 (25 hectares por incêndio), mas superam largamente os do período anterior a 2003. Por exemplo, em 1999 – último ano em que se ficou abaixo dos 100 mil hectares ardidos –, o grau de destruição cifrou-se em menos de 12 hectares por incêndio.

Mas ainda existem mais sinais de preocupação relativamente ao desempenho no combate. Os incêndios deste ano estão a atingir sobretudo concelhos que, desde 1990, tinham estado quase imunes à devastação das chamas. E a actual taxa de destruição em áreas protegidas (cerca de nove mil hectares em 8% do território português) é o dobro da média nacional. Além disto, mesmo comparando com a situação espanhola – que está a atravessar a pior época da última década, já com 120 mil hectares queimados –, Portugal apresenta, mesmo assim, piores resultados relativos. De facto, como o território de Espanha é cinco vezes e meia superior a Portugal, os nossos 50 mil hectares ardidos até agora representariam, do outro lado da fronteira, 275 mil hectares. Ou seja, mesmo este ano, o nosso país ardeu a uma taxa duas vezes superior a Espanha.

Este cenário mostra, assim, que a aposta na primeira intervenção está longe de ser vencedora. E os resultados até parecem mostrar, em muitas situações, que os indicadores de eficácia podem estar muito longe da realidade. Com efeito, até agora conseguiu-se extinguir 88% de todas as ignições registadas antes de ultrapassar um hectare ardido – fronteira que separa, tecnicamente, os fogachos dos incêndios –, mas a evolução é demasiado excelente para não levantar dúvidas. De facto, na última década a taxa de sucesso da primeira intervenção rondava os 76%, sem que em nenhum ano se conseguisse chegar aos 80%. Estes valores já eram, em si mesmo, demasiado elevados para os padrões internacionais. Por exemplo, na Espanha – onde existem menos ignições e área ardida, mesmo em termos absolutos –, essa taxa ronda apenas os 65%.

Mais do que uma eficácia de excelência – que, em todo o caso, não se repete no combate estendido – estas taxas indiciam alguma «engenharia estatística», que permite manipulações. Com efeito, apenas os incêndios com mais de 10 hectares ardidos têm uma confirmação posterior da sua existência no terreno, por parte da DGRF. Significa isto que a esmagadora maioria dos registos de pequenas ignições é transmitida pelas corporações de bombeiros, sem ocorrer qualquer validação oficial. Por exemplo, no ano passado, 28% dos fogos registados tiveram áreas alegadamente queimadas inferiores a 100 metros quadrados. E existem mesmo milhares de registos com áreas de um, dois ou três metros quadrados. Ou seja, muitos podem nem sequer ter existido.

O interesse em registar muitos fogachos é duplo: funciona como argumento da dispersão de meios – justificativo aquando dos grandes incêndios – e melhora a eficácia da primeira intervenção. Isso mesmo se verifica este ano: houve apenas 2402 incêndios – um valor que está dentro da normalidade –, mas registaram-se quase 16800 fogachos, um número absurdamente elevado. Numa análise detalhada, verificam-se mesmo casos regionais intrigantes. Por exemplo, em Faro, em que apenas arderam 103 hectares até agora, houve já 506 ignições – mais do dobro do número médio em anos anteriores –, das quais 465 foram meros fogachos. Em Aveiro para 1856 ignições contabilizam-se 1765 fogachos, o que deste modo permite uma impressionante taxa de sucesso de primeira intervenção de 95%.

A suspeita de inflação na contabilização de fogachos ganha ainda mais forma quando se comparam os registos nacionais com o Nordeste espanhol, que reconhecidamente apanhou com uma vaga de chamas. Até meio de Agosto, o Ministério do Ambiente espanhol registou 7920 fogos nas comunidades da Galiza, Astúrias, Cantábria e País Vasco e nas províncias de Leão e Zamora. Porém, sem que isso fosse visível no terreno, em Portugal terão sido registados 8.059 fogos apenas nos distritos de Viana do Castelo, Braga e Porto. Neste último distrito contabilizou-se 1702 fogos na primeira quinzena de Agosto – o que dá mais de uma centena por dia –, embora somente surjam nas estatísticas oficiais 212 a ultrapassarem um hectare de área queimada.

Mas também nos reacendimentos – as novas ignições em fogos considerados extintos, por deficiência no rescaldo –, os resultados deste ano mostram uma evolução anormalmente boa. De facto, no último quinquénio, a taxa de reacendimentos em Portugal situava-se nos 4%, quase quatro vezes superior a Espanha. No entanto, este ano, oficialmente os reacendimentos quase desapareceram. Na primeira quinzena de Agosto apenas houve 13, representando 0,2% das ignições registadas. Ora, em igual período do ano passado – em que houve cerca de metade dos fogos –, tinham sido registados 272 reacendimentos, ou seja, 7% do total. Neste caso, por isso, a contabilidade oficial parece estar a excluir reacendimentos, para dar uma ideia de eficácia.

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