ESTRAGO DA NAÇÃO

3/17/2004

Farpas Verdes XLVI

As associações ambientalistas - nomeadamente a Quercus e a Liga para a Protecção da Natureza - mostraram ontem uma ingenuidade confrangedora ao cairem que nem patinhos no estratagema de um político experiente como é Pedro Santana Lopes de lhes conceder uma reunião para debater os projectos para Monsanto.

Quando várias entidades com objectivos tão díspares como são as associações de moradores e os ambientalistas se congregam numa mesma luta têm de falar a uma só voz. Aliás, para evitar que se ouçam várias versões convém que haja apenas um ou dois representantes que assumem as posições conjuntas e bem concertadas de todas as entidades. Por isso, foi, desde logo, contraproducente estarem presentes elementos de cada uma das entidades que integram a Plataforma por Monsanto. E foi por várias razões: em termos práticos, embora não tenha estado na reunião, a experiência mostra que numa reunião com tanta gente não se torna possível debater e argumentar com o detalhe desejado. Como todos têm de falar, mesmo que repitam os mesmos argumentos, a produtividade é pequena e o "ruído de fundo" é grande.

Ainda mais quando não se conhece em detalhe os projectos, sobretudo pela repetida recusa da autarquia em fornecer elementos em concreto. As associações mostraram, aliás, também aqui, uma enorme ingenuidade a este respeito. A aceitação de uma reunião deveria ter, como pressuposto, o fornecimento dos projectos detalhados. Como isso não aconteceu, as posições da Plataforma por Monsanto estava à partida fragilizada. E para além da reunião ter dado uma ideia de pacificação - na notícia de hoje do Público surge, desde logo, o título "Plataforma Por Monsanto Bem Impressionada com Santana Lopes" - fornece um argumento de peso à Câmara Municipal de Lisboa. No futuro, mesmo que Santana Lopes se marimbe para as reivindicações, pode sempre dizer que ouviu as associações.

Por outro lado, as associações ambientalistas também cometeram um erro crasso ao não estarem representadas ao seu máximo nível. Sem prejuízo do que defendi anteriormente (de haver apenas um ou dois representantes da Plataforma por MOnsanto numa eventual reunião), quer a Quercus, quer a LPN deveriam ter sido representadas ao nível do presidente da direcção. Seria uma forma de vincar que se estava perante um assunto de importância crucial.

Não vi, por outro lado, nas declarações das associações na comunicação social, a defesa de um aspecto fundamental sobre Monsanto: que todos estes projectos sejam analisados no seu conjunto e com a respectiva discussão pública. Em situações em que se considere importante, a lei dos estudos de impacte ambiental admite que seja feita uma avaliação prévia. Isso mesmo deveria ter sido defendido pela Plataforma por Monsanto. Mas não foi.

Por fim, parece-me também ingénuo que, nesta fase do campeonato, onde Santana Lopes já deu mostras daquilo que pretende fazer, que as associações ainda se ponham a elogiá-lo pela reunião que lhes concedeu. Não gostei nada de ver frases como: «Notámos flexibilidade no presidente da câmara», ditas por Artur Lourenço, da Associação de Amigos e Utilizadores de Monsanto; ou «O presidente acolheu com agrado sugestões nossas», como afirmou Álvaro Madeira, da Associação de Moradores do Alto da Ajuda; ou ainda que «A reunião foi boa», conforme salientou José Veloso, dirigente do Clube de Actividades de Ar Livre.

Temo o pior, portanto.

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