ESTRAGO DA NAÇÃO

3/06/2004

Farpas Verdes XLII

José Eduardo Martins, secretário de Estado do Ambiente, devia ter lido o excelente artigo de opinião de ontem no Público de Miguel Sousa Tavares. O nosso melhor «opinion-maker» insurgia-se contra «os sinais de um tipo de argumentação política, ainda desgarrado e desorganizado, mas que tenta fazer o seu caminho» e que consiste «grosso modo, em restringir a liberdade de opinião, de crítica política ou de intervenção cívica àqueles que "foram a votos" ou têm "obra feita"».

Acrescenta Miguel Sousa Tavares que «se o fôssemos a aceitar (esta argumentação), significaria que, para todos os efeitos, passariam a existir duas categorias de cidadãos, no que ao exercício do direito de intervenção política se refere: os que foram a votos e os que não foram. Sendo que a intervenção política dos primeiros estaria sempre e em cada momento sufragada e particularmente qualificada pelo voto dos eleitores que neles votaram. Qualquer discussão entre as duas espécies estaria assim à partida prejudicada pela fatal pergunta: "Eu valho x votos. Tu quantos vales?"».

Como o secretário de Estado não leu o que deveria ter lido - e, aliás, não lê nem sabe o que deveria saber e ler - foi ontem à noite, em Viana do Castelo, zurzir nos ambientalistas e sobretudo na Quercus por causa das críticas à sua obtusa proposta de multar quem não separa o lixo. Disse José Eduardo Martins - pegando na tese que Miguel Sousa Tavares tão bem critica - que «no conjunto de pessoas que se interessam pelas políticas do ambiente, há os que acham que têm obrigação de intervir, se candidatam a eleições, assumem responsabilidades e procuram fazer coisas, e os que nunca vão a votos e mudam o Mundo pela televisão. Acho que para mudar o mundo é preciso trabalhar um bocadinho mais».

Não sei quantos votos em termos ambientais valerá José Eduardo Martins. Mas não deve, certamente, ter valido muitos nas eleições de Março de 2002. Na área do ambiente, somente vejo duas pessoas que comprovadamente valeriam votos: Gonçalo Ribeiro Telles e Carlos Pimenta. Qualquer que fosse o partido por onde se candidatassem, não teria quaisquer hesitações em votar neles (mais díficil de descidir seria se se candidatassem, em simultâneo, em partidos diferentes).

Agora, em relação a José Eduardo Martins, tendo em conta a sua postura dos últimos tempos, o seu trabalho (pouco e quando feito, mal feito), acho mesmo, sinceramente, que ele vale votos perdidos para o PSD. E não se pode colocar em bicos de pés, quando usa uma argumentação dos votos; ele está no Governo e foi eleito deputado não por mérito próprio, mas sim pelo actual sistema eleitoral que não é representativo.

Além disso, o secretário de Estado do Ambiente tem de compreender que a democracia não se esgota no acto eleitoral, nem tão-pouco a vitória numas eleições significa que quer aqueles que sancionaram um partido para formar Governo, quer os que votaram contra, estejam condicionados a excercer os seus direitos de cidadania. De concordar ou discordar com as políticas do Governo.

Em suma, José Eduardo Martins ganharia mais em ter estado calado. E já ágora também ganharia mais em«trabalhar um bocadinho mais».

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